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“Sinto-me mais calmo sozinho do que com outros”: a psicologia explica a regulação interna

Mulher meditando à mesa com as mãos no peito, com café fumegante e livro aberto à frente.

Cancela os copos com amigos à última hora e sente uma onda de alívio.
O barulho, as conversas sobrepostas, os micro-ajustes constantes ao humor de toda a gente… de repente já não tem de fazer nada disso. Está sozinho no sofá com um chá, ou a fazer scroll no telemóvel na cama, e o seu corpo desaperta-se em silêncio, como se estivesse à espera disto o dia inteiro.

Começa a perguntar-se: sou apenas antissocial? Estou “avariado”? Ou estará a acontecer outra coisa no meu sistema nervoso quando estou com outras pessoas.

O estranho é que gosta de algumas destas pessoas. Não está aborrecido, não está zangado. Simplesmente sente-se mais em paz quando elas não estão presentes.

Os psicólogos têm um nome para esse alívio silencioso.
E, quando o compreende, a sua vida começa a fazer sentido de uma forma diferente.

Porque se sente mais calmo sozinho: quando o seu sistema nervoso finalmente expira

Há pessoas que entram numa sala cheia e sentem-se energizadas.
Outras entram na mesma sala e o corpo muda discretamente para “modo de sobrevivência”. Batimento cardíaco a subir. Músculos ligeiramente tensos. Cérebro a vigiar cada micro-reação como uma câmara de segurança.

Quando está sozinho, não é necessário estar sempre a fazer esse rastreio. Não tem de ler caras. Não tem de ajustar o tom. Não tem de adivinhar se aquela pausa estranha na conversa significa alguma coisa.

Os psicólogos chamam a esta diferença regulação interna vs. regulação externa.
Sozinho, as suas emoções regulam-se a partir de dentro. Com outras pessoas, o seu sistema começa a regular-se a partir de fora - através das expressões delas, da aprovação, das reações. Esta mudança de dentro/fora pode alterar tudo no modo como se sente em segurança.

Veja o caso da Sara, 32 anos, que se apercebeu disto num brunch de domingo com colegas.
Não aconteceu nada de dramático. Sem conflito, sem discussão. Apenas conversa sobre trabalho, um pouco de mexerico, algum talk sobre férias. No entanto, a meio, reparou que tinha os ombros encolhidos até às orelhas, a mandíbula tensa, a respiração superficial.

Quando chegou a casa e fechou a porta, sentou-se literalmente no chão e chorou de alívio.
Não por tristeza, nem por alegria - apenas porque um enorme botão de “desligar” foi finalmente carregado.

Mais tarde, começou a rastrear o padrão. Escritório em open space: exausta. Encontros em grupo: acelerada e drenada. Café sozinha num sítio calmo, com auscultadores: calma, quase recuperada. Quanto mais prestava atenção, mais claro se tornava. O sistema nervoso dela gostava de pessoas… em doses muito pequenas e muito controladas.

A psicologia explica isto com algo chamado co-regulação.
Desde o nascimento, os nossos sistemas nervosos aprendem a estabilizar através da presença e das respostas dos outros - sobretudo dos cuidadores. Quando essas experiências iniciais são instáveis, duras ou inconsistentes, alguns adultos tornam-se hiper-atentos a tudo o que os rodeia.

Isto significa que o seu corpo pode estar constantemente a “ler a sala”, mesmo quando não quer.
Cada suspiro, cada silêncio, cada mudança de tom parece informação que precisa de processar. Não é “só na sua cabeça”; toda a sua fisiologia está a ajustar-se, como um botão de volume a ser rodado por mãos externas.

Sozinho, esse botão volta ao seu controlo.
O seu mundo interior deixa de ser puxado por dez micro-sinais diferentes. A calma que sente quando está sozinho não é uma falha de personalidade; muitas vezes, é o seu sistema nervoso a funcionar finalmente em modo “casa”, em vez de emissão pública.

Como proteger a sua calma interior sem desaparecer da vida de toda a gente

Um método simples e surpreendentemente eficaz é criar “portas de descompressão” à volta do tempo social.
Pense nelas como pequenos rituais antes e depois do contacto humano, para que a sua regulação interna nunca fique completamente sequestrada.

Antes de um evento social, pare dois minutos.
Diga em voz alta como se sente: “Estou um pouco tenso e cansado, quero que isto seja leve.” Ponha uma mão no peito ou no pescoço, sinta o pulso a abrandar e faça a si mesmo uma pergunta: “Qual é o meu plano de saída se ficar sobrecarregado?”

Depois do evento, não salte logo para o telemóvel ou para tarefas.
Sente-se, caminhe ou tome banho em silêncio. Deixe o corpo recuperar. Estas pequenas “portas” dizem ao seu sistema nervoso: eu é que mando, não é a sala.

A maior armadilha é obrigar-se a agir como se tivesse uma bateria social que não tem.
Diz que sim a todos os convites, fica mais tempo do que quer, responde às mensagens imediatamente e depois pergunta-se porque acaba a ressentir-se, em segredo, de pessoas de quem realmente gosta.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
Até a pessoa mais extrovertida que conhece desaparece às vezes. A diferença é que pode não se sentir tão culpada por isso.

A culpa é, muitas vezes, mais pesada do que a carga social em si.
Não é “sensível demais” nem “frio” por precisar de tempo de silêncio depois. É apenas alguém cujo sistema faz muito trabalho silencioso na presença de outros. Trate esse trabalho como um emprego invisível que merece descanso.

Às vezes, a coisa mais corajosa que pode dizer é: “Gosto de ti, mas preciso de menos de ti de cada vez.”

Agora, alguns limites práticos que protegem a sua calma interna sem rebentar com as suas relações:

  • Limite o formato: prefira cafés a dois a jantares em grandes grupos.
  • Limite a duração: diga antecipadamente: “Posso ficar uma hora e depois tenho de ir.”
  • Proteja as suas manhãs ou noites como tempo a solo não negociável.
  • Use contacto de baixa pressão: mensagens de voz, SMS, memes partilhados em vez de chamadas constantes.
  • Marque “espaço em branco” depois de eventos grandes - nada planeado, apenas recuperação.

Estes limites não são muros; são lombas.
Abrandam a enxurrada de sinais externos para que a sua regulação interna consiga acompanhar.

Reescrever a história que conta a si mesmo sobre estar “melhor sozinho”

Há uma pergunta silenciosa por trás de tudo isto: prefere mesmo estar sozinho, ou nunca se sentiu totalmente seguro com os outros.
Para algumas pessoas, a solidão é uma alegria genuína. Para outras, é um refúgio de um excesso constante de trabalho emocional. Por fora, as duas coisas podem parecer iguais, mas por dentro sentem-se muito diferentes.

Tem o direito de gostar da sua própria companhia e, ainda assim, querer ligação.
Tem o direito de precisar de longos períodos de silêncio e, ainda assim, desejar uma relação profunda e leal com uma ou duas pessoas. Às vezes, a verdadeira mudança acontece quando deixa de se chamar “estranho” ou “avariado” e começa a ver o seu sistema nervoso como um radar afinado - talvez ligeiramente hiperativo.

Se estar com os outros parece sempre uma performance, a psicologia olharia com suavidade para o seu passado.
Cresceu numa casa onde tinha de adivinhar o humor todos os dias? Foi castigado ou envergonhado por ter necessidades? Aprendeu cedo que a versão mais segura de si era a silenciosa, a fácil, a auto-suficiente?

Esses padrões não desaparecem só porque é adulto.
Entram nas amizades, no trabalho, nas histórias de amor. Pode dar por si a ser a pessoa que ouve, que se adapta, que “não precisa de muito”. Por dentro, porém, a fatura aparece: exaustão, irritabilidade, um grande alívio quando os planos são cancelados.

Isto não é sobre culpar ninguém.
É sobre perceber que o seu sistema nervoso tem uma história - e ainda está a falar.

A próxima vez que sentir essa onda de calma ao entrar em casa vazia, experimente algo diferente, só desta vez.
Em vez de se julgar, fique curioso. O que é que, exatamente, se sente melhor? É o silêncio? O controlo do seu tempo? O facto de ninguém estar a observar a sua cara? A liberdade de largar a máscara que estava a segurar?

Pode perceber que não odeia pessoas.
Odeia a versão de si que parece obrigatória à volta de pessoas. É aí que a regulação interna começa a ficar mais forte - quando, devagar e com gentileza, traz um pouco mais do seu “eu sozinho” para a sua vida “com os outros”.

Partilhe isso com alguém seguro, se tiver.
Ou escreva. Transforme os seus padrões numa história que consegue ver, não apenas num sentimento onde se afoga. Não há um equilíbrio único e certo entre solidão e ligação - há apenas aquele em que o seu sistema nervoso, a sua história e a sua vida presente conseguem finalmente respirar ao mesmo tempo.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Regulação interna vs. externa Sozinho, as emoções estabilizam de dentro; com outros, o sistema reage aos sinais deles Ajuda a reformular “fico mais calmo sozinho” como mecânica do sistema nervoso, não como defeito de carácter
Rituais de descompressão Pequenas “portas” antes e depois do tempo social para reiniciar corpo e mente Reduz o esgotamento social e torna o contacto mais seguro e sustentável
Limites saudáveis Escolher formatos, durações e tempo de recuperação que respeitem a sua energia Permite manter relações sem sacrificar a sua sensação de calma interior

FAQ:

  • Preferir estar sozinho é o mesmo que ser introvertido? Nem sempre. A introversão tem a ver com de onde vem a energia. Sentir-se mais calmo sozinho também pode resultar de experiências passadas, ansiedade ou um sistema nervoso sensível, mesmo que goste de pessoas.
  • Isto significa que tenho ansiedade social? Não necessariamente. A ansiedade social envolve um medo forte de julgamento ou humilhação. Pode apenas sentir-se sobre-estimulado ou emocionalmente sobrecarregado, sem medo intenso.
  • Posso aprender a sentir-me mais seguro com os outros? Sim. Relações pequenas, previsíveis e cuidadosas podem, lentamente, retreinar o seu sistema nervoso através de co-regulação consistente e calma - por vezes com ajuda de terapia.
  • Quanto tempo sozinho é “demais”? Torna-se um problema quando a solidão deixa de ser nutritiva e passa a ser entorpecimento, solidão dolorosa, ou evitamento até das ligações que realmente quer.
  • Devo forçar-me a ser mais social? Forçar muito costuma ter o efeito contrário. Exposição gradual, limites honestos e respeitar a necessidade de recuperação tendem a funcionar melhor do que grandes saltos sociais forçados.

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