O café tinha arrefecido em cima da mesa, mas ninguém se atrevia a mexer-se. Os teus amigos estavam a discutir outra vez, as vozes a subir por causa de uma coisa pequena que, devagar, se tinha tornado grande. Sentiste os ombros a ficarem tensos, um aperto familiar no peito. Os teus olhos começaram a procurar soluções: uma piada para cortar a tensão, uma mudança de assunto, um compromisso prático com que todos pudessem viver. Nem sequer fazias parte do desacordo original e, no entanto, já estavas a intervir. Como sempre.
Sorriste, suavizaste o tom e tentaste limar as arestas afiadas na sala.
Mais tarde, a caminho de casa, um pensamento estranho atingiu-te: “Porque é que isto parece sempre o meu trabalho?”
Um papel a que nunca te candidataste, mas que, de alguma forma, nunca deixas de representar.
O papel invisível de “pacificador” para o qual nunca te inscreveste oficialmente
Algumas pessoas entram numa sala e, naturalmente, captam a atenção. Outras observam em silêncio à procura de perigo. Se és a pessoa que antecipa o conflito antes de ele rebentar, a psicologia diz que talvez carregues um guião interno: “Sou responsável por manter toda a gente calma.”
Reparas em mudanças mínimas no tom, na linguagem corporal, em revirar de olhos. Sentes a tensão como algumas pessoas sentem mudanças no tempo. O teu sistema nervoso reage antes de a tua mente ter palavras.
Falas com mais suavidade, ris-te um pouco mais alto do que sentes e engoles a tua própria frustração para que os outros respirem melhor.
À superfície, pareces descontraído(a). Por dentro, estás constantemente a ajustar o termóstato emocional.
Imagina um jantar de família. O teu irmão queixa-se do trabalho, a tua mãe critica a atitude dele, o teu pai suspira e refugia-se atrás do telemóvel. O ar fica pesado. É aí que entras em ação. Mudanças de assunto, mais vinho no copo, defendes um, reformulas o outro. Estás a prestar um serviço de mediação oculto à mesa.
Na sobremesa, toda a gente parece mais calma. Até te agradecem a tua “boa onda”. Mas, quando a porta se fecha, sentes-te estranhamente esgotado(a).
Um estudo de 2019 sobre papéis familiares identificou o “harmonizador” como a pessoa que dissipa a tensão, muitas vezes à custa das suas próprias necessidades. Não estás a imaginar: este papel é real e tem consequências.
Os psicólogos chamam a este tipo de comportamento fawning (submissão/agradabilidade por sobrevivência) ou people-pleasing (necessidade de agradar) quando levado ao extremo. Muitas vezes cresce na infância, em ambientes onde o conflito parecia perigoso ou o amor parecia condicionado. O teu cérebro aprendeu depressa: mantém toda a gente bem e ficas seguro(a).
Por isso, mesmo em adulto(a), o teu corpo entra em alerta sempre que as vozes sobem. Corres a tapar fugas nas relações como alguém que sobreviveu a viver num navio a afundar.
O teu sistema nervoso ainda pensa que a tua segurança depende de as pessoas à tua volta se darem bem.
Não estás apenas a ser “simpático(a)”. Estás a executar uma estratégia de sobrevivência que, em tempos, fez todo o sentido.
Como sair do modo “bombeiro emocional” sem abandonar as pessoas
O objetivo não é deixares de te importar com a paz. É deixares de acreditar que a paz é apenas tua responsabilidade. Um método simples e concreto é criares uma pausa entre “sinto tensão” e “tenho de resolver isto”.
Da próxima vez que um conflito surgir, repara no teu primeiro impulso. Inclinas-te para a frente, levantas um pouco a voz, fazes uma piada, confortas, explicas?
Em vez de agires de imediato, conta mentalmente até cinco e sente os pés no chão. Esta pequena pausa interrompe o guião automático.
Depois, faz-te uma pergunta silenciosa: “Isto é mesmo o meu trabalho agora, ou estou a repetir um papel antigo?”
Podes sentir culpa nas primeiras vezes em que não intervéns. É normal. O teu cérebro está programado para acreditar que, se não agires, tudo desaba. Mas observa o que acontece de facto. Muitas vezes, as pessoas gerem as próprias emoções, ou o conflito segue o seu curso sem ti.
Um erro comum é substituir a tentativa de pacificar por um afastamento total, cortando com toda a gente. Isso é apenas outra versão do tudo-ou-nada. O meio-termo é: “Estou aqui, importo-me, mas não sou o árbitro de todas as tempestades.”
Sê gentil contigo. Aprendeste este papel para sobreviver, não para manipular. Estavas a tentar proteger as pessoas - incluindo a ti.
Às vezes, a coisa mais corajosa que podes dizer não é “Acalmem-se, todos”, mas “Eu não vou resolver isto por vocês”.
- Começa pequeno: Escolhe situações de baixo risco para praticares não intervir. Um desacordo ligeiro no trabalho, dois amigos a debater. Repara que o desconforto não te vai matar.
- Usa uma frase “âncora”: Prepara uma frase como “Confio que vocês os dois consigam resolver isto” ou “Preciso de um segundo para pensar”, para não ficares sem palavras.
- Faz check-in com o corpo: Depois de decidires não resolver, pergunta: “O que estou a sentir agora?” Mandíbula tensa, coração acelerado, mãos a tremer? É o teu sistema nervoso a aprender uma realidade nova.
- Faz uma revisão contigo: Mais tarde, pergunta: “O que é que aconteceu realmente quando não me meti?” Na maior parte das vezes, o mundo não acabou. Essa evidência vale ouro.
Redefinir a paz: de “manter toda a gente feliz” para viver na tua própria verdade
Quando passaste anos como o(a) pacificador(a) não oficial, largar esse papel parece roubo de identidade. Quem sou eu se não for a pessoa que acalma toda a gente?
É aqui que pode começar uma mudança silenciosa. Paz não tem de significar “ninguém fica nunca chateado”. Paz pode significar “tenho o direito de existir aqui sem estar constantemente a gerir toda a gente.”
Começas a fazer perguntas diferentes. Não “Como é que os faço parar de discutir?”, mas “O que é que eu estou a sentir agora?” Não “O que é que eles precisam de mim?”, mas “O que é que eu preciso de mim?”
Sejamos honestos: ninguém consegue fazer isto todos os dias. Não vais tornar-te, de repente, perfeitamente equilibrado(a). Em alguns dias, vais voltar a padrões antigos.
Ainda assim, cada vez que fazes uma pausa em vez de consertar, cada vez que dizes “Isso é entre vocês os dois”, vais afrouxando um nó que esteve apertado durante anos.
Aos poucos, o papel que te foi dado deixa de definir a pessoa que és.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Reconhecer o papel | Ver-te como “harmonizador(a)” ou pacificador(a) moldado(a) por experiências passadas | Dá linguagem a um peso vago e normaliza o sentimento de responsabilidade |
| Criar uma pausa | Contar até cinco e enraizar-te no corpo antes de intervir | Oferece uma ferramenta concreta para quebrar reações automáticas de agradar aos outros |
| Redefinir a paz | Passar de manter todos felizes para honrar as tuas próprias necessidades | Abre um caminho para relações mais saudáveis e mais calma interior |
FAQ:
- Como sei se sou pacificador(a) ou apenas empático(a)? Se te sentes frequentemente responsável por resolver a tensão, te sentes culpado(a) quando os outros estão perturbados e sais de encontros emocionalmente esgotado(a), é provável que estejas preso(a) num papel de pacificação, e não apenas a oferecer empatia.
- Ser a pessoa “calma” é sempre mau? Não. A tua capacidade de acalmar e ouvir é uma força real. O problema aparece quando sacrificas as tuas necessidades, opiniões ou limites apenas para manter os outros confortáveis.
- Este papel pode vir de trauma na infância? Sim. Crescer à volta de gritos, caos emocional ou negligência emocional pode ensinar uma criança a gerir os humores dos adultos como estratégia de sobrevivência. Esse padrão muitas vezes segue para as relações na vida adulta.
- Como defino limites sem criar ainda mais conflito? Começa com frases pequenas e claras como “Não vou tomar partidos aqui” ou “Preciso de uma pausa nesta conversa.” Mantém-te calmo(a), repete se for preciso e deixa que os outros lidem com as próprias reações.
- Devo falar sobre isto com um(a) terapeuta? Se este papel te parece pesado, confuso ou ligado a feridas antigas, a terapia pode ajudar-te a desfazer onde começou, a fazer o luto do que carregaste e a praticar novas formas de te relacionares que sejam menos desgastantes.
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