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Se a sua casa parece mais fria do que devia, este detalhe das janelas é frequentemente ignorado.

Mãos segurando uma pequena vela acesa perto de uma janela com uma caneca verde ao fundo.

O termóstato dizia 20°C, mas a divisão marcava 16.

Meias grossas, manta sobre os joelhos, chaleira a ferver pela terceira vez. E sempre aquela mesma sensaçãozinha de corrente de ar na nuca, como se alguém tivesse deixado uma janela entreaberta. Dás a volta à casa. Radiadores quentes. Porta de entrada fechada. Vidros duplos recentes. Tudo parece em ordem, mas o teu corpo conta-te outra história.

Todos já passámos por aquele momento em que, em pleno inverno, damos por nós a subir o aquecimento um ponto sem perceber muito bem porquê. A casa parece cuidada, as janelas são modernas e, ainda assim, o frio entra por um caminho discreto. Esse caminho, em muitas casas britânicas, está num pormenor que a maior parte das pessoas nem sequer olha a sério. Um pormenor à volta da janela, não na janela em si.

Esse pormenor é, muitas vezes, a verdadeira fronteira entre uma casa confortável e uma casa que “devora” o teu orçamento de energia todos os meses. E, quando o vês, já não consegues ignorá-lo.

O frio que se infiltra à volta do vidro

Fala-se muito do tipo de vidro, do número de lâminas, do gás árgon, das certificações, dos valores U. Mas o verdadeiro passageiro clandestino do frio costuma esconder-se noutro sítio: nas juntas e no perímetro da janela. Não no vidro, não no caixilho… mas na interface entre os dois, e entre o caixilho e a parede.

É aquela linha fina acinzentada ou ligeiramente rachada a que quase nunca ligas. A junta de silicone que amareleceu, a pequena folga por baixo do peitoril, um pedaço de massa que se descola no canto inferior. Ali, o ar frio adora infiltrar-se. Não o vês bem, não o ouves, mas sentes na pele.

Em muitas casas no Reino Unido, sobretudo as renovadas “a meio”, essa zona é mesmo o elo mais fraco em termos térmicos. Podes ter um vidro duplo excelente, acabado de instalar, e perder uma boa parte do conforto por causa de uns milímetros mal resolvidos à volta do caixilho.

Um estudo levado a cabo por vários organismos de habitação no Reino Unido mostrou que as infiltrações de ar parasitas podem representar até 15% das perdas de calor em algumas habitações. Quando transpões isto para uma fatura de gás ao longo de todo o inverno, estamos facilmente a falar de dezenas - ou até centenas - de libras que literalmente se vão embora por fendas invisíveis.

Imaginemos uma situação bem concreta. Uma típica casa geminada, anos 30, num bairro residencial. Os proprietários pagaram caro para instalar janelas em PVC com vidro duplo. O vendedor prometeu uma casa “muito mais quente”. Resultado: sim, melhora um pouco, mas a sala continua fria perto da janela grande, e o cantinho de leitura tornou-se inutilizável em janeiro.

Quando um especialista aparece com uma câmara térmica, a surpresa é brutal. O vidro está aceitável, o caixilho também. Mas todo o contorno da janela surge em azul vivo no ecrã. As juntas de acabamento, mal aplicadas, deixam o ar passar como uma verdadeira chaminé horizontal. O frio não atravessa o vidro. Simplesmente contorna-o.

Do ponto de vista térmico, uma janela não é apenas um “buraco com vidro”. É um conjunto: vidro, caixilho, juntas, interfaces, peitoril, ombreiras (revelos) e, por vezes, até o cortinado ou o estore. Se um destes elementos falha, todo o sistema perde eficácia.

O ar é preguiçoso: segue os caminhos mais fáceis. Uma junta ressequida, um silicone fissurado, uma espuma mal comprimida - e o ar exterior encontra uma autoestrada para a tua sala. Aí sentes esse paradoxo: radiadores a ferver, fatura alta, mas frio localizado. É muitas vezes sinal de que a tua casa não perde calor apenas por condução; também o deixa escapar por convecção, através dessas microfugas.

O que engana muita gente é que estes defeitos nem sempre são visíveis a olho nu. O caixilho parece em bom estado, nada abana, nada bate. No entanto, a diferença de pressão entre interior e exterior suga ar frio através das falhas mais pequenas. É um problema discreto, muito real e, apesar disso, muito subestimado quando se fala de isolamento.

O teste simples à janela que muda tudo

A primeira coisa a fazer não tem nada de técnico. Só tu, a tua mão e um pouco de atenção. Numa noite ventosa, baixa ligeiramente o aquecimento para sentires bem os contrastes e passa lentamente a mão à volta do perímetro de cada janela.

Insiste nos cantos, na parte inferior do caixilho, na ligação à parede. Se sentires um sopro, mesmo muito leve, há uma fuga. Também podes fazer o teste da vela ou do incenso: uma chama pequena ou um fio de fumo a vacilar junto à junta conta, muitas vezes, uma história bem mais precisa do que qualquer brochura comercial.

Outra dica caseira: coloca uma folha de papel entre a folha móvel e o aro fixo, onde a junta de compressão deveria vedar. Se a folha desliza sem resistência, a junta já não está a cumprir a função. É básico, um pouco artesanal, mas extremamente revelador.

É aqui que muita gente fica desconfortável. Olhas para as janelas e pensas: “Acabei de as trocar, não vou mexer nelas outra vez.” Ou então vives numa casa arrendada, não te atreves a mexer muito, tens medo de piorar. E, no entanto, grande parte do problema está num nível muito acessível, quase “cosmético”.

Falemos claro: muitas juntas aplicadas à pressa não foram feitas para durar 15 anos num clima húmido como o nosso. Entre chuva forte, sol a bater no verão e choques térmicos, o silicone acaba por se descolar em micro-segmentos, muitas vezes onde nem olhas.

Não precisas de ser carpinteiro para fazer um primeiro diagnóstico. Repara nas zonas ainda brilhantes e lisas e compara com as zonas baças, granuladas, fendilhadas. Observa se a massa entre o caixilho e a parede é contínua ou interrompida. Nota pequenas manchas de bolor na parte inferior dos revelos - indícios de ar frio e condensação localizada. Não é um exame técnico: é observação do dia a dia ao serviço do teu conforto.

Um carpinteiro com 20 anos de experiência resumiu-me isto um dia, numa obra gelada de janeiro:

“As pessoas acham que precisam de janelas novas, quando muitas vezes só precisam de acabamentos novos à volta das janelas. O conforto às vezes é uma história de três milímetros de junta.”

Esses três milímetros podem ser corrigidos com gestos simples: refazer uma junta de silicone com cuidado, preencher folgas com espuma de vedação apropriada, aplicar uma junta adesiva de compressão numa folha já cansada, acrescentar um pequeno perfil de borracha onde o frio se infiltra.

Não te pressiones com a ideia de uma casa “perfeita”. Ninguém vive num showroom de caixilharia. Começa por tratar uma janela - a mais crítica. Observa a sensação na divisão durante alguns dias. Vais notar a diferença depressa, sobretudo de manhã ao acordar.

Para te ajudar a identificar as zonas realmente-chave, guarda este pequeno lembrete prático:

  • Os cantos inferiores do caixilho: zona número um de microfugas.
  • A ligação caixilho/parede, sobretudo se a tinta empola.
  • A parte inferior de janelas de correr ou oscilo-batentes.
  • Furos antigos de fixação ou ferragens tapados “à pressa”.
  • Peitoris exteriores fissurados, que deixam entrar água… e depois ar.

Uma casa mais quente começa pelo que sentes, não pelo que vês

Quando se fala de conforto térmico, fala-se muitas vezes em números: graus, watts, kWh. Mas o teu corpo não lê um termóstato. Lê as correntes de ar, os contrastes, a velocidade do ar na pele, a temperatura das superfícies à tua volta.

Uma janela verdadeiramente estanque, com revelos bem tratados, muda algo quase intangível numa divisão. Já não tens receio de te sentares perto do vidro. O sofá deixa de ter de ser empurrado para o meio da sala para fugir à “zona fria”. Deixas de fechar as cortinas “para cortar o frio” quando a janela supostamente já isola.

E sim, há também o lado financeiro. Uma casa menos “fugidia” é menos aquecimento desperdiçado. Mas é, acima de tudo, a sensação de que a casa trabalha contigo, não contra ti. Quando o calor fica onde o pagaste, deixas de ter de sobreaquecer o ar apenas para compensar uma infiltração sorrateira na borda de um caixilho.

Se quiseres partilhar isto com alguém, não é apenas uma questão de obras ou bricolage. É uma forma diferente de olhar para um objeto que parece banal: a janela. Não só como um buraco na parede por onde entra luz, mas como uma fronteira viva entre o teu mundo interior e um clima exterior cada vez mais instável.

Uma fronteira que não se decide em grandes escolhas espetaculares, mas em detalhes minúsculos - por vezes invisíveis, muitas vezes negligenciados. A pequena junta discreta que estala, o silicone amarelado, a linha de sombra entre o caixilho e a parede. É aí que se esconde parte do teu conforto, da tua fatura e, de certa forma, do teu humor nas noites de vento forte.

Da próxima vez que a tua casa te parecer mais fria do que devia, olha menos para o termóstato e mais para o contorno das tuas janelas. É um gesto simples, quase íntimo, que pode mudar a tua relação com o espaço. E quem sabe: talvez descubras que o calor que procuravas não estava assim tão longe - só preso atrás de três milímetros esquecidos.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Contorno da janela Juntas, massa e ligação caixilho/parede Compreender por onde o calor realmente se escapa
Testes simples Mão, fumo, folha de papel à volta do caixilho Diagnosticar sozinho, sem material caro
Pequenos gestos Refazer juntas, adicionar espuma e fitas de vedação Ganhar conforto sem trocar todas as janelas

FAQ:

  • Como sei se é a janela ou a parede que está a deixar escapar calor? Num dia frio, aproxima-te da janela e, com a mão nua, “varre” lentamente a zona. Se o frio estiver muito localizado ao longo das juntas ou do caixilho, é muitas vezes a janela. Se toda a zona da parede à volta estiver gelada ao toque, o problema é mais da isolação da parede ou de uma ponte térmica estrutural.
  • Posso resolver correntes de ar nas janelas sozinho ou preciso de um profissional? Pequenas fugas à volta das juntas de acabamento (silicone, massa, juntas adesivas) resolvem-se muito bem em DIY, com alguma paciência. Se a janela estiver empenada, já não fechar bem ou tiver folgas grandes nas dobradiças, aí um profissional vale mesmo a pena.
  • Substituir a janela inteira resolve sempre o problema? Não. Se a instalação for mal feita ou a ligação à parede estiver mal tratada, uma janela nova pode continuar a deixar passar frio. A qualidade do acabamento periférico conta tanto como o vidro em si.
  • Qual é o primeiro passo mais barato para tornar mais confortável uma zona fria junto à janela? Começa por aplicar uma junta adesiva de compressão na folha móvel e por reforçar com silicone onde vejas fissuras ou falhas. É barato, rápido e ajuda-te a perceber se estás no caminho certo antes de avançar para intervenções maiores.
  • Cortinas pesadas chegam para travar correntes de ar? Cortinas grossas reduzem bem a sensação de corrente de ar e melhoram o conforto local, mas não resolvem a fuga de ar em si. O ar frio continua a circular por trás, o que pode criar condensação e bolor. O ideal é: cortina + juntas bem tratadas.

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