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Um hidratante antigo de marca pouco conhecida foi eleito o número um por especialistas em dermatologia.

Técnica de unhas aplica creme nas mãos de um cliente em espaço de spa com toalhas e frascos ao fundo.

O frasco não parecia um best-seller.

Sem vidro fosco, sem rótulo holográfico, sem código de influencer impresso na lateral. Era pequeno, um pouco antiquado, com um design que se esperaria ver no armário da casa de banho da sua avó em vez de numa “shelfie” do TikTok.

E, no entanto, na mesa entre chávenas de café e portáteis meio abertos, três dermatologistas estavam discretamente a elogiar o produto. Uma delas afastou um sérum da moda que custava o equivalente a uma semana de compras e deu um toque no boião discreto. “Se os meus pacientes usassem isto em vez daquele”, disse, “metade dos problemas desaparecia.”

Orçamento publicitário: zero. Sem campanha brilhante, quase sem presença no Instagram. E ainda assim, este hidratante de estilo retro acabou de ganhar o título com que todas as marcas de luxo sonham: número um nas recomendações de especialistas.

Como é que o outsider ganhou?

O creme “aborrecido” a que os dermatologistas continuam a voltar

Sabe aquela prateleira da farmácia onde tudo parece um bocado… básico. Tubos brancos, logótipos azuis, sem promessas de nada “infundido com diamantes”. É exatamente aí que vive este hidratante à moda antiga. Sem holofotes. Sem hype. Apenas uma reputação silenciosa e constante entre pessoas que passam os dias a observar pele real, de perto.

Os especialistas em dermatologia descrevem-no sempre da mesma forma: “fiável”, “previsível”, “acalmar”. Sem nuvem de perfume quando se abre, sem aquele deslizamento sedoso de silicone - apenas uma textura espessa e reconfortante que se funde devagar. No papel, soa quase aborrecido. Num rosto stressado, vermelho e repuxado às 23h30, de repente parece o produto mais inteligente da sala.

Uma dermatologista londrina disse-me que o recomenda mais do que qualquer creme de luxo na sua prateleira. Não por causa do preço, embora seja acessível. Mas porque os pacientes voltam e dizem sempre o mesmo: “A minha pele finalmente deixou de enlouquecer.” Isto é uma vitória que o marketing não consegue falsificar.

Veja-se o caso da Emma, 34 anos, com pele mista que reagia a quase tudo. Tinha experimentado o carrossel completo de “glow drops”, máscaras noturnas, séruns de renovação. A casa de banho parecia uma concept store. As bochechas? Constantemente irritadas. A certa altura aplicava cinco produtos por noite - todos de marcas conhecidas, todos “essenciais”.

Depois de uma consulta por vermelhidão persistente, a dermatologista reduziu a rotina a três passos e trocou o creme de luxo por este clássico discreto de farmácia. Sem retinol, sem péptidos, sem ácidos. Apenas uma fórmula rica mas simples, concebida há décadas e quase sem alterações.

Na primeira semana, a pele dela sentiu-se quase… aborrecida. Menos picadas, menos brilho, menos drama. Na terceira semana, começaram os comentários: “Dormiste mais?”, “A tua pele parece mais calma.” O antes/depois não foi espetacular ao nível de viral. Foi algo mais raro: pele estável, confortável, normal - uma pele que não precisava de filtro.

Os especialistas em dermatologia gostam deste tipo de produto por uma razão muito simples: respeita a barreira cutânea em vez de a “combater” todas as noites. Muitos hidratantes da moda são construídos como mini séruns de tratamento: ativos, fragrâncias, cocktails botânicos, promessas de marketing. Cada ingrediente novo é mais uma variável capaz de irritar pele sensível ou já sobretratada.

O hidratante à moda antiga que lidera estas listas costuma manter uma lista de ingredientes curta. Oclusivos que retêm a água. Emolientes que suavizam. Humectantes que atraem hidratação de forma gentil. Nada feito para chocar ou “transformar” a pele em 7 dias. Apenas o essencial, bem feito.

É precisamente isso que a pele moderna muitas vezes não tem. Entre poluição, aquecimento interior, luz azul e tendências agressivas de esfoliação, a nossa barreira está cronicamente sob ataque. Um creme humilde, mais gordo, ligeiramente espesso, que simplesmente repara e protege, acaba por ser exatamente o que falta nas rotinas saturadas de tecnologia. Não é glamoroso. Funciona.

Como usar um hidratante à antiga como um especialista

O produto em si é apenas metade da história. A forma como os dermatologistas pedem às pessoas para usar este tipo de creme é surpreendentemente específica. Não dizem aos pacientes para aplicar na pele totalmente seca e seguir com a vida. Falam de timing, textura e até do som que a pele faz quando se dá umas palmadinhas.

O ponto ideal é a pele ligeiramente húmida. Nem a pingar, nem seca de toalha há cinco minutos. Apenas aquele momento logo a seguir a secar suavemente o rosto, quando ainda há uma sensação fresca e suave à superfície. É aí que se retira uma pequena quantidade - menos do que imagina -, aquece-se entre os dedos e pressiona-se (não se esfrega) no rosto.

Pressionar permite que o creme se misture com a água à superfície, criando uma espécie de microemulsão diretamente na pele. É aí que a magia destas fórmulas simples realmente aparece.

Num dia mau de pele, a tentação é “fazer camadas”. Um pouco mais de sérum “por via das dúvidas”, um booster iluminador “porque foi caro”, uma bruma por cima porque as redes sociais disseram. Depois queixamo-nos de esfarelamento, ardor ou borbulhas e culpamos o último produto aplicado. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias com o rigor de um laboratório.

Os dermatologistas muitas vezes pedem o oposto com este hidratante: cortar tudo. Produto de limpeza. Talvez um tratamento direcionado se for mesmo necessário. Depois o creme à moda antiga. Só isso. Sem creme de olhos por cima, sem óleo, sem máscara noturna. Dar à pele uma mensagem, em vez de sete.

Erro comum número um: usar demasiado. Um creme espesso não precisa de ficar como cobertura de bolo para funcionar. Erro comum número dois: desistir ao fim de três noites porque não dá “brilho instantâneo”. Essa sensação lenta e constante de conforto é o brilho - só que com um figurino menos dramático.

Uma dermatologista com quem falei resumiu-o assim:

“Ativos da moda podem mudar a pele depressa. Hidratantes simples mudam a relação que tem com a sua pele.”

Essa frase ficou comigo. Porque isto não é apenas sobre um creme ganhar um ranking. É sobre como cuidamos do nosso rosto quando ninguém está a ver. O produto silencioso, ligeiramente gorduroso, que só usa em casa pode ser aquele que faz o trabalho pesado quando os filtros saem.

  • Use-o todas as noites sobre pele ligeiramente húmida durante pelo menos três semanas antes de tirar conclusões.
  • Combine-o com um produto de limpeza suave e pause esfoliantes agressivos enquanto testa.
  • Se tiver tendência para acne, comece com uma quantidade do tamanho de uma ervilha apenas nas zonas mais secas.
  • Repare em como a sua pele se sente às 16h, não apenas logo após a aplicação.
  • Mantenha uma alteração de cada vez para perceber o que está realmente a funcionar.

O que este “número um” discreto diz sobre as nossas rotinas

Perseguimos séruns que prometem “pele nova em 7 dias”, e ainda assim os dermatologistas continuam a escolher um hidratante que parece pertencer a uma casa de banho de 1998. Há um fosso entre aquilo que a ciência da pele recomenda em silêncio e aquilo que a indústria da beleza vende aos gritos. Num ecrã de telemóvel, o lado barulhento tende a ganhar.

Ao espelho, ganha o lado silencioso. Esse contraste é desconfortável se passou anos a seguir cada lançamento, convencido(a) de que o próximo boião iria resolver a vermelhidão ou a descamação. A um nível humano, é quase um alívio ouvir especialistas dizer: a sua pele pode simplesmente precisar de menos drama e mais gordura. E que o “melhor” creme pode ser aquele por que passa sem reparar.

Numa prateleira cheia de embalagens perfeitas, este hidratante à moda antiga parece quase teimoso na sua simplicidade. Não tenta torná-lo(a) mais jovem, perfeito(a) ou “glass”. Tenta fazer com que a sua pele volte a sentir-se como ela própria. Há algo estranhamente moderno nessa humildade.

Talvez seja por isso que este tipo de produto sobe ao topo quando os dermatologistas votam. Não é o creme mais entusiasmante. É aquele que eles têm menos receio de recomendar a uma enfermeira exausta após um turno da noite, a um adolescente em tratamento para acne, a um pai/mãe recente com o rosto gretado do inverno e da falta de sono. É um boião que pode ficar quieto ao lado do lavatório e, ainda assim, mudar o dia.

Não precisamos de abandonar todos os produtos sofisticados de um dia para o outro, nem de deitar fora o prazer das texturas e dos aromas. Ainda assim, há uma pergunta que vale a pena deixar assentar: se o hidratante mais confiável na sala é uma fórmula antiga, “aborrecida”, sem nome famoso, então o que é que temos andado a comprar este tempo todo - resultados, ou histórias?

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Hidratante escolhido por especialistas Creme à moda antiga, de farmácia, com uma lista de ingredientes curta e simples Ajuda a cortar o ruído do hype e a focar no que realmente funciona em pele real
A forma de aplicar importa Pequena quantidade, sobre pele ligeiramente húmida, pressionado e não esfregado Melhora o conforto, reduz a irritação e maximiza os benefícios
Menos pode ser mais Funciona melhor numa rotina simplificada, com menos produtos ativos Oferece uma abordagem mais calma e sustentável para o cuidado diário da pele

FAQ

  • Um hidratante à moda antiga é mesmo melhor do que cremes modernos de alta tecnologia? Nem sempre “melhor”, mas muitas vezes mais fiável para pele irritada, sensível ou sobretratada, porque as fórmulas tendem a ser mais simples e focadas na barreira cutânea.
  • Pele oleosa ou com tendência acneica pode usar estes cremes clássicos, mais espessos? Sim, desde que a fórmula seja não comedogénica e usada com moderação; os dermatologistas sugerem muitas vezes aplicar apenas nas zonas secas ou começar algumas noites por semana.
  • Ainda preciso de séruns se usar um hidratante básico aprovado por dermatologistas? Os séruns podem ser úteis para preocupações específicas, mas um bom hidratante + protetor solar já garantem conforto e proteção para muitas pessoas.
  • Quanto tempo devo testar um hidratante novo antes de decidir se funciona? A maioria dos especialistas sugere pelo menos três semanas de uso consistente, com o mínimo de outras alterações, para avaliar conforto, textura e reação.
  • Porque é que as grandes marcas não promovem estas fórmulas simples de forma mais agressiva? Porque é mais difícil vendê-las como “revolucionárias” ou premium, mesmo quando oferecem resultados estáveis e de longo prazo que os pacientes notam.

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