Pica esconde-se à vista de todos, muitas vezes descartada como um hábito excêntrico, enquanto expõe discretamente as pessoas a riscos médicos graves.
A síndrome de pica situa-se no cruzamento entre nutrição, saúde mental e cultura, e raramente parece dramática à primeira vista. Uma criança a comer terra, uma grávida com desejo de gelo, um adulto a mastigar papel no trabalho: estes comportamentos podem parecer inofensivos, mas podem sinalizar uma perturbação complexa que merece atenção cuidadosa.
O que é, de facto, a síndrome de pica
A pica é uma perturbação do comportamento alimentar em que a pessoa consome regularmente itens que não são considerados alimentos e que têm pouco ou nenhum valor nutricional. Isto pode incluir terra, papel, sabão, cabelo, giz, gelo, objetos metálicos ou até lascas de tinta. O comportamento deve persistir por, pelo menos, um mês e ocorrer fora de padrões culturais ou de desenvolvimento considerados normais.
As crianças pequenas muitas vezes levam objetos aleatórios à boca; isso faz parte do desenvolvimento típico. Na pica, o padrão vai muito além. A pessoa procura esses itens não alimentares, sente desejo por eles e continua a ingeri-los apesar de desconforto ou perigo. Em adultos, a pica tende a surgir associada a outras condições, como deficiência intelectual, doença mental grave ou gravidez.
A pica não é uma preferência excêntrica. É uma perturbação alimentar reconhecida que pode danificar quase todos os sistemas do corpo.
Principais causas e fatores desencadeantes da pica
Os investigadores ainda debatem por que motivo algumas pessoas desenvolvem pica enquanto outras, com contextos semelhantes, não. Em geral, entram em jogo vários fatores sobrepostos, e não uma única causa clara.
Fatores biológicos e nutricionais
Muitos casos documentados associam a pica a défices nutricionais. Níveis baixos de ferro, zinco ou outros micronutrientes essenciais podem alterar o apetite e a perceção do sabor. Em algumas pessoas, o cérebro parece “interpretar mal” estas carências, desencadeando desejos por substâncias não alimentares em vez de refeições ricas em nutrientes.
- Anemia por deficiência de ferro: frequentemente associada à pica, sobretudo com desejos de gelo, argila ou terra.
- Gravidez: alterações hormonais e aumento das necessidades nutricionais podem provocar desejos invulgares, incluindo comportamentos do tipo pica.
- Desnutrição ou fome crónica: algumas pessoas recorrem a itens não alimentares para se sentirem mais saciadas quando há escassez de comida.
- Pós-cirurgia bariátrica: em casos raros, grandes alterações na digestão e absorção após cirurgia de perda de peso são seguidas por sintomas de pica.
Outra peça do puzzle envolve a química cerebral. Níveis baixos de serotonina, frequentemente associados à depressão e ansiedade, podem alimentar padrões de ingestão compulsiva. Quando este sistema entra em desequilíbrio, algumas pessoas começam a fixar-se em texturas ou sensações que os itens não alimentares proporcionam.
Ligações psiquiátricas e do neurodesenvolvimento
A pica surge frequentemente em associação com condições de saúde mental e do desenvolvimento. Foi descrita em pessoas com:
- Perturbação depressiva major
- Perturbações de ansiedade e traços obsessivos ou compulsivos
- Tricotilomania (perturbação de arrancar cabelo), com alguns doentes a ingerirem o cabelo arrancado
- Perturbação do espetro do autismo, especialmente em crianças que procuram estimulação sensorial intensa
- Deficiência intelectual
Nestes casos, a pica pode funcionar como ritual de autoacalmia, estímulo sensorial ou comportamento moldado por rotinas. Achados neurológicos também sugerem que lesões em áreas como o lobo temporal, que apoia a memória semântica e o reconhecimento, podem perturbar a forma como o cérebro categoriza “alimento” versus “não alimento”.
Quando os sistemas cerebrais de recompensa, controlo de impulsos e processamento sensorial deixam de trabalhar em conjunto, objetos do dia a dia podem começar a parecer estranhamente comestíveis.
Cultura e comportamento aprendido
A pica não existe num vazio. Em algumas comunidades, comer certos tipos de argila ou terra tem um papel tradicional ou espiritual. Quando esta prática é socialmente aceite, pode não ser considerada uma perturbação, a menos que apresente riscos médicos claros. As crianças também podem imitar adultos ou irmãos que mastigam gelo, papel ou cabelo, transformando um hábito aprendido numa compulsão persistente.
Como os médicos diagnosticam a pica
Não existe um único “teste para pica”. Os clínicos costumam começar com uma entrevista detalhada: o que exatamente a pessoa ingere, com que frequência, há quanto tempo e em que situações. Depois, procuram complicações físicas e fatores desencadeantes subjacentes.
As avaliações típicas incluem:
- Análises ao sangue para verificar anemia, níveis de ferro e zinco e marcadores de infeção.
- Exames à urina e às fezes para detetar parasitas, hemorragias ou toxinas ocultas.
- Imagiologia como radiografia, TAC, ressonância magnética ou ecografia para identificar obstruções intestinais ou corpos estranhos ingeridos.
- Eletrocardiograma (ECG) quando desequilíbrios eletrolíticos ou intoxicação podem afetar o ritmo cardíaco.
| Pergunta | O que os clínicos procuram |
|---|---|
| Há quanto tempo o comportamento está presente? | Mais de um mês sugere um padrão persistente. |
| Que substâncias são ingeridas? | O tipo e a toxicidade orientam a urgência e os exames. |
| Existem condições subjacentes? | Gravidez, autismo, deficiência intelectual, depressão, ansiedade. |
| Há sintomas depois da ingestão? | Dor, obstipação, diarreia, fadiga, falta de ar, febre. |
Os médicos também têm de distinguir a pica de práticas culturalmente aceites e de comportamentos que ocorrem apenas de forma breve durante stress extremo.
Problemas de saúde associados à pica
Os riscos variam consoante o que é ingerido e durante quanto tempo. Algumas consequências surgem lentamente; outras exigem cuidados de urgência.
- Anemia: perda de sangue por lesão intestinal ou deficiência de ferro não tratada pode deixar a pessoa exausta e com falta de ar.
- Obstipação ou obstrução intestinal: pedras, cabelo, plásticos e itens semelhantes podem formar massas sólidas que bloqueiam o intestino.
- Infeções parasitárias: terra e material contaminado com fezes podem transmitir lombrigas e outros parasitas.
- Desequilíbrio eletrolítico: vómitos crónicos, diarreia ou intoxicação afetam os sais do organismo e podem perturbar o ritmo cardíaco.
- Arritmias: batimentos irregulares podem surgir após desequilíbrios graves ou exposição a toxinas.
- Intoxicação por chumbo e metais pesados: lascas de tinta, solos contaminados ou pilhas podem danificar o cérebro, os rins e o sistema nervoso.
A pica muitas vezes parece silenciosa à superfície, mas no interior do corpo pode causar anemia, intoxicação, infeções e obstruções potencialmente fatais.
Opções de tratamento e gestão no dia a dia
O tratamento combina, em regra, cuidados médicos com estratégias comportamentais e psicológicas. O objetivo é, simultaneamente, travar a ingestão nociva e abordar os fatores que a alimentam.
Cuidados médicos e nutricionais
Em primeiro lugar, os médicos tratam quaisquer complicações urgentes: remover obstruções, tratar infeções, corrigir desidratação ou estabilizar o ritmo cardíaco. Depois, os resultados laboratoriais orientam a suplementação. Ferro, zinco ou multivitamínicos podem reduzir desejos em pessoas com défices comprovados.
Consultas de seguimento regulares ajudam a monitorizar hemogramas, peso e eventuais recaídas em comportamentos de risco, especialmente em crianças e grávidas.
Terapias comportamentais
Os especialistas recorrem frequentemente a métodos adaptados da psicologia comportamental, sobretudo quando a pica afeta crianças, pessoas autistas ou adultos com dificuldades de aprendizagem.
- Terapia aversiva ligeira: associa o comportamento indesejado a uma consequência suave e segura, oferecendo elogios ou recompensas quando a pessoa escolhe alimentos seguros em vez de itens não alimentares.
- Terapia comportamental: ensina estratégias de coping, como redirecionar mãos ou boca para atividades seguras, usar técnicas de gestão do stress e quebrar rotinas automáticas.
- Reforço diferencial: reforça comportamentos alternativos (mastigar pastilha sem açúcar, usar brinquedos sensoriais), enquanto ignora ou impede tentativas de pica.
Os cuidadores podem também adaptar o ambiente: guardar substâncias perigosas sob chave, melhorar a supervisão no exterior e oferecer texturas satisfatórias através de snacks seguros ou ferramentas sensoriais.
Medicação e apoio em saúde mental
Os medicamentos nem sempre são necessários. Quando ansiedade grave, psicose ou perturbações do humor alimentam a pica, os psiquiatras podem considerar fármacos, como antidepressivos ou antipsicóticos, em conjunto com terapia. Estes medicamentos têm efeitos secundários, pelo que os clínicos tendem a reservá-los para casos com indicações psiquiátricas claras ou quando abordagens não farmacológicas falham.
A psicoterapia, incluindo a terapia cognitivo-comportamental, pode ajudar as pessoas a compreender os seus gatilhos e a desafiar pensamentos que mantêm o ciclo. Para grávidas, o apoio foca-se frequentemente em tranquilização, aconselhamento nutricional e estratégias suaves para substituir desejos de risco.
O que as famílias e cuidadores podem fazer
Pais e cuidadores costumam notar a pica primeiro, especialmente em crianças com autismo ou atrasos no desenvolvimento. Sinais subtis incluem peças em falta em brinquedos, lápis danificados ou marcas de terra à volta da boca. Em vez de reagir com vergonha ou castigo, os profissionais recomendam um plano estruturado.
- Manter um diário de quando e onde o comportamento aparece.
- Falar abertamente com o pediatra ou médico de família, em vez de esconder o problema.
- Verificar a casa quanto a tinta com chumbo, pilhas, detergentes e pequenos objetos cortantes.
- Oferecer alternativas seguras que respondam a necessidades sensoriais, como bijuteria mastigável ou alimentos crocantes.
Escolas e creches devem ser informadas para que a equipa possa supervisionar as áreas de brincadeira e evitar envergonhar a criança perante os colegas. Uma comunicação clara e calma entre casa, escola e serviços de saúde tende a reduzir riscos e estigma.
Para lá da pica: comportamentos relacionados a vigiar
A pica sobrepõe-se frequentemente a outros comportamentos repetitivos ligados à alimentação, como mastigar e cuspir comida, acumular snacks ou ranger os dentes em plástico ou metal. Estes padrões podem não cumprir todos os critérios para pica, mas ainda assim trazem consequências dentárias, nutricionais ou sociais. Um clínico pode ajudar a clarificar onde se situam no espectro das perturbações alimentares e do controlo de impulsos.
Outro conceito útil é o “ARFID” (perturbação evitante/restritiva da ingestão alimentar), em que as pessoas limitam severamente o que comem devido a sensibilidade sensorial, medo de engasgar ou falta de interesse por comida. Enquanto o ARFID costuma centrar-se na rejeição de alimentos e a pica na ingestão de não alimentos, ambos mostram como a organização sensorial do cérebro e o estado emocional moldam o que colocamos na boca. Reconhecer estas ligações pode levar famílias e médicos a agir mais cedo, antes que hábitos discretos se transformem em padrões perigosos.
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