Um preto, outro num vermelho coral vivo que lhe iluminava o rosto. Fitou-se por um segundo, franziu o sobrolho quase impercetivelmente e, em silêncio, dobrou o vermelho de volta para a prateleira. A camisola preta foi para a caixa. Sem drama, sem um grande suspiro. Apenas uma pequena escolha invisível que dizia muito.
Vê-se isto todos os dias: nos escritórios, nos transportes públicos, até nas stories do Instagram. Pessoas a recolherem-se em certas cores como numa zona segura. Cores que não chamam a atenção, que se misturam nas reuniões, que não gritam “olha para mim”. Num dia mau, são reconfortantes. Num mês mau, começam a tornar-se uma espécie de uniforme.
Psicólogos que estudam a cor e a autoimagem repararam num padrão marcante. Quando a autoestima baixa, a paleta encolhe. E, repetidamente, três tons voltam a aparecer.
As três cores que dizem baixinho “não quero ser visto”
Pergunte a psicólogos da cor que tons veem mais frequentemente em pessoas com baixa autoestima e três surgem como um refrão: preto mate, cinzento deslavado e certos beges apagados. Não as versões intencionais e estilosas que se veem nas passerelles. As versões cansadas, que se parecem mais com camuflagem do que com uma escolha.
O preto, quando usado como escudo, pode ser uma forma de desaparecer no fundo. O cinzento sussurra “neutro, não me julgues”. O bege, escolhido vezes sem conta, pode tornar-se a cor de não tomar posição. Nenhuma destas cores é “má” por si só. É a repetição, o gesto automático, a forma como substituem todas as outras opções que começa a contar uma história mais profunda.
Investigadores de cor no Reino Unido pediram, uma vez, a várias centenas de adultos com baixa e alta autoestima que escolhessem cores para as quais se sentiam “atraídos” num dia mau. As pessoas com baixa autoestima escolheram preto duas vezes mais do que as que se sentiam bem consigo mesmas. As variantes de cinzento e bege vieram logo a seguir, sobretudo para roupa usada no trabalho ou em eventos sociais.
Uma terapeuta em Londres contou-me o caso de um cliente, engenheiro de 32 anos, que chegava todas as semanas com o mesmo tipo de conjunto: jeans escuros, camisola cinzenta apagada, ténis pretos. Quando ela lhe pediu com suavidade para vestir “algo que terias escolhido aos 18”, ele apareceu na sessão seguinte com um hoodie verde-escuro e parecia quase envergonhado. Admitiu que tinha deixado de comprar cores há anos porque “não queria dar a ninguém motivo para comentar”.
A lógica por detrás destas escolhas é simples: quando duvidas do teu valor, raramente queres os holofotes. A cor torna-se uma negociação com a visibilidade. O preto absorve luz, torna a silhueta menos notória. O cinzento não se destaca numa foto de grupo. O bege mistura-se com paredes de escritório e mobiliário de cafés. Esses tons podem sentir-se seguros, como auscultadores com cancelamento de ruído emocional.
Do ponto de vista psicológico, estas cores muitas vezes combinam com narrativas internas: “não quero ocupar espaço”, “não sou assim tão interessante”, “prefiro não arriscar ser julgado”. A cor não causa a baixa autoestima, mas pode reforçá-la, dia após dia. Olhas ao espelho e vês exatamente o que temes: alguém que desaparece um pouco demasiado facilmente.
Como testar as tuas cores com suavidade, sem entrar em pânico com o crítico interior
Uma das experiências mais simples que os psicólogos sugerem é uma pequena “subida de nível” na cor, e não uma mudança radical. Escolhe um dos três suspeitos do costume - preto, cinzento, bege - e empurra-o um degrau na direção da vida. Mantém a estrutura, muda a energia. O preto pode tornar-se azul-marinho profundo. O cinzento liso pode inclinar-se para um azul-acinzentado suave. O bege pode aquecer para areia ou caramelo.
Em vez de deitares fora o guarda-roupa, escolhe um único “item de teste”: um cachecol, uma T-shirt, uma caneca de onde bebes o café da manhã. Algo de baixo risco. Integra-o na rotina e observa, sem julgamento, como te sentes e como as pessoas reagem. Uma mudança subtil é muitas vezes mais fácil para o sistema nervoso aceitar do que um blazer vermelho vivo que vai gritar contigo sempre que abres o armário.
Muitas pessoas com autoestima frágil cometem o mesmo erro: esperam “sentir-se confiantes” antes de deixarem a cor entrar. Esse dia raramente chega por si só. Dizem a si mesmas que vão comprar aquela camisa azul-cobalto “quando perderem peso” ou experimentar aquele vestido verde-esmeralda “quando estiverem mais à vontade com o corpo”. O tempo passa, e o guarda-roupa fica preso no modo silencioso.
Sejamos honestos: ninguém faz isto de forma perfeita todos os dias. Ninguém acorda e planeia conscientemente uma prática terapêutica de cor antes do trabalho. A vida é caótica. As reuniões atrasam-se, as crianças precisam de ajuda com os trabalhos de casa, a roupa acumula-se. Por isso, a chave não é a perfeição. É apanhares a escolha em piloto automático uma ou duas vezes por semana e parares tempo suficiente para perguntar: “Quero mesmo desaparecer hoje, ou isto é só hábito?”
“A cor é muitas vezes a primeira coisa que cortamos das nossas vidas quando deixamos de acreditar que temos direito a ocupar espaço visual”, explica uma psicóloga clínica que trabalha com imagem corporal e ansiedade. “Trazê-la de volta em doses pequenas e respeitosas pode ser um ato de autorrespeito surpreendentemente poderoso.”
Para manter a simplicidade, muitos terapeutas sugerem três ações pequenas:
- Troca esta semana uma peça “preto por defeito” por um tom ligeiramente mais quente ou mais rico.
- Escolhe um objeto colorido para o teu espaço de trabalho: caderno, caneta, post-its, tapete do rato.
- Uma vez por mês, compra ou pede emprestado um item numa cor ligada a uma memória positiva da infância.
Por fora, estes gestos parecem quase triviais. Por dentro, enviam uma mensagem discreta ao cérebro: “Tenho direito a ser visto, só um bocadinho.” Essa mensagem, repetida, pode lentamente competir com anos de auto-dúvida.
Quando as tuas cores começam a combinar com quem te estás a tornar
O objetivo não é banir o preto, o cinzento ou o bege, nem transformar toda a gente num arco-íris ambulante. É garantir que essas três cores são uma escolha, não uma prisão. Quando a autoestima cresce, as pessoas muitas vezes mantêm as peças escuras, mas usam-nas de outra forma. Um conjunto preto com um anel marcante. Uma camisola cinzenta com um cachecol vivo de uma viagem. Bege combinado com bijuteria forte e um batom que, de facto, reflete alguma personalidade.
Num nível mais profundo, brincar com cor pode ser uma forma honesta de acompanhar como te sentes contigo mesmo sem palavras. Numa semana, podes reparar que estás outra vez a escolher apenas coisas escuras, informes. Isso pode ser um sinal suave: algo em ti está a retrair-se. Noutra semana, podes acrescentar espontaneamente um toque de verde-azulado ou ferrugem e sentir-te surpreendentemente bem com isso. Não é preciso sobreinterpretar. Apenas repara. Partilha com um amigo, se isso te parecer seguro.
Todos já tivemos aquele momento em que vimos uma foto antiga e pensámos: “Uau, eu parecia mais vivo do que me sentia naquela altura.” A cor está mesmo nesse espaço entre a forma como o mundo te vê e a forma como te vês a ti mesmo. Deixar que as três cores associadas à baixa autoestima dominem cada canto da tua vida pode, lentamente, achatar ambas as perspetivas. Deixar entrar de novo um pouco de nuance, calor e contraste não cura nada por magia de um dia para o outro. Faz algo mais silencioso e sustentável: dá ao teu eu futuro mais espaço para aparecer à superfície.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Três cores “de baixa autoestima” | Preto, cinzento deslavado, bege apagado muitas vezes usados como camuflagem | Ajuda-te a notar quando a tua paleta encolhe com a tua confiança |
| Pequenas experiências de cor | Deslocar um item, todas as semanas, para um tom mais quente ou mais rico | Torna a mudança realista, não esmagadora nem teatral |
| Cores como ferramenta de autoavaliação | Repara quando as tuas escolhas se estreitam ou se abrem ao longo do tempo | Dá uma forma simples e visual de acompanhar as “estações” emocionais |
FAQ:
- Preto, cinzento e bege são sempre sinais de baixa autoestima? Não. Tornam-se um sinal quando substituem quase todas as outras cores e são usados sobretudo para evitar ser notado.
- Cores vivas podem “corrigir” a minha autoestima? Nenhuma cor cura feridas mais profundas. São mais ferramentas suaves que podem apoiar terapia, autorreflexão ou mudanças de estilo de vida.
- E se eu gostar mesmo de tons neutros? Então mantém-nos. Foca-te em saber se te sentes livre ao usá-los, e não preso ou invisível.
- Isto é o mesmo que conselhos de moda? Não exatamente. A moda fala de tendências e estilo. Aqui, o foco está nos motivos emocionais por trás de escolhas de cor repetidas.
- Por onde começo se tenho medo de cores vivas? Experimenta pequenos apontamentos: meias, capa do telemóvel, caderno ou um cachecol num tom ligeiramente mais rico do que o habitual.
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