Em rigor, um ano de idas e voltas à escola em França, burocracia e choque cultural deixou uma família canadiana simultaneamente encantada e exausta.
Atraídos pela ideia de longas manhãs no mercado, baguetes frescas e rosé ao pôr do sol, Gemma Bonham‑Carter e o marido trocaram a vida em Ottawa por doze meses em Aix-en-Provence com os dois filhos. O seu “sonho francês” parecia perfeito à distância. Vivê-lo, dia após dia, revelou-se mais rico, mais confuso e muito mais complicado do que qualquer série da Netflix.
Da Netflix França a uma verdadeira corrida à escola francesa
A família não se mudou às cegas. Ambos os pais já tinham vivido no estrangeiro, em Inglaterra e na Nova Zelândia, e queriam que os filhos crescessem com a mesma curiosidade pelo mundo. A pandemia aguçou esse desejo. A trabalhar remotamente e a sentirem-se presos à rotina, começaram a fazer a pergunta que muitos profissionais fazem em silêncio: se não for agora, quando?
Numa noite de verão junto a um lago no Ontário, essa pergunta deixou de ser hipotética. Em menos de um ano, tinham arrendado a casa em Ottawa, encontrado um pequeno apartamento em Aix-en-Provence e inscrito os filhos numa escola primária pública local.
No papel, tudo encaixava de forma impecável. Gemma geria um negócio online em marketing e inteligência artificial, totalmente compatível com trabalho remoto. O marido, consultor do governo canadiano, conseguiu uma licença sabática. A família podia viver de uma combinação de poupanças e do rendimento dela. O timing parecia perfeito. A história, quase escrita.
O sonho francês parece simples visto de longe: baguetes, sol, ruas de pedra. Vivê-lo com crianças envolve formulários, cansaço e adaptação constante.
Aix-en-Provence: cidade de postal, vida real
Aix-en-Provence cumpria todos os requisitos para uma primeira expatriação em família: centro percorrível a pé, clima mediterrânico, presença visível de segurança e uma grande população estudantil que suavizava o choque cultural com algum inglês. O centro histórico, com as suas fontes e ruas estreitas, parecia exatamente aquilo que tinham imaginado quando carregaram no play de Emily in Paris.
O ritmo diário mudou depressa. As manhãs começavam com os sinos da catedral e uma curta caminhada até à escola por ruas empedradas. As crianças carregavam pastas pesadas, não mochilas coloridas. Os comerciantes começaram a reconhecê-los. Ao fim da terceira semana, o padeiro da esquina já sabia o pedido.
- Deixar e ir buscar à escola a pé, duas vezes por dia
- Pão fresco todas as manhãs em vez de idas de carro ao supermercado
- Trabalho remoto encaixado entre fechos ao meio-dia e atividades ao fim da tarde
- Tardes em parques, museus e esplanadas em vez de centros comerciais
- Quartas-feiras sem escola, totalmente dedicadas ao tempo em família
Os famosos “mercredis sans école” - quando muitas crianças do ensino primário francês ficam em casa a meio da semana - tornaram-se o momento preferido dos filhos. A família aproveitava esses dias para caminhadas nas colinas de Sainte‑Victoire, idas à praia no Mediterrâneo ou simples manhãs lentas de pijama. Para pais habituados a semanas norte-americanas rigidamente planeadas, esse espaço para respirar pareceu radical.
Por trás do sonho: lacunas na língua, papelada e fricção cultural
À medida que as semanas se transformavam em meses, o lado mais prosaico da vida francesa veio ao de cima. A barreira linguística, em particular, não desapareceu por magia só porque a família adorava croissants. Conversas com professores, vizinhos e funcionários locais exigiam esforço. Houve mal-entendidos. Alguns acabaram em histórias engraçadas; outros, em lágrimas de frustração.
A administração francesa, lendária até entre europeus, acrescentou mais uma camada de complexidade. A matrícula na escola exigiu várias marcações, certificados impressos, comprovativo de vacinação, comprovativo de morada e, claro, várias versões do mesmo formulário.
| Aspeto da vida | Canadá | França (Aix-en-Provence) |
|---|---|---|
| Estrutura escolar | Cinco dias completos, comunicação clara em inglês | Quatro dias longos + quarta-feira, regras rígidas, informação em francês |
| Logística diária | Dependente do carro, grandes distâncias, horários flexíveis | Percorrível a pé, mas lojas fecham ao meio-dia e aos domingos |
| Vida social | Brincadeiras em casa, atividades estruturadas | Mais tempo em espaços públicos, esplanadas e praças |
| Ritmo de trabalho | Blocos de trabalho contínuos mais longos | Dia fragmentado por idas à escola e horários comerciais mais curtos |
Para as crianças, a imersão escolar trouxe altos e baixos emocionais. Aprenderam rapidamente o francês do recreio, mas continuavam a ter dificuldades na sala de aula com trabalhos escritos, gramática e ditados. Alguns dias chegavam a casa entusiasmados, a contar novos jogos e expressões. Noutros, sentiam-se isolados, esmagados por regras que mal compreendiam.
Mudar-se para o estrangeiro com crianças raramente se parece com férias. Pede-lhes que se reinventem desde a sala de aula, numa língua que não dominam.
O que mudou para os pais
Para Gemma, a estadia em França remodelou a relação com o trabalho. Habituada a perseguir crescimento, começou a questionar a pressão constante para escalar e otimizar. Almoços longos em praças sombreadas e caminhadas lentas depois da escola fizeram-na reparar em quanto da sua vida no Canadá girava em torno da produtividade.
O marido viveu algo diferente: distância de um papel seguro no governo, tempo longe das dinâmicas do escritório e a estranha sensação de estar profissionalmente “em pausa” enquanto lidava com a realidade muito intensa de criar filhos no estrangeiro. Isso levantou questões desconfortáveis, mas necessárias, sobre identidade de carreira e prioridades familiares.
Voltar para casa: porque é que o alívio se misturou com a nostalgia
Em agosto de 2024, a aventura de doze meses chegou ao fim previsto. A família empacotou caixas, despediu-se de novos amigos e deu uma última volta pela parte antiga de Aix. Partir foi muito mais emocional do que chegar.
Regressar ao Canadá produziu uma estranha sensação dupla. Locais familiares em Ottawa - desde cafés preferidos a ciclovias tranquilas - pareceram de repente novos. As estradas largas, o maior espaço em casa, a visão de marcas conhecidas: tudo acendeu pequenos sinais de conforto.
De volta a Ottawa, percebeu como sentira falta das zonas “aborrecidas” de casa: o trilho local, o corredor do supermercado que sabia de cor, a facilidade de falar sem procurar palavras.
O alívio veio sobretudo da carga mental. No Canadá, cada e-mail da escola fazia sentido. As marcações exigiam menos preparação. As crianças relaxaram de imediato em salas de aula em inglês, deixando de decifrar cada instrução.
Ainda assim, o ano no estrangeiro tinha-os mudado. Voltaram com amigos por correspondência na Provença, um gosto por pastelaria francesa e a noção de que o mundo se estende muito para lá do rio Ottawa. Os pais regressaram com algo igualmente concreto: um reajuste das prioridades.
O que a família trouxe de volta - para lá das lembranças
Gemma decidiu reestruturar o negócio para proteger tempo para a família. Isso significou menos reuniões seguidas, limites mais claros para noites e fins de semana e mais abertura para dizer que não. A experiência em França deu-lhe uma demonstração real de um ritmo mais lento em que o sucesso profissional pode coexistir com almoços longos e saídas antecipadas para ir buscar as crianças.
As crianças levaram lições diferentes. Aprenderam a lidar com o desconforto, a estar numa sala de aula onde entendiam apenas metade do que se dizia e a fazer amigos através de barreiras linguísticas. Essa resiliência pode ser mais importante para o futuro delas do que um ano extra de currículo em inglês.
O que esta história revela sobre a tendência do “sonho francês”
A experiência desta família canadiana encaixa num fenómeno mais amplo: profissionais anglófonos a mudarem-se temporariamente para cidades europeias que prometem um melhor equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. A França, com o seu apelo estético e leis laborais protetoras, surge no topo dessa lista.
Muitas vezes, as redes sociais comprimem estas mudanças numa narrativa simples: sair da correria, mudar para uma cidade bonita, beber vinho, sentir-se transformado. A realidade descrita por famílias como a de Gemma é mais complexa. Os benefícios são reais: deslocações mais curtas, mais espaços públicos, melhor cultura alimentar, limites mais fortes em torno do tempo livre. Também o são os custos: distância da família alargada, labirintos burocráticos, opções limitadas de apoio infantil durante as pausas de quarta-feira e uma sensação constante de ser “de fora”.
Para muitos, a opção mais saudável pode parecer-se com o que esta família fez: tratar a mudança como um capítulo definido, não como uma fuga permanente. Um ou dois anos no estrangeiro podem redefinir hábitos, desafiar pressupostos e remodelar a identidade das crianças, sem obrigar a um corte total com sistemas do país de origem, como a educação e a saúde.
Está a pensar fazer o mesmo? Ângulos práticos a ponderar
Famílias que consideram uma mudança semelhante muitas vezes subestimam as trocas práticas. Uma lista mental simples pode ajudar a aproximar o sonho da realidade:
- Educação: Está preparado para que os seus filhos repitam um ano ou regressem ligeiramente desencontrados do currículo do país de origem?
- Rendimento: Pelo menos um dos pais consegue manter trabalho remoto estável e o país de acolhimento é favorável a esse modelo?
- Língua: Como vai gerir reuniões com professores, consultas médicas e papelada noutra língua?
- Rede de apoio: Quem ajuda quando uma criança fica doente ou quando ambos os pais entram em fadiga cultural ao mesmo tempo?
- Regresso: O que acontece às carreiras e à escolaridade quando voltarem? Está a planear esse momento desde o início?
Outra abordagem útil é imaginar não a versão Instagram da nova vida, mas uma terça-feira aleatória em novembro: chuva, prazos, uma criança triste depois da escola, um eletrodoméstico avariado. Se essa imagem ainda lhe parecer atraente numa língua estrangeira e noutro sistema, o projeto pode assentar em bases sólidas.
Para pais norte-americanos em particular, o modelo francês oferece pontos específicos a observar com atenção. O ritmo da semana escolar, o peso cultural dos almoços longos, a ênfase em regras coletivas e o valor atribuído ao espaço público podem mudar a forma como as crianças crescem e como os adultos trabalham. Algumas famílias, como a de Gemma, descobrem que uma imersão temporária lhes dá o suficiente para recalibrar a vida de volta a casa, sem precisar de se comprometer para sempre com outro país.
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