A mancha surge primeiro nas imagens de satélite como um erro de pixel: uma faixa castanho-escura, espessa, que corta o Atlântico quase de uma margem à outra. Do céu, parece uma cicatriz derramada sobre um oceano que julgamos imutável. No local, ao nível da água, não são pixels, mas algas que se colam às pernas, entopem os portos, saturam o ar com um odor doce-ácido que provoca náuseas. Famílias fecham as janelas em pleno verão. Pescadores ficam presos ao cais, apanhados por uma sopa vegetal vinda do nada. Ou melhor: vinda de nós. Porque, quanto mais os investigadores aprofundam, mais uma pergunta incómoda vem à superfície.
E se esta maré castanha gigante fosse a nossa obra coletiva?
Quando o Atlântico fica castanho
À sua frente, a água já não é azul, mas cor de café com leite, riscada por manchas espessas. Os turistas, com as máscaras na testa, olham para este tapete castanho que se estende até ao horizonte. Tinham vindo pelas tartarugas e pelos corais fluorescentes. Encontram-se diante de uma parede de algas em decomposição que vai mordiscando lentamente a praia ao lado.
Todos já vivemos aquele momento em que a paisagem que julgávamos eterna muda de repente. Aqui, o cheiro é pesado, quase metálico. Os marinheiros comparam-no a uma mistura de ovos podres e jardim abandonado. Na areia, retroescavadoras recolhem algas às toneladas, dia após dia, como se estivessem a limpar neve de uma autoestrada. Os hotéis estão esgotados, mas os turistas ficam no bar, janelas fechadas, a fugir ao fedor. O postal amarrotou-se de repente.
Esta fita castanha tem um nome: a Grande Faixa de Sargaço do Atlântico. Uma cadeia flutuante com vários milhares de quilómetros de comprimento, por vezes com 300 a 500 quilómetros de largura, observada quase todos os anos desde 2011 entre África e as Caraíbas. Os cientistas já a acompanhavam há algum tempo. No início, pensaram que seria um fenómeno natural amplificado. Depois, os números dispararam: anos com 20 milhões de toneladas estimadas, tapetes visíveis até do espaço. As perguntas também mudaram. Já não se perguntava apenas “de onde vem?”, mas “o que é que nós fizemos para isto acontecer?”
A fertilizar um monstro que não queríamos fazer crescer
À partida, as sargaças não são intrusas. São algas castanhas flutuantes que vivem ao largo, formando um ecossistema único. Entre a Florida e as Bermudas, o Mar dos Sargaços é até um refúgio para peixes, crias de tartaruga e aves marinhas. Durante séculos, estas algas derivaram tranquilamente, reguladas pelas correntes, pelas estações e pelas tempestades. Um equilíbrio frágil, discreto, mas que se mantinha.
Tudo muda quando os cientistas detetam uma segunda “faixa” de sargaças, não no mar histórico, mas ao longo do equador. Imagens de satélite entre 2011 e 2023 mostram um novo corredor castanho a formar-se todos os anos, entre a foz do Amazonas e as Caraíbas. Em 2018, o Atlântico regista um dos episódios mais massivos alguma vez observados: uma faixa quase contínua com mais de 8 000 quilómetros. Vêem-se jangadas de algas a prender hélices de barcos de pesca no México, a sufocar pradarias marinhas nas Antilhas Francesas, a invadir praias em Cabo Verde.
Não é apenas uma história de correntes caprichosas. A investigação recente aponta para um cocktail muito humano. Os fertilizantes azotados e fosfatados espalhados nos campos brasileiros e africanos acabam no Amazonas, no Orinoco e nos grandes rios costeiros. Aí, alimentam as sargaças como um superfertilizante. A desflorestação da Amazónia altera os fluxos de nutrientes e sedimentos. O aquecimento das águas superficiais acelera o crescimento das algas, que adoram estas “banheiras” tépidas. Sejamos honestos: ninguém pensa todos os dias, ao ler rótulos dos alimentos ou ao escolher combustível, nas sargaças. E, no entanto, são os nossos gestos banais, multiplicados por milhões, que alimentam esta faixa castanha gigante.
O que podemos realmente fazer do nosso lado da costa
Perante uma faixa de algas tão vasta como um continente, sentimo-nos minúsculos. Isso não impede que alguns gestos muito concretos façam diferença. Na alimentação, optar por menos carne industrial e por soja não proveniente de zonas desflorestadas reduz a pressão sobre a Amazónia - e, portanto, sobre os nutrientes que acabam no mar. Em casa, privilegiar produtos de limpeza e jardinagem sem fosfatos, evitar fertilizações excessivas nos relvados, reduz a fuga de nutrientes para os rios.
Nas regiões costeiras, alguns habitantes organizam-se de outra forma. Alguns hotéis nas Caraíbas alteraram os seus sistemas de águas residuais para reduzir o aporte local de azoto. Cooperativas de pescadores testam redes-barreira para conter as algas antes de chegarem às praias e depois transformam-nas em composto agrícola. Não existe “a” solução milagrosa: é um puzzle de micro-soluções. Cada um pega numa peça, conforme a sua realidade e os seus meios. O gesto isolado parece insignificante, mas muda pelo menos duas coisas: o fluxo de nutrientes… e a sensação de total impotência.
Os erros são fáceis. Desistir, pensando que tudo se decide à escala dos Estados. Achar que separar o lixo basta. Subestimar o poder de escolhas coletivas locais, como a qualidade das ETAR ou as práticas agrícolas regionais. Os investigadores repetem-no, quase cansados dos seus próprios números:
“A Grande Faixa de Sargaço não é um acidente isolado, é um espelho. Devolve-nos aquilo que fazemos à terra, aos rios e ao clima”, explica uma oceanógrafa que acompanha o fenómeno há dez anos.
- Limitar os inputs agrícolas e urbanos que escorrem para os rios é aliviar o cerco nutritivo em torno das sargaças.
- Apoiar autarquias que investem em sistemas modernos de tratamento de águas residuais é fechar uma torneira invisível.
- Acompanhar projetos locais de valorização das algas (composto, materiais) é transformar um problema num recurso, em vez de o empurrar para uma lixeira a céu aberto.
A linha castanha que redesenha o nosso mapa mental do oceano
A faixa castanha que sufoca o Atlântico não é apenas uma curiosidade vista por satélite. É um lembrete de que o oceano não é uma folha em branco onde os nossos excessos se diluem docilmente. As aldeias das Caraíbas, do México e da África Ocidental vivem agora ao ritmo das chegadas de algas, tal como outras vivem ao ritmo das épocas turísticas. Num ano, a praia está livre, a água é transparente. No ano seguinte, o mar devolve toneladas de vegetação castanha que enterra sonhos de férias - e também empregos muito concretos.
Perante esta linha móvel, os cientistas não têm todas as respostas. Ainda discutem a parcela exata do clima, dos fertilizantes, das correntes, das poeiras saariana ricas em ferro que caem sobre o Atlântico. Refinam modelos, identificam pontos cegos, admitem por vezes ter-se enganado. Isso contrasta num mundo onde toda a gente finge ter “a” solução simples. Entretanto, os habitantes não têm o luxo de esperar pelo estudo perfeito. Improvisam, erram, recomeçam.
A verdadeira pergunta desliza então, devagar: e se esta maré castanha gigante não fosse apenas mais um problema, mas um aviso precoce sobre a forma como tratamos fronteiras invisíveis? A fronteira entre campos e rios. Entre rios e mar. Entre conforto imediato e consequências longínquas. Cada um pode escolher ficar espectador desta cicatriz acastanhada nos mapas meteorológicos. Ou decidir vê-la como um sinal, um pouco brutal, que nos lembra que toda a marca deixada na terra acaba, mais cedo ou mais tarde, no oceano. E que, uma vez lá, regressa sempre até nós, sob uma forma ou outra.
| Ponto-chave | Detalhes | Porque importa para os leitores |
|---|---|---|
| Onde aparece a faixa castanha | A Grande Faixa de Sargaço do Atlântico tende a formar-se entre a África Ocidental, a foz do Amazonas e as Caraíbas, com picos de proliferação frequentemente registados do fim da primavera até meados do verão. | Se vive, viaja ou trabalha nestas costas, este calendário pode perturbar férias, saídas de pesca e até empregos locais durante vários meses por ano. |
| Impactos na saúde e na vida diária | Quando as sargaças se decompõem, libertam sulfureto de hidrogénio e amoníaco, que podem provocar dores de cabeça, náuseas ou dificuldades respiratórias, sobretudo em crianças e pessoas com asma. | Saber quando fechar janelas, evitar exercício intenso perto de praias afetadas ou procurar aconselhamento médico pode tornar um incómodo desagradável em algo gerível. |
| Como escolhas individuais alimentam o problema | Elevado consumo de carne, produtos ligados à desflorestação da Amazónia, uso excessivo de fertilizante em relvados e jardins e águas residuais mal tratadas aumentam a escorrência de nutrientes que ajuda a alimentar as proliferações. | Ajustar mesmo uma parte da dieta, dos hábitos de jardinagem e das escolhas de consumo reduz a carga de nutrientes que segue para o Atlântico e diminui a pressão de longo prazo sobre comunidades costeiras. |
FAQ
Esta faixa castanha de algas é perigosa para nadar?
As sargaças frescas, em si, são normalmente mais incómodas do que perigosas: colam-se, enredam as pernas e podem esconder rochas ou ouriços-do-mar. O verdadeiro problema surge quando grandes tapetes apodrecem junto à costa, libertando gases que irritam os olhos e os pulmões. Se o cheiro for muito intenso e tiver asma ou alergias, é mais prudente manter distância.Somos mesmo responsáveis por esta faixa gigante de algas?
Os cientistas apontam para uma mistura de ciclos naturais e ações humanas, mas a marca humana é cada vez mais clara. Mais fertilizantes em terra, mais desflorestação na Amazónia, águas superficiais mais quentes e rios poluídos criam condições perfeitas para as sargaças explodirem em número. Não “inventámos” estas algas, mas ajudámos claramente a alimentá-las.As sargaças podem ser transformadas em algo útil?
Sim, e os projetos-piloto multiplicam-se. No México, nas Caraíbas e na África Ocidental, as sargaças recolhidas estão a ser transformadas em composto, blocos de construção, aditivos para ração animal e até materiais de base biológica. Não apaga as causas de raiz, mas ajuda as localidades costeiras a gerir montes de algas sem as despejar simplesmente em aterros.O que posso fazer se viver longe do Atlântico?
O impacto passa sobretudo pelo que consome. Comer menos carne de cadeias industriais, evitar produtos ligados à desflorestação da Amazónia e reduzir o uso de fertilizantes no jardim limita os nutrientes que acabam por chegar ao oceano. Apoiar políticas para rios mais limpos e melhor tratamento de águas residuais na sua região também ajuda, mesmo que o mar esteja a centenas de quilómetros.Esta faixa castanha vai continuar a crescer todos os anos?
Os dados de satélite mostram variações fortes de ano para ano: algumas épocas são extremas, outras mais calmas. Enquanto a poluição por nutrientes e o aquecimento do oceano continuarem a aumentar, o risco de fundo mantém-se elevado. A dimensão das proliferações futuras dependerá tanto das nossas emissões e práticas agrícolas como das variações naturais das correntes e da chuva.
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