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Um psicólogo defende que buscar felicidade, em vez de significado, piora a vida.

Pessoas escrevendo em caderno numa mesa com plantas, chávena, garrafa e calendário.

Uma nova aplicação, uma nova rotina, um novo vídeo “esta única coisa mudou a minha vida”. E, no entanto, tarde da noite, a fazer scroll debaixo dos lençóis, muita gente sente-se estranhamente vazia. Cumpriram os requisitos, fizeram o autocuidado, repetiram os mantras… mas alguma coisa continua a não encaixar.

Esse desconforto silencioso vai roendo durante chamadas de trabalho, nas tardes de domingo, até naqueles momentos supostamente “perfeitos” nas férias. Começa a perguntar-se se o problema é seu. Se está avariado por não sentir a alegria que lhe prometeram.

Um psicólogo diria que não está avariado coisa nenhuma. Está apenas a perseguir a coisa errada.

Quando a felicidade se torna uma armadilha

Imagine isto: um jovem profissional, bom salário, apartamento decente, amigos para beber um copo. Por fora, parece bastante sólido. Por dentro, há um placar constante: Estou feliz o suficiente? Estou a viver bem? Essa autoavaliação obsessiva transforma cada experiência num teste.

Em vez de viver o momento, está a avaliá-lo. Um café com um amigo vira um inquérito mental. Foi divertido o suficiente? Aquela viagem de verão torna-se conteúdo para o Instagram, prova de que a vida está a correr bem. Quanto mais mede o seu próprio nível de felicidade, menos sente algo de verdadeiro.

Este é o paradoxo estranho a que o psicólogo aponta: quanto mais persegue a felicidade, mais depressa ela lhe escapa.

Numa videochamada a partir do seu pequeno escritório forrado de livros, o psicólogo fala-me de um cliente a quem chama “Daniel”. Trinta e tal anos, trabalho numa startup, ginásio, todas as aplicações certas. “Ele avaliava os dias de zero a dez”, diz o psicólogo. “Todos os dias. Durante anos.” Quando o trabalho corria bem, escrevia um 8. Quando os encontros corriam mal, descia para 3. A vida dele tornou-se uma folha de cálculo de sentimentos.

Um dia, depois de conseguir uma promoção com que fantasiara, Daniel apercebeu-se de algo inquietante. O pico de felicidade durou cerca de 48 horas. Depois o cérebro, silenciosamente, mudou os critérios. Novo salário, o mesmo vazio. Começou a perseguir o próximo estímulo: uma viagem, um relógio novo, um curso de formação. O gráfico continuava a pulsar, mas a linha de base nunca mudava.

A investigação confirma isto de forma discreta. As pessoas que se focam na felicidade como objetivo tendem a sentir-se mais ansiosas e sós do que aquelas que se focam no sentido. Quanto mais procura prazer constante na vida, mais repara nas suas falhas.

O psicólogo explica em termos simples: felicidade é um estado de humor. Sentido é uma direção. Os estados de humor são instáveis por natureza; sobem e descem com o sono, as hormonas, o tempo, um comentário despreocupado do chefe. Se a sua vida toda é medida por essa linha instável, fica preso numa montanha-russa que nunca chega a desfrutar.

O sentido funciona de outra maneira. Não se trata de “Estou feliz agora?”, mas de “Isto importa para mim?” Essa pergunta consegue conter alegria e tédio, entusiasmo e luto, tudo no mesmo dia. Pais entendem isto. Cuidadores entendem isto. Qualquer pessoa que tenha ficado com algo difícil porque importava - sente-o nos ossos.

Quando muda de perseguir felicidade para perseguir sentido, os dias dolorosos não parecem fracassos. Parecem parte da história.

Como trocar discretamente felicidade por sentido, a partir de hoje

O psicólogo sugere um passo enganadoramente simples: pare de perguntar “Estou feliz?” e comece a perguntar “Ao serviço de quê estou eu?” Podem ser os seus filhos, a sua arte, a sua comunidade, a sua fé, a sua curiosidade. Não precisa de ser grandioso nem digno de Instagram. Só precisa de soar verdadeiro quando o diz em voz alta.

Pegue num dia normal e mapeie-o à luz dessa pergunta. Quando se sentiu mais envolvido, mais “presente”? Foi a ajudar um colega a desfazer um problema? A cozinhar para alguém? A perder-se num projeto paralelo pelo qual ninguém lhe paga? Esses momentos são pistas. Apontam para o tipo de sentido que o seu sistema nervoso reconhece como verdadeiro.

O sentido muitas vezes esconde-se em coisas que já faz, mas que não leva a sério.

A nível prático, o psicólogo vê as pessoas caírem nas mesmas armadilhas. Tentam redesenhar a vida inteira num fim de semana. Novos hábitos, nova rotina matinal, decisões dramáticas de carreira. Depois estoiram, sentem-se fracassos e voltam a rastejar para a perseguição de pequenos picos de felicidade.

Ele sugere algo mais suave, quase aborrecido: adicionar um pequeno ato de sentido por dia. Uma chamada de cinco minutos para saber de alguém. Escrever um parágrafo daquela história que continua a adiar. Fazer voluntariado uma vez por mês, sem anunciar online, apenas ir. Um tijolo de cada vez.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Nalguns dias vai escolher o sofá, o telemóvel e a gargalhada fácil. Tudo bem. A mudança acontece quando começa a notar quais são os dias que deixam um sabor discreto e assente… e quais os dias que deixam apenas ruído.

“A felicidade é um subproduto”, diz-me o psicólogo, recostando-se na cadeira. “Quando aponta a sua vida para aquilo que considera significativo, a felicidade aparece como uma visita. Quando persegue a felicidade diretamente, comporta-se como um desconhecido que não responde às suas mensagens.”

“Uma vida com sentido não é uma vida constantemente feliz. É uma vida para a qual está disposto a aparecer, mesmo nos dias maus.”

  • Mudança prática #1: Substitua “Isto vai fazer-me feliz?” por “Isto vai parecer significativo daqui a três anos?”
  • Mudança prática #2: Marque no calendário uma pequena ação com sentido, como se fosse uma reunião consigo próprio.
  • Mudança prática #3: Repare quando as redes sociais o fazem comparar a sua pontuação de felicidade com a dos outros - e afaste-se durante uma hora.

O alívio silencioso de escolher sentido em vez de humor

Numa terça-feira chuvosa, encontro uma enfermeira na pausa lá fora, à porta de um hospital. Está exausta, café na mão, olhos marcados por um cansaço que nenhum fim de semana num spa resolve. Pergunto-lhe, com cuidado, se ela é feliz no trabalho. Ela ri-se. Não é um riso amargo, é um riso de quem sabe.

“Feliz? Alguns dias, sim”, diz. “Noutros dias, choro na casa de banho do pessoal.” Encolhe os ombros. “Mas não quero fazer outra coisa.” A frase fica no ar como um pequeno ato de rebeldia contra o culto da positividade constante. A vida dela não cabe em nenhum molde brilhante de felicidade. Ainda assim, há uma solidez na forma como o diz que mil publicações #abençoado não conseguem tocar.

Numa viagem de autocarro para casa, tarde nessa noite, vê versões dela por todo o lado. O pai solteiro com tinta nas mãos de um segundo emprego. O estudante a adormecer sobre o manual. O vizinho que passa as noites a cuidar de um pai idoso. Nem todos são felizes. Muitos estão profundamente cansados. Ainda assim, há um fio a atravessar os dias deles que vai além de “Como me sinto agora?”

Todos já vivemos aquele momento em que caímos na cama depois de um dia difícil, desarrumado, com sentido, e sentimos algo melhor do que felicidade: uma espécie de certeza tranquila. O psicólogo diz que esse sentimento é muitas vezes sinal de que está alinhado com os seus valores, mesmo que o seu humor ande aos solavancos. O humor é meteorologia. O sentido é clima.

Quem persegue a felicidade sente-se muitas vezes sozinho, porque tudo vira um projeto pessoal. Como otimizo a minha vida? A minha manhã? A minha produtividade? O sentido tem uma forma de virar o olhar para fora. Quem posso ajudar? O que posso contribuir? Onde posso manter-me firme, mesmo quando é desconfortável? Essa mudança do “eu” para o “nós” é onde muita gente redescobre um sentimento de pertença.

O psicólogo não romantiza o sofrimento. É claro: nem toda a adversidade tem sentido, e ninguém precisa de “encontrar propósito” em cada ferida. Alguma dor é apenas dor. Ainda assim, quando as pessoas têm uma noção do que estão a viver, enfrentam as tempestades de outra maneira. Separações, despedimentos, doenças não as apagam. Dobradas, mas não desaparecem.

O que torna a vida pior, insiste ele, não é querer ser feliz. É exigir que a vida seja fácil, leve e prazerosa em permanência, e chamar fracasso a tudo o resto. Essa mentalidade transforma engarrafamentos, discussões e até o luto em prova de que está a “viver mal”. O sentido permite desordem. Conta com ela.

Por isso, o convite é discretamente radical numa cultura obcecada por boas vibrações: deixe a felicidade ser uma visita, não o seu chefe. Deixe o sentido definir a direção, mesmo quando o caminho é feio. E, nos dias em que a alegria aparece de repente, vai reconhecê-la pelo que é: um momento para saborear, não um padrão para manter.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
A felicidade como alvo móvel Perseguir sentimentos bons constantes cria ansiedade e autojulgamento. Ajuda a explicar porque se sente “estranho” mesmo quando, no papel, a vida parece boa.
O sentido como direção estável Focar-se no que importa para si torna os dias difíceis suportáveis e ricos. Oferece uma satisfação mais profunda e duradoura do que as oscilações de humor.
Pequenos atos diários com sentido Uma ação com sentido por dia vai, lentamente, remodelando a narrativa da sua vida. Dá-lhe uma forma realista e prática de sair da armadilha da felicidade.

FAQ:

  • Como sei o que é significativo para mim? Repare quando perde a noção do tempo, se sente discretamente orgulhoso depois, ou continuaria a fazer algo mesmo que ninguém visse nem elogiasse. Esses são sinais fortes de sentido pessoal.
  • Ainda posso querer ser feliz? Claro. A questão não é rejeitar a felicidade, mas deixar de a tratar como objetivo principal. Quando o sentido lidera, a felicidade aparece de forma mais natural e sente-se menos frágil.
  • E se a minha vida me parecer sem sentido neste momento? Comece pequeno. Escolha um valor de que goste - bondade, aprendizagem, criatividade - e faça hoje um gesto mínimo que o reflita. O sentido cresce através de ações repetidas e modestas, não de grandes epifanias.
  • O sentido envolve sempre sofrimento? Não. Muitos momentos com sentido são alegres e leves. A diferença é que o sentido também consegue conter desconforto sem quebrar, enquanto a felicidade pura não consegue.
  • Ainda vou a tempo de mudar de direção? O sentido não é um destino fixo; é algo para o qual pode inclinar-se em qualquer idade. Uma única decisão honesta, conversa ou projeto pode começar a mudar a forma como a sua história se sente por dentro.

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