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Porque as pessoas hesitam em delegar tarefas e confiar mais nos outros

Homem entrega uma lista de tarefas a dois homens numa reunião, com bloco de notas e chávena sobre a mesa.

The emails continuam a acumular-se enquanto o café arrefece.

Estás a olhar para a tua lista de tarefas, sabendo perfeitamente que metade daquilo podia ser entregue a outra pessoa. O cursor passa por cima do nome de um colega e depois afasta-se. «Faço eu, é mais rápido.» Últimas palavras famosas.

Mais tarde, nessa noite, portátil aberto no sofá, estás a terminar um relatório que alguém da tua equipa podia ter tratado sem dificuldade. O teu parceiro(a) lança-te aquele olhar: uma mistura de preocupação e ligeira irritação. Resmungas qualquer coisa sobre «padrões» e «timing» e voltas ao ecrã.

E se o verdadeiro problema não fosse a equipa, o chefe ou a carga de trabalho? E se a parte mais difícil fosse aprender a confiar em alguém para além de ti?

Porque nos agarramos às nossas tarefas (mesmo quando nos estamos a afogar)

Observa qualquer gestor ocupado ou freelancer durante um dia e verás o mesmo: mexem-se depressa, carregam tudo e raramente largam. Há um orgulho estranho em ser «a pessoa que resolve tudo». Parece seguro. Parece controlado.

Por trás desse controlo, há muitas vezes um medo silencioso. Medo de que alguém falhe. Medo de que o trabalho deles não se pareça com o teu. Medo de que, se outras pessoas conseguem fazê-lo, tu deixas de ser assim tão especial. Delegar não mexe só com a carga de trabalho - mexe diretamente com a identidade.

Em vez de perguntar «Quem me pode ajudar?», muitos de nós pensamos em silêncio: «Se eu não fizer, não vai ficar bem.» Esse pensamento pesa. E cola-se.

Uma diretora de RH em Londres disse-me que percebeu que tinha um problema no dia em que a filha de sete anos lhe disse: «Mãe, tu dizes sempre que estás demasiado ocupada.» A agenda estava cheia. A equipa era competente. E, no entanto, o nome dela estava em todos os ficheiros de todos os projetos.

Não lhe faltavam pessoas - faltava-lhe confiança. Quando finalmente se obrigou a delegar uma apresentação a um cliente a uma colega mais nova, sentou-se no fundo da sala, punhos cerrados. O cliente adorou. O mundo não acabou. A colega saiu da reunião um pouco mais alta.

Muitos estudos mostram o mesmo padrão. Num inquérito a gestores, mais de 50% admitiram que «têm dificuldade em delegar», enquanto uma parte significativa dos membros das suas equipas dizia sentir-se subaproveitada. A distância entre perceção e realidade é grande. Achamos que estamos a proteger a qualidade. Muitas vezes, estamos apenas a travar toda a gente.

Delegar desencadeia uma tempestade psicológica subtil. Quando entregas uma tarefa, enfrentas três perguntas silenciosas: «E se estragam tudo?», «Vou continuar a ser necessário?» e «E se a forma deles for melhor?» Não são questões logísticas - são questões de ego e de segurança.

O controlo parece uma manta quente. Sabes onde está tudo, sabes como se faz, sabes o que esperar. Deixar outros entrar significa expor os teus pontos cegos, os teus processos confusos, os teus rascunhos a meio. Essa vulnerabilidade é desconfortável, sobretudo em culturas onde os erros são punidos mais do que as experiências são valorizadas.

Há também uma narrativa escondida que muitos grandes executantes carregam: «O meu valor vem de fazer muito, não de capacitar os outros.» Por isso ficam no detalhe. Respondem a todos os emails. Verificam cada slide três vezes. Esquecem-se de que o impacto cresce quando deixas de ser o gargalo.

Como começar a delegar sem perderes a cabeça

Um método simples para quebrar o ciclo é um «inventário de tarefas» semanal. Reserva 15 minutos, lista tudo o que fizeste nos últimos sete dias e marca cada item como: 1) Só eu posso fazer isto, 2) Outra pessoa pode fazer isto com orientação, 3) Outra pessoa pode assumir isto por completo.

Agora escolhe apenas uma tarefa do grupo 2 ou 3 e delega-a esta semana. Não dez. Uma. Define o resultado, não cada passo. Diz como é que «bom» se traduz, qual o prazo e onde encontrar a informação-chave. Depois agenda um ponto de situação curto a meio, em vez de ficares por cima da pessoa como um drone.

A verdadeira disciplina é esta: depois de entregares, não a tires de volta ao primeiro abanão. Deixa a pessoa aprender a andar de bicicleta, mesmo que vá um pouco aos ziguezagues.

A maioria das pessoas não falha a delegar por falta de métodos. Tropeça em emoções e expectativas vagas. Dizem «Podes tratar disto?» sem explicar o que é «isto». Ou atiram uma tarefa mal cozida às 18h e sentem-se desiludidas na manhã seguinte.

A um nível humano, as pessoas também percebem quando a delegação é um castigo disfarçado. «Erraste, por isso agora ficas com a administração aborrecida.» Isso não constrói confiança - constrói ressentimento silencioso. A delegação funciona melhor quando é enquadrada como crescimento: «Quero que assumas isto, porque vejo que estás pronto(a) para o próximo passo.»

Sejamos honestos: ninguém faz isto na perfeição todos os dias. A maioria de nós improvisa, corre e corrige em tempo real. Está bem. O que importa é passar de «tenho de fazer tudo» para «partilhamos esta carga juntos», mesmo que de forma imperfeita.

«A confiança constrói-se em gotas e perde-se em baldes.» O mesmo acontece com a delegação. Cada pequena tarefa que entregas e apoias é uma gota. Cada vez que a tiras de volta com um suspiro de frustração, entorna-se um balde inteiro.

Para manteres a sanidade, ajuda ter um micro “livro de regras” pessoal:

  • Nunca delegar à última hora e esperar magia.
  • Dizer sempre como é o sucesso numa frase clara.
  • Dar às pessoas acesso à informação, não apenas instruções.
  • Elogiar o esforço em público, corrigir em privado.
  • Quando algo corre mal, perguntar «O que é que eu não clarifiquei?» antes de culpar.

São hábitos pequenos e aborrecidos. Mas transformam a delegação de um jogo de sorte numa prática partilhada. Com eles, confiar nos outros parece menos como saltar de um penhasco e mais como atravessar uma ponte que estão a construir em conjunto.

Aprender a voltar a confiar nas pessoas

Muitos adultos carregam cicatrizes antigas de trabalhos de grupo, maus chefes ou colegas pouco fiáveis. Essa história sussurra: «Não podes contar com ninguém.» Delegar carrega exatamente nesse hematoma. Por isso, cada vez que largas uma tarefa, estás quase a reescrever essa história.

A confiança cresce com evidência. Cada vez que um colega entrega a tempo, cada vez que um amigo aparece, cada vez que um familiar trata de algo sem ti, surge um novo dado. É fácil desvalorizar esses momentos. É mais difícil - mas mais saudável - parar e deixar que eles atualizem a tua narrativa interior.

Há um tipo de coragem silenciosa em dizer: «Aqui, não tenho de ser o herói.» Partilhar a carga de trabalho não te torna mais fraco. Torna o teu mundo maior. E dá aos outros a oportunidade de se tornarem alguém que nem sabiam que podiam ser.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Identificar o que pode ser delegado Fazer um inventário semanal das tarefas e classificá-las por nível de delegabilidade Ganhar tempo sem sacrificar a qualidade
Clarificar o resultado esperado Descrever o sucesso numa frase e definir pontos de controlo leves Reduzir mal-entendidos e recuos
Construir confiança progressivamente Começar por pequenas missões e reconhecer os sucessos Sentir-se mais seguro ao largar o controlo pouco a pouco

FAQ:

  • Porque é que me sinto culpado(a) quando delego tarefas? Podes estar a confundir «ser útil» com «fazer tudo». Delegar não significa que és preguiçoso(a); significa que estás a usar o teu tempo onde ele tem mais impacto.
  • E se a pessoa fizer a tarefa pior do que eu faria? Provavelmente vai acontecer no início. Faz parte da curva de aprendizagem. Foca-te em saber se o resultado é aceitável, e não se é idêntico ao teu estilo.
  • Como posso delegar se a minha equipa já está ocupada? Fala abertamente sobre prioridades e compromissos. Às vezes, uma tarefa que estás a segurar é, na verdade, mais adequada para outra pessoa, e uma das tarefas dela pode ser adiada ou simplificada.
  • É aceitável delegar tarefas pessoais, e não apenas de trabalho? Sim. Partilhar tarefas domésticas, burocracia ou logística do dia a dia também é uma forma de praticar confiança e reduzir a carga mental em casa.
  • Como reconstruo a confiança se uma delegação correu mal? Faz um debriefing com calma: o que estava pouco claro, o que faltou, que apoio era necessário? Recomeça com uma tarefa mais pequena e segura e combinem pontos de controlo claros.

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