A terapeuta fez uma pergunta simples: “Se a tua vida tivesse uma cor hoje, qual seria?”
Silêncio. Depois, três pessoas, que não se conheciam, quase sussurraram os mesmos tons.
Não eram as clássicas “cores favoritas” dos questionários da infância. Eram tons apagados, pesados - daqueles que se vestem quando se quer desaparecer numa sala cheia de gente.
Raramente pensamos nisso, mas votamos com os olhos todos os dias. Escolhemos uma camisola, uma capa para o telemóvel, uma caneca. Repintamos um quarto às 23h de um domingo porque algo em nós está desalinhado e não temos palavras.
As cores tornam-se uma linguagem secreta que o corpo fala quando a boca se mantém educada.
Havia uma coisa que voltava sempre nas notas dos psicólogos: pessoas que duvidam de si, que encolhem um pouco por dentro, inclinam-se repetidamente para os mesmos três tons.
O código silencioso das cores da baixa autoestima
Psicólogos que trabalham com imagem corporal e autoestima veem regularmente o mesmo padrão.
Quando pedem a clientes com pouca confiança para escolherem roupas ou amostras “que se parecem contigo”, três cores aparecem muito mais do que as outras: bege baço, cinzento deslavado e azul muito escuro.
Não um azul-marinho vivo, nem um antracite elegante - mas versões que parecem cansadas, quase drenadas.
Estas tonalidades não são cores “más”. No design, podem ser requintadas, subtis, até poéticas.
No quotidiano, porém, muitas pessoas recorrem a elas como a um escudo. Neutras o suficiente para evitarem comentários. Escuras o suficiente para esconderem formas. Silenciosas o suficiente para não “ocuparem espaço”.
Cores que dizem: se eu me misturar com o fundo, talvez ninguém me julgue.
Em várias pequenas observações clínicas, terapeutas notaram algo marcante.
Quando os clientes enchiam um espaço com estes três tons - roupa, lençóis, papel de parede do telemóvel - a forma como falavam de si tendia a ser dura. “Não valho a pena ser notada.” “Não quero dar nas vistas.” “Não me fica bem nada mais brilhante.”
As cores não causavam a baixa autoestima. Apenas a tornavam visível.
Os psicólogos gostam de chamar a isto escolha projetiva: quando escolhes algo fora de ti que reflete o que se passa dentro de ti.
Ninguém acorda a pensar: “A minha autoestima está baixa, por isso vou vestir cinzento deslavado hoje.”
E, no entanto, a mão vai sempre para o mesmo cabide, vezes sem conta. Sem drama. Sem consciência.
É um ciclo silencioso: sentes-te pequeno, vestes pequeno, sentes-te ainda menor ao espelho, e a mente sussurra: “Vês? Eu tinha razão sobre ti.”
Cor a cor: o que os psicólogos continuam a ouvir
O bege é o primeiro grande “truque de desaparecimento”.
Não um camelo quente ou um areia com estilo, mas aquele bege chapado de parede de escritório que parece ter desistido a meio de ser uma cor.
Os psicólogos dizem que pessoas com baixa autoestima o descrevem muitas vezes como “seguro”, “fácil”, “combina com tudo”. Não querem atrair elogios nem críticas - só passar pelo dia sem atrito.
Numa sessão de terapia de grupo sobre autoimagem, uma mulher na casa dos trinta espalhou a roupa que usava com mais frequência.
Uma fileira alinhada de bege: casacos de malha, T-shirts, roupa interior, até meias. Ela riu-se, um pouco envergonhada, e disse: “Eu não odeio. Eu só… não mereço cores melhores.”
Ninguém discutiu estilo. Falaram, em vez disso, dessa frase. De quantas vezes ela baixava o volume de si própria em conversas, no trabalho, nas relações.
O bege não era o problema dela. Era o seu álibi.
O cinzento conta uma história diferente.
Clientes que escolhem repetidamente cinzento pálido, deslavado, falam muito de “não querer dramas”, “sentir-se cansado”, “ser neutro para não desiludir ninguém”.
Os psicólogos ouvem muita fadiga emocional por trás dessas escolhas. A vida parece demais, e o mundo interior desliza para uma linha plana - não terrível, não alegre, apenas… abafada.
Depois há o azul muito escuro, quase preto, escolhido por muitas pessoas que se sentem inseguras com o próprio corpo.
É o tom clássico “emagrecedor”, aquele que se veste quando se tem a certeza de que toda a gente vai reparar no que se odeia em si.
Alguns terapeutas notam que, quando os clientes começam a sentir-se um pouco melhor, este azul escuro é o primeiro a suavizar: transforma-se em ganga, cobalto, até num azul tinta.
O medo não desaparece de um dia para o outro. A cor, simplesmente, começa a deixar entrar um pouco de luz.
Usar a cor como um pequeno e realista ato de autorrespeito
Psicólogos que trabalham com baixa autoestima raramente dizem: “Deita fora o teu bege.”
Propõem algo mais subtil: micro-experiências.
Escolhe um pequeno objeto que vês todos os dias - a tua escova de dentes, o papel de parede do telemóvel, a caneca que usas no trabalho - e troca-o por uma cor ligeiramente mais ousada, mais gentil. Não néon. Apenas 10% mais viva do que aquilo que escolherias normalmente.
Este gesto pequeno importa porque contorna a resistência habitual.
Não tens de “te amar plenamente”.
Apenas aceitas a ideia de que os teus olhos merecem algo que não te drene. Que o teu dia pode conter uma coisa que não pede desculpa por existir.
Com o tempo, alguns clientes passam naturalmente dessa caneca para uma T-shirt, depois para lençóis, depois para um casaco que nunca pensaram ter coragem de vestir.
Há uma armadilha em que muitas pessoas caem: forçar uma transformação que, no fundo, detestam.
Compram um vestido vermelho vivo ou um casaco néon depois de um pico de motivação nas redes sociais… e ele fica intocado no armário, a irradiar culpa.
Os psicólogos veem isto muitas vezes e reviram os olhos com ternura. Sejamos honestos: ninguém faz realmente isto todos os dias.
O objetivo não é passar do cinzento invisível para o amarelo de carnaval de um dia para o outro. O objetivo é criar uma paleta que não te mantenha pequeno.
Uma forma honesta de começar: pergunta a ti próprio: “Numa escala de 0 a 10, quão desconfortável me sentiria com esta cor?”
Depois aponta para um 3, não para um 9.
Um rosa velho em vez de fúcsia. Um verde-azeitona quente em vez de um verde-lima berrante. Algo que pareça tu num dia bom, não um estranho.
“Quando as pessoas ajustam as suas cores com suavidade, não estão a mudar a sua personalidade”, explica um psicólogo clínico. “Estão a renegociar o espaço que se permitem ocupar no mundo.”
A um nível prático, alguns pontos de referência visuais podem ajudar-te a notar os teus próprios padrões.
- Abre o teu guarda-roupa e conta: quantas peças são bege, cinzento deslavado ou azul muito escuro?
- Olha para o teu quarto: os tons dominantes são mais “descansados” ou mais “sem vida”?
- Percorre as tuas fotos: que cores aparecem quando estás mais feliz?
- Pergunta a alguém em quem confias: “Que cor associas espontaneamente a mim?”
- Escolhe uma área (roupa, decoração, acessórios) e experimenta esta semana um tom um pouco mais quente ou mais luminoso.
Quando a cor se torna um espelho que podes realmente usar
Num autocarro, num escritório, num café, começas a reparar nisto depois de ouvires os psicólogos falarem do tema.
A pessoa envolta em camadas intermináveis de bege, ombros um pouco arredondados. O estudante de hoodies cinzentas desbotadas o ano inteiro, olhos sempre no chão.
Nunca sabemos a história deles, e não devemos tirar conclusões. Ainda assim, a cor diz-nos, em silêncio, quem está a esforçar-se muito para não incomodar ninguém.
É aí que o tema deixa de ser teoria e passa a ser solidariedade.
Sabemos que a baixa autoestima não aparece só nas palavras ou na postura. Esconde-se em pequenas escolhas: a camisa que guardas “para o caso”, as calças de ganga escuras que chamas “favorecedoras”, mas que na verdade querem dizer “eu desapareço nelas”.
Mudar isso não é tornar-se barulhento ou extravagante. É recusar continuar a tratar o teu corpo como um problema a gerir.
Quando os psicólogos dizem “há três cores que aparecem repetidamente em pessoas que se sentem pequenas por dentro”, não estão a dar-te uma nova forma de te julgares.
Estão a oferecer-te um novo espelho.
Em vez de perguntares “O que é que há de errado comigo?”, podes perguntar: “Que história estou a repetir através destes tons? Ainda me serve?”
E talvez, num dia em que te sintas um pouco mais corajoso do que o habitual, escolhas algo que não esconde. Não para impressionar ninguém. Apenas para veres o que isso faz à tua própria voz.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Cores “escudo” | Bege baço, cinzento deslavado e azul muito escuro são frequentemente escolhidos por pessoas que duvidam de si | Dá palavras e uma imagem a escolhas que talvez faças sem pensar |
| Micro-mudanças | Alterar apenas um objeto do dia a dia para uma cor um pouco mais viva | Permite agir sem te forçares nem te disfarçares, a um ritmo sustentável |
| Paleta pessoal | Observar as tuas cores “quando não estás bem” vs. “quando estás melhor” | Oferece uma ferramenta concreta para acompanhar a tua autoestima e alimentá-la com suavidade |
FAQ:
- Estas três cores significam sempre baixa autoestima? De todo. Designers, minimalistas ou pessoas que simplesmente adoram neutros podem usá-las com alegria. O que importa é a intenção por trás das tuas escolhas e a forma como falas de ti.
- Mudar cores pode mesmo melhorar a minha autoestima? A cor, por si só, não cura feridas profundas, mas pode apoiar a terapia ou o trabalho pessoal ao tornar o teu ambiente menos hostil e mais encorajador.
- E se eu gostar genuinamente de bege, cinzento ou azul escuro? Mantém-nas e brinca com textura, calor e pequenos apontamentos de cor. A questão não é o tom em si, mas quando é usado para te apagares.
- Existe uma “melhor” cor para a confiança? Não há um tom mágico universal. Muitas pessoas sentem-se mais assentes em tons quentes (terracota, dourado suave) ou mais energizadas por azuis e verdes claros. A “melhor” cor é aquela que te faz sentir um pouco mais presente.
- Como posso começar se sou muito tímido em relação à cor? Começa por acessórios ou itens escondidos: meias, roupa interior, um caderno, uma capa de telemóvel. Deixa os teus olhos habituarem-se a ver-te em tons ligeiramente mais vivos antes de passares para roupa visível.
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