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Todos os outonos, os jardineiros cometem o mesmo erro com as folhas.

Mulher a apanhar folhas caídas no jardim, próximo de flores amarelas e uma lanterna azul.

O vento andou atarefado toda a noite e, de manhã, o jardim parecia como se alguém tivesse sacudido uma centena de colchas de retalhos sobre o relvado. Folhas amarelas, cor de bronze, vermelho-vinho profundo jaziam em amontoados junto ao caminho, empilhadas nos canteiros, presas no tomilho. O vizinho já lá estava, soprador a motor a guinchar, a empurrar cada folha para sacos de plástico bem apertados, que depois alinhava ao pé do portão como segredos culpados.
Fiquei com a minha caneca de chá na mão, a sentir aquele puxão familiar: a vontade de “arrumar”, de fazer o jardim parecer impecável, respeitável, pronto para as redes sociais.
Depois reparei num pisco-de-peito-ruivo a saltitar entre as folhas, a afastá-las para encontrar o pequeno-almoço, e percebi algo muito simples.
Talvez estejamos completamente errados sobre a “desarrumação” do outono.

O grande erro do outono, à vista de todos

Todos os outonos, os jardineiros repetem o mesmo ritual: ancinho, saco, despejo.
Folhas perfeitamente boas são tratadas como lixo, enfiadas em sacos do lixo ou levadas para o ecocentro à velocidade a que caem.
O relvado tem de estar verde, as bordaduras nuas, o solo “limpo”. É essa a história que nos venderam.

Passeie por qualquer rua suburbana no fim de outubro e vai vê-lo.
Pessoas de camisolas grossas, com as costas já doridas, a juntar folhas em montes instáveis, enquanto as crianças saltam para dentro deles durante cinco segundos antes de desaparecerem em sacos pretos.
As autarquias reportam literalmente toneladas de resíduos de folhas a ir para aterro todos os anos, mesmo quando os jardineiros gastam dinheiro em composto, casca de pinheiro e adubos para “melhorar” o solo.

O que esses sacos pretos realmente contêm é cobertura morta gratuita, fertilizante de libertação lenta e abrigo de inverno para polinizadores.
As folhas são a forma como as árvores devolvem ao chão, repondo nutrientes, amaciando o solo, construindo vida de cima para baixo.
Quando as arrancamos dali, não estamos só a “arrumar” o jardim: estamos a retirar alimento, proteção e fertilidade futura. É esse o erro silencioso que se repete ano após ano.

O que fazer com tantas folhas, em vez de as deitar fora

A jogada mais inteligente não é livrar-se das folhas; é pô-las a trabalhar.
Comece por mudar o destino: em vez do lixo, aponte para os canteiros, à volta dos arbustos e para um canto sossegado onde possa fazer um simples monte de folhas.
Espalhe uma manta solta e irregular de folhas à volta das perenes e debaixo das sebes, com cerca de 5–8 cm de espessura, e deixe que a chuva e as minhocas façam quase todo o resto.

No relvado, não precisa de uma operação militar.
Retire com o ancinho apenas os montes grossos que abafam a relva e empurre-os diretamente para as bordaduras, para debaixo das árvores de fruto, ou para as camas da horta que vão “descansar” no inverno.
Se tiver corta-relva, passe por cima das folhas secas uma ou duas vezes para as triturar e espalhe a mistura sobre o relvado como uma cobertura superficial áspera e natural.

Pense nas folhas como um composto lento e suave que chega exatamente quando o jardim começa a abrandar.
Ajudam a manter o solo mais quente, retêm humidade e reduzem aquele aspeto de terra nua que convida as ervas daninhas.
Ao longo dos meses, fungos e invertebrados transformam-nas numa camada fina e escura que as plantas adoram.

Medos comuns, pequenos ajustes, grandes ganhos

A objeção é sempre a mesma: “Não vai ficar com mau aspeto?” ou “Não vai matar o relvado?”.
Há um equilíbrio a encontrar - e não passa por deixar meio metro de papa encharcada em cima da relva até à primavera.
Pense em padrões, não em perfeição: limpe onde as coisas são delicadas, mantenha algumas zonas arrumadas e deixe outras propositadamente mais selvagens.

Se tem receio de abafar, foque-se na densidade.
Tapetes espessos de folhas grandes e cerosas, como as de carvalho ou magnólia, podem bloquear luz e ar no relvado; por isso, desfaça os montes, triture-as ou leve-as para debaixo de árvores e arbustos, onde “fazem mais sentido”.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias; escolha uma tarde, dê um jeitinho às folhas e depois deixe a natureza continuar.

Num dia húmido de novembro, uma jardineira de vida selvagem em Devon disse-me algo que ficou comigo:

“Cada folha que ensacas é um pequeno habitat que cancelas. Cada folha que deixas é um voto pela vida no teu próprio jardim.”

Ela apontou para um canto tosco atrás do barracão, onde o monte de folhas zumbia baixinho com escaravelhos, aranhas e o trabalho lento da decomposição.

  • Mantenha as folhas longe de coberturas vegetais perenes delicadas.
  • Use folhas trituradas como um mulch mais “arrumado” à volta de roseiras e arbustos.
  • Deixe um pedaço selvagem onde as folhas possam acumular-se sem serem mexidas.
  • Evite sacos de plástico: use recipientes abertos ou simples gaiolas de arame.
  • Observe como a água, as minhocas e o tempo movem as folhas por si.

Repensar o aspeto de um “bom” jardim de outono

Numa tarde fria e sem vento, quando o sol baixo bate nos montes de folhas e os transforma em âmbar, o jardim parece diferente.
Menos como um showroom, mais como um lugar que está, discretamente, a fazer o seu trabalho - por baixo da superfície e fora de vista.
Todos conhecemos esse momento em que saímos à rua, ouvimos o estalar sob as botas e sentimos o ano a inclinar-se para o inverno.

É aí que o velho reflexo entra: pegar no ancinho, arrumar tudo, apagar a estação num fim de semana.
E se, este ano, parasse e deixasse mais do que limpa?
E se menos controlo lhe desse um relvado mais saudável, canteiros mais ricos e um jardim que, na primavera, realmente fervilha de vida?

Há um certo alívio em largar a luta constante contra a “confusão” da natureza.
Não tem de venerar as folhas nem transformar o jardim numa selva de um dia para o outro.
Só tem de deixar de tratar o outono como um problema a varrer e começar a vê-lo como o início silencioso do crescimento do próximo ano.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Guardar as folhas Usá-las como cobertura morta natural nos canteiros e debaixo dos arbustos Solo mais rico, menos trabalho na primavera, plantas mais vigorosas
Limitar o ancinho no relvado Afastar apenas os amontoados mais espessos; deixar o resto ou cortar por cima Relvado protegido sem passar todos os fins de semana de outono nisso
Criar um canto “monte de folhas” Definir uma zona dedicada ao composto de folhas e à fauna Refúgio para insetos, ouriços e aves, reduzindo os resíduos verdes

FAQ

  • Devo remover todas as folhas do relvado? Não todas. Retire as camadas espessas e encharcadas que bloqueiam a luz, mas uma dispersão leve pode decompor-se e alimentar a relva naturalmente.
  • As folhas molhadas são mesmo más para o jardim? Só são um problema quando formam tapetes pesados sobre plantas delicadas ou nos caminhos. Nos canteiros e debaixo de arbustos, fazem parte de um ciclo saudável do solo.
  • Quanto tempo demora um monte de folhas a transformar-se em composto de folhas (leaf mould)? Normalmente, um a dois anos, dependendo da humidade e da temperatura. O resultado final é um material escuro e esfarelado que funciona como um composto suave e de alta qualidade.
  • Posso usar todos os tipos de folhas como cobertura morta? A maioria serve. Folhas muito rijas ou cerosas podem ser trituradas primeiro para se decomporem mais depressa e não formarem “placas” compactas.
  • Deixar folhas atrai pragas? Atrai vida em geral: insetos, fungos, pequenos animais. Num jardim equilibrado, isso é uma força, não uma ameaça, e tende a melhorar a biodiversidade em vez de criar problemas.

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