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Pessoas com mais de 65 anos que abrandam desta forma acabam por ganhar mais energia.

Mulher relaxa com chá numa sala iluminada, ao lado de um caderno e relógio, com plantas ao fundo.

A primeira vez que reparei foi num banco de jardim. Um homem, talvez com 70 anos, estava sentado com as mãos à volta de um pequeno termo, a ver crianças a correr atrás de uma bola. Enquanto toda a gente passava a correr, com o telemóvel na mão e as chaves cerradas no punho, ele piscava os olhos devagar, quase com preguiça, como se o tempo se esticasse só para ele. Dez minutos depois, levantou-se e foi-se embora com um passo mais firme do que metade das pessoas apressadas que passavam por ali.

Comecei a vê-los por todo o lado a partir daí. Rostos mais velhos, gestos mais lentos… e, estranhamente, olhos luminosos.

Parecia que estavam a abrandar. E, no entanto, eram os únicos que não pareciam cansados.

Quando abrandar deixa de parecer desistir

Estamos habituados a tratar o envelhecimento como uma corrida que estamos a perder. Mais comprimidos, mais consultas, mais programas que prometem “energia reforçada depois dos 60” se simplesmente se esforçar um pouco mais. E depois conhece aquelas pessoas com mais de 65 anos que se movem de outra forma. Fazem uma pausa antes de se levantarem. Falam com um pouco mais de suavidade. Caminham como se estivessem a ouvir os próprios passos.

De fora, pode parecer fraqueza. Por dentro, está a acontecer outra coisa.

Não estão a render-se à idade. Estão a mudar, de propósito, o ritmo da sua vida.

Veja-se o caso da Marie, 68 anos, enfermeira reformada. Durante 40 anos viveu ao ritmo das urgências: alarmes, correria, turnos noturnos. Depois da reforma, manteve o mesmo andamento. Voluntariado, tomar conta dos netos, dizer sim a todos os favores. Aos 64, estava exausta, com um nó permanente nas costas e uma mente que acordava às 3 da manhã a listar tudo o que não tinha feito.

Numa manhã de inverno, depois de se esquecer de uma consulta simples, assustou-se. “O meu cérebro parecia enevoado”, disse-me. Decidiu fazer uma experiência: nada de multitarefa, nada de sprints. Cortou a lista de afazeres para metade e começou a caminhar 20 minutos por dia, devagar, sem auscultadores.

Três meses depois, o médico não a reconheceu. A tensão arterial tinha baixado, ela dormia a noite toda e dizia sentir-se “como se alguém me tivesse ligado de novo a uma tomada”.

Há uma lógica por trás desta equação estranha: devagar é igual a energia. O sistema nervoso humano não foi feito para uma aceleração constante, sobretudo depois dos 60. Quando está permanentemente em alerta, o corpo consome hormonas do stress, os músculos ficam ligeiramente tensos e o cérebro comporta-se como um navegador com 47 separadores abertos.

Abrandar os gestos físicos envia um sinal ao cérebro: não estás em perigo. O ritmo cardíaco baixa um pouco, a respiração torna-se mais profunda, a digestão melhora. O fluxo sanguíneo é desviado do modo “luta ou fuga” de volta para os órgãos que o reparam e recarregam.

O resultado não aparece em dez minutos. Aparece na forma como sobe escadas daqui a seis meses e em saber se ainda tem energia para se rir às 21h.

Os pequenos rituais lentos que recarregam depois dos 65

Um número surpreendente de pessoas enérgicas com mais de 65 anos partilha o mesmo hábito discreto: constroem “cantos de lentidão” no seu dia. Não são grandes momentos de spa nem retiros caros. São pequenas pausas que protegem como se fossem consultas. Cinco minutos de respiração antes de fazer café. Dois minutos sentados na cama antes de se levantarem. Uma caminhada curta depois do almoço, a um ritmo em que conseguiria recitar um poema sem ficar sem fôlego.

Um geriatra com quem falei chama a isto “microdesaceleração”. Não se trata de ficar estendido no sofá a tarde inteira. Trata-se de salpicar o dia com abrandamentos deliberados para que o corpo possa reajustar o seu ritmo, vezes sem conta.

Quem o faz regularmente não parece zen num cartaz. Apenas parece menos esgotado.

A armadilha em que muita gente cai depois dos 65 é o tudo ou nada. Ou tentam comportar-se como se tivessem 30, inscrevendo-se em aulas intensas de ginásio e enchendo os dias até à última. Ou resignam-se à poltrona, dizendo a si próprios: “Na minha idade, o que é que esperavas?” Ambos os caminhos drenam energia, por razões diferentes.

Há uma via mais suave, silenciosamente, entre esses extremos. Pense: alongamentos leves de manhã em vez de um pacto ambicioso do tipo “vou fazer uma hora de ioga todos os dias”. Um pequeno-almoço mais lento, sentado, sem fazer scroll nas notícias. Menos uma atividade social por semana, trocada por um hobby tranquilo que não pareça uma performance.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. Mas as pessoas que o fazem na maior parte dos dias? Nota-se na voz delas quando atendem o telefone.

Muitas descrevem o mesmo ponto de viragem: o dia em que se permitiram ir mais devagar sem culpa nem sensação de “velhice”. Essa é a parte emocional de que ninguém fala. Pessoas com mais de 65 anos são muitas vezes elogiadas por serem ativas, jovens “para a idade”, sempre a mexer. Há menos aplausos para a avó que diz, calmamente: “Agora vou sentar-me e descansar.”

A certa altura, porém, o corpo fala mais alto do que a pressão social.

“Quando deixei de fingir que tinha energia infinita, a minha energia real voltou”, diz André, 72 anos, que agora organiza a vida em torno do que chama “picos e vales de energia”, em vez do relógio.

  • Acordar devagar: sentar-se na beira da cama, pés no chão, três respirações profundas antes de se levantar.
  • Transições lentas: uma pausa de um minuto entre atividades, em vez de passar diretamente de cozinhar para limpar para telefonar.
  • Movimento lento: caminhadas, tarefas leves, alongamentos simples feitos a um ritmo em que a conversa continua fácil.
  • Mente lenta: um momento por dia sem ecrãs, mesmo que seja apenas beber um café a olhar pela janela.

Repensar o que significa “estar cheio de vida” depois dos 65

Há uma imagem teimosa na nossa cabeça sobre o que é “envelhecer bem”: maratonistas de cabelo prateado, avós a dançar salsa, reformados a cumprir listas de viagens a uma velocidade vertiginosa. Essa imagem pode inspirar, mas também envergonha silenciosamente quem não vive em alta rotação.

Passe tempo com os setentões discretamente enérgicos, aqueles que ainda cozinham, ainda se riem, ainda se lembram do aniversário de toda a gente. Vai reparar numa diferença. A vitalidade deles não explode; ela vibra, constante. Movem-se como pessoas que deixaram de discutir com o tempo e começaram a negociar com ele.

Essa negociação lenta pode ser o verdadeiro segredo.

Trata-se menos de acrescentar mais atividades e mais de remover a camada frenética que se cola ao quotidiano. Aquela camada que se sente no maxilar, nos ombros, na forma como se apressa a escovar os dentes. Quando ela amolece, a energia não chega em fogo de artifício. Volta em pequenas faíscas estáveis: a vontade de ligar a um amigo, o apetite de cozinhar algo novo, a coragem de se inscrever num workshop.

No fundo, muitos de nós pressentimos isto. Todos já passámos por aquele momento em que finalmente nos sentamos depois de um dia longo e apressado, e de repente sentimos o corpo inteiro a “pôr-se em dia”. A ironia é dura: quanto mais velho fica, mais lhe custa esse “pôr-se em dia”. Quem se atreve a abrandar o ritmo antes de estoirar é quem continua a caminhar mais longe, durante mais tempo, com mais leveza.

Sem suplemento mágico, sem grande segredo. Apenas uma escolha silenciosa e teimosa, repetida dia após dia: vá um pouco mais devagar agora, para poder ir um pouco mais longe depois.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Abrandar acalma o sistema nervoso Um ritmo suave reduz as hormonas do stress e favorece um sono e uma recuperação melhores Ajuda a recuperar uma energia estável e duradoura, em vez de picos curtos seguidos de quebras
Micro-pausas ao longo do dia Pequenas interrupções intencionais entre atividades funcionam como “botões de reset” Torna as tarefas do dia a dia mais leves e reduz o esgotamento ao fim do dia
Redefinir o que significa “ser ativo” Escolher atividades sustentáveis e mais lentas, em vez de desempenho elevado constante Permite que pessoas com mais de 65 anos se mantenham independentes, envolvidas e alegres por mais tempo

FAQ:

  • Pergunta 1 Abrandar depois dos 65 significa que vou perder massa muscular e ficar mais fraco?
  • Pergunta 2 Quanto tempo demora a sentir mais energia depois de mudar o meu ritmo?
  • Pergunta 3 Ainda posso praticar desporto se decidir abrandar?
  • Pergunta 4 E se a minha família achar que estou a ser “preguiçoso” por descansar mais?
  • Pergunta 5 Esta abordagem é útil mesmo que eu já tenha problemas de saúde?

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