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Psicólogos alertam que quem limpa obsessivamente enquanto cozinha pode não ser apenas organizado, mas também ter traços de perfeccionismo preocupantes.

Homem a cortar legumes numa tábua de madeira numa cozinha moderna e iluminada.

Há sempre aquela pessoa em todos os jantares: enquanto o molho ferve em lume brando, ela já está a esfregar a frigideira. A tábua de cortar é passada por água antes de as cebolas sequer irem para o tacho. Esponja numa mão, colher de pau na outra, como se a cozinha fosse um campo de batalha que tem de ser conquistado em tempo real. A loiça não se acumula. As migalhas não têm hipótese. O saco do lixo é atado, levado para fora e substituído antes de a sobremesa chegar à mesa.

Visto de fora, parece impressionante. Admirável, até.

No entanto, cada vez mais psicólogos dizem que este hábito nem sempre tem a ver com ser “apenas asseado”.

Por vezes, é um sinal de alerta.

A ansiedade secreta escondida atrás de uma bancada impecável

Veja alguém que limpa obsessivamente enquanto cozinha. Os olhos saltam da frigideira para a esponja, do tacho a borbulhar para a torneira a pingar. Um salpico minúsculo de óleo no fogão? Limpo imediatamente, a meio de mexer. Faca pousada “ao contrário”? Endireitada em meio segundo. Há uma tensão por baixo da coreografia, um silencioso “não posso deixar isto ficar desarrumado”.

De fora, passa por disciplina ou “bons hábitos”. Os amigos brincam que a pessoa devia ter um programa de culinária. Por dentro, existe muitas vezes um zumbido baixo de ansiedade, alimentado pela ideia de que tudo tem de estar sob controlo.

Não apenas a comida.
A sensação.

Psicólogos que estudam o perfeccionismo dizem que este comportamento encaixa num padrão muito específico. Não se trata apenas de gostar das coisas limpas. Trata-se de não tolerar o mais pequeno desvio de um padrão invisível. Uma psicóloga clínica com quem falei descreveu uma paciente que não conseguia desfrutar de uma refeição se houvesse uma única colher suja no lava-loiça.

O jantar em casa dela era teatro. Os convidados riam e bebiam vinho. Ela sorria, mas o cérebro fazia inventário: migalhas na bancada, gotas de água no chão, colheres deixadas em ângulos estranhos junto ao lava-loiça. A comida era ótima. O sistema nervoso, exausto.

No fim da noite, não se sentia orgulhosa. Sentia-se drenada.

Os psicólogos chamam a isto “controlo perfeccionista”, e a cozinha é o terreno de eleição. Cozinhar tem tempos, calor, técnica, apresentação. Junte a isso a pressão de convidados, os padrões das redes sociais e o mito da casa impecável sem esforço. De repente, limpar a bancada a cada trinta segundos já não é uma excentricidade.

Passa a ser uma estratégia para gerir o caos interno.

Quando está tudo limpo, nada parece prestes a explodir. Ou pelo menos é isso que o cérebro espera.

Uma cozinha impecável tem menos a ver com brilho e mais a ver com acalmar algo que se recusa a ficar quieto.

Quando limpar se torna um mecanismo de coping, e não um hábito

Há um teste simples que muitos terapeutas usam discretamente. Pergunte a si próprio: se eu deixasse esta frigideira por lavar até depois do jantar, sentiria um ligeiro desconforto… ou pânico? Essa diferença é onde a arrumação do dia a dia se transforma em algo mais psicológico. Muitos cozinheiros “limpa-se-enquanto-se-cozinha” aprenderam isto como um truque prático com os pais ou em restaurantes: lava-se enquanto a massa coze e evita-se uma montanha de loiça depois.

Para outros, não tem a ver com poupar tempo. Tem a ver com evitar a sensação de estar a falhar. A desarrumação não é só desarrumação. Parece prova de que não são suficientemente bons.

É um peso enorme para umas poucas migalhas carregarem.

Veja o caso de Thomas, 34 anos, que recebia amigos todos os domingos. Marinava frango, picava legumes com precisão, alinhava especiarias como soldados. Enquanto toda a gente conversava na sala, ele pairava na cozinha, a passar por água todas as taças no segundo em que ficavam vazias. Os convidados provocavam-no por ser “eficiente demais”.

O que eles não viam era a onda de pânico se um prato ficasse no lava-loiça mais de dois minutos. Uma vez, um amigo insistiu: “Deixa isso, ajudamos depois.” Ele sorriu, sentou-se, e sentiu o ritmo cardíaco disparar. Não era preguiça nem falta de educação. O cérebro dele lia aquele prato sujo como caos a espalhar-se.

Nesse domingo, percebeu: isto não era apenas um hábito. Era uma compulsão com boa imagem pública.

A limpeza perfeccionista na cozinha costuma misturar três coisas: medo de julgamento, medo de perder o controlo e um livro de regras interno e rígido sobre como uma “boa” pessoa gere a casa. Quando essas regras falam alto, o prazer de cozinhar é espremido até desaparecer. A receita pode estar perfeita, a mesa bonita, o chão impecável, e ainda assim a pessoa sente-se “insuficiente” porque uma panela ainda está de molho no lava-loiça.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

Os psicólogos alertam que, quando estes padrões não são questionados, não ficam confinados à cozinha. Transbordam para o trabalho, as relações, a imagem corporal, a parentalidade. A panela brilhante torna-se um símbolo de um padrão de vida impossível, que nunca deixa relaxar.

Como cozinhar sem transformar a cozinha numa panela de pressão

Se se reconhece nisto, o objetivo não é abandonar a limpeza. É recuperar a escolha. Uma pequena experiência que muitos terapeutas sugerem é a “loiça suja intencional”. Cozinhe como costuma, mas deixe deliberadamente um item usado - uma faca, uma taça de mistura, uma espátula - no lava-loiça até ter comido. Repare no que acontece no seu corpo.

Os ombros ficam tensos? Os pensamentos aceleram? Ensaiará mentalmente quando a vai lavar?

O objetivo não é provar que agora é “desarrumado”. É treinar ficar com um pouco de desordem sem deixar que isso o defina. Com o tempo, esse pequeno gesto torna-se um músculo: a capacidade de estar presente à mesa em vez de passar a noite a esfregar.

Outra mudança suave é separar competência de valor pessoal. Cozinhar limpo pode ser uma força real - cozinhas profissionais dependem disso. O problema começa quando essa força decide que manda na sua vida emocional. Pode manter o hábito e aliviar a pressão. Por exemplo, marque um ou dois “jantares desarrumados” por mês em que a única regra é: não se limpa nada até os pratos estarem vazios.

Se isso lhe parecer insuportável, não precisa de se envergonhar. Acabou de descobrir onde o seu sistema nervoso se sente inseguro. Essa é uma informação valiosa.

Fale consigo como falaria com um amigo: “O fogão aguenta mais dez minutos. Eu mereço provar isto enquanto está quente.”

Algumas pessoas precisam de palavras para reenquadrar o que se passa na mente. Dar-lhe um nome muitas vezes reduz o seu poder.

“A limpeza obsessiva durante a cozinha não é um traço de personalidade, é uma estratégia”, explica um psicólogo. “O objetivo não é perder a estratégia; é acrescentar novas que não lhe custem a paz todas as noites.”

Uma forma simples de começar a mudar é criar um pequeno pacto visível consigo, por exemplo:

  • Deixar uma panela por lavar até depois de comer, pelo menos duas vezes por semana.
  • Ficar sentado cinco minutos completos à mesa antes de tocar numa esponja.
  • Pedir a uma pessoa de confiança que o relembre com gentileza: “Pode esperar”, quando se levanta a meio da refeição.
  • Trocar uma corrida de limpeza por uma respiração funda e um gole de água.
  • Lembrar-se: os convidados lembram-se das gargalhadas, não do estado do lava-loiça.

Isto não são regras rígidas. São convites para sair do piloto automático e voltar ao seu próprio jantar.

Repensar o que é, afinal, um “bom cozinheiro” e um “bom anfitrião”

Retire as cozinhas do Instagram e as bancadas impecáveis dos programas de culinária, e sobra algo simples: pessoas a reunirem-se à volta de comida, em tempo real, com vidas reais a acontecer à volta. O vapor embacia janelas. Alguém entorna vinho. O molho transborda. Essas pequenas imperfeições são precisamente os momentos de que nos lembramos mais tarde.

Quando os psicólogos alertam para a limpeza obsessiva, não estão a atacar pessoas asseadas. Estão a dar nome a um sofrimento silencioso que muitas vezes passa despercebido porque parece socialmente aceitável. Ouvirmos “a tua cozinha está sempre perfeita” soa a elogio - até percebermos que foi construído sobre stress que os convidados nunca veem.

A questão é menos “sou demasiado limpo?” e mais “a que custo estou a manter isto tão limpo?”

Talvez repare que as noites em que relaxa um pouco - quando a loiça se acumula, quando ri com uma frigideira suja atrás de si - são noites estranhamente mais suaves. A comida sabe melhor quando o cérebro não está a correr uma checklist interna de inspeção. E se cresceu com críticas duras sobre desarrumação, deixar dois ou três pratos no lava-loiça até de manhã pode parecer uma rebelião silenciosa.

Ninguém precisa de aplaudir. Vai senti-lo no maxilar a desapertar, em ficar sentado para a sobremesa, em ouvir o fim da história de alguém porque não se levantou “só para passar isto por água rapidamente”.

O perfeccionismo não desaparece de um dia para o outro. Mas começa a rachar em momentos pequenos, muito comuns.

Muitas pessoas vão ler isto e lembrar-se de alguém que amam: um companheiro que não consegue estar quieto enquanto cozinha; um pai ou mãe que não conseguia desfrutar de uma refeição em família até cada panela brilhar; ou delas próprias, a correr contra a desarrumação como se a noite dependesse disso. A cozinha pode ser onde este padrão se torna visível pela primeira vez - e também onde pode, com gentileza, começar a mudá-lo.

Talvez, da próxima vez que cozinhar, olhe para a esponja e para o tacho a ferver e faça uma pergunta diferente. Não “como é que mantenho isto sob controlo?”, mas “o que aconteceria se deixasse esta noite ser ligeiramente imperfeita - e ainda assim digna?”

A resposta dirá mais sobre a sua relação consigo do que sobre o estado das bancadas.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A limpeza perfeccionista sinaliza ansiedade A limpeza obsessiva durante a cozinha reflete muitas vezes uma necessidade de controlo e o medo de “falhar” Ajuda os leitores a reconhecer quando a arrumação mascara stress mais profundo
Pequenas experiências podem afrouxar o padrão Práticas como deixar uma peça de loiça por lavar aumentam a tolerância a uma desordem menor Oferece formas concretas, de baixa pressão, para mudar o comportamento
O valor pessoal é separado do desempenho na cozinha Reenquadrar um “bom cozinheiro” como alguém presente, não impecável, reduz a pressão interna Convida os leitores a desfrutar mais das refeições e da ligação com os outros

FAQ:

  • Pergunta 1 A limpeza obsessiva enquanto cozinho significa que tenho TOC?
  • Pergunta 2 Como sei se sou apenas asseado ou se sou perfeccionista?
  • Pergunta 3 Estes padrões da cozinha podem afetar outras áreas da minha vida?
  • Pergunta 4 O que posso fazer no momento em que sinto vontade de limpar em vez de me sentar e comer?
  • Pergunta 5 Devo falar com um terapeuta sobre isto, ou é um problema “pequeno demais”?

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