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O regresso desta sobremesa clássica conquista os gourmets atuais.

Chef carameliza crème brûlée com uma colher, em cima de uma mesa de mármore, ao lado de baunilha e sal.

Creme quente, açúcar caramelizado, um estalido tímido sob a colher algures no fundo da sala. Na mesa ao lado, um casal na casa dos vinte inclinava-se sobre um pequeno prato oval como se fosse uma caixa de joias. Sem fumo, sem nitrogénio, sem fogo-de-artifício. Apenas um creme pálido e uma tampa vidrada, a brilhar sob as luzes suaves do restaurante.

O empregado colocou a mesma sobremesa à minha frente com um meio sorriso. “O nosso bestseller deste mês”, disse. Não era o bolo de chocolate com interior líquido. Nem a pavlova de sete texturas. Era crème brûlée. A coisa mais antiquada do menu.

Numa noite em que tudo gritava “moderno”, a estrela do espetáculo era algo que a sua avó podia ter feito para o almoço de domingo. Há uma razão para este prato modesto estar de volta.

O regresso surpreendente de uma sobremesa “de avó”

Olhe à sua volta em qualquer bistrô na moda ou bar de hotel neste momento e vai vê-la. Algures entre a tarte de yuzu e o cheesecake fumado, uma linha discreta no menu: crème brûlée. Por vezes vem aromatizada com miso ou bergamota; outras vezes mantém-se clássica, baunilha e natas. De uma forma ou de outra, esgota.

Esta sobremesa soava, até há pouco, ao equivalente culinário de uma estatueta de porcelana. Empoeirada. Delicada. Um pouco triste. Agora, os chefs falam dela com olhos a brilhar, como se tivessem acabado de reencontrar uma amiga perdida.

Porque é que isto acontece agora, quando a comida é mais guiada pelo Instagram do que nunca? A resposta está algures entre nostalgia, conforto e um amor secreto por coisas simples feitas na perfeição.

Em Paris, um pequeno restaurante no 11.º arrondissement partilhou recentemente os seus números: depois de voltar a pôr uma crème brûlée simples no menu, os pedidos de sobremesa subiram 30%. No TikTok, a hashtag #cremebrulee acumula milhões de visualizações, com pessoas a queimar a camada de açúcar com tudo, desde maçaricos profissionais a isqueiros de velas.

Há aquele som inconfundível nesses vídeos: o estalo da colher. Um “crack” limpo e frágil que quase toda a gente reconhece. O conteúdo gastronómico está cheio de escorridos, puxões e fios de queijo, mas este momento silencioso e controlado está, de repente, a atrair grandes números.

Um pasteleiro disse-me que tinha tentado todas as tendências de sobremesas “virais”: cronuts, bolos de lava, tiramisù desconstruído. Bons resultados, entusiasmo curto. Quando voltou a pôr a crème brûlée na carta, os pedidos estabilizaram num nível que ele não via há anos. As pessoas não queriam um espetáculo. Queriam aquele pequeno ritual.

Há uma lógica por detrás deste regresso. Tivemos anos de sobremesas hipercriativas, quase teatrais. Torres de merengue, sprays comestíveis de purpurinas, pratos com aspeto de peças de arte que dá medo tocar. Lindos em fotografia, um pouco cansativos na vida real.

A crème brûlée está no extremo oposto desse espectro. Quatro ou cinco ingredientes. Uma textura que se descreve numa palavra: sedosa. Um contraste simples: vidro vs. veludo. Parece um antídoto para a sobrecomplicação culinária.

E estamos também a viver um momento em que a comida de conforto se tornou uma linguagem. Depois de tempos incertos e feeds frenéticos, uma colherada de creme morno sob uma fina armadura de açúcar diz: vai correr tudo bem durante os próximos três minutos. E três minutos de calma não são um luxo pequeno hoje em dia.

Como os chefs estão, discretamente, a reinventar a crème brûlée

Nos bastidores, o grande regresso desta sobremesa antiga não é apenas copiar e colar de livros de receitas empoeirados. Em muitas cozinhas, começa com um gesto preciso: reduzir a receita ao essencial e depois reconstruí-la de raiz. Tempos de cozedura mais curtos. Natas melhores. Ovos de uma única quinta. Baunilha que cheira mesmo a baunilha, não a perfume.

Alguns chefs usam temperaturas de forno mais baixas e cozeduras mais longas para conseguir um centro apenas firme, a tremer. Outros arrefecem menos o creme para que mantenha um leve calor sob a crosta, como se tivesse acabado de sair do forno de casa de alguém.

A camada de açúcar é outra revolução silenciosa. O açúcar branco fino dá um estalo claro, tipo vidro. O açúcar em bruto traz notas de caramelo mais profundas e uma ligeira amargura. Muitos chefs testam diferentes granulações e maçaricos até encontrarem o “quebrar” ideal. O objetivo é sempre o mesmo: primeira colherada, um pequeno choque, depois maciez.

Os cozinheiros caseiros que tentam seguir esta onda caem muitas vezes nas mesmas armadilhas. Calor a mais, paciência a menos. Apressam o creme, talham as gemas, ou queimam o açúcar tempo demais e fica a saber a queimado em vez de caramelizado. E depois declaram que a crème brûlée é “difícil”, quando, na verdade, é sobretudo ritmo e atenção.

Alguns ficam obcecados com gadgets. Maçaricos sofisticados, baunilha exótica, ramequins de cerâmica especiais. Tudo isso é agradável; nada disso é obrigatório. Um recipiente baixo que vá ao forno, um forno suave e um maçarico de cozinha simples são mais do que suficientes.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Nem os pasteleiros. Fazem em lotes, arrefecem, planeiam com antecedência. Se a sua primeira tentativa parecer ovos mexidos doces, isso não é um fracasso pessoal. Só significa que está a aprender uma sobremesa que recompensa a lentidão num mundo que empurra para a pressa.

Uma pasteleira londrina resumiu-o assim durante o serviço, enquanto colocava mais um tabuleiro de ramequins no frigorífico:

“A crème brûlée é como uma convidada de jantar silenciosa”, disse ela. “Não vai gritar por atenção, mas se lhe der um bom lugar à mesa, toda a gente se vai lembrar dela.”

O que raramente se admite é que parte da magia vive nos pequenos gestos à volta do prato. A pausa antes de tocar na superfície. O sorriso partilhado quando a crosta cede. Num encontro, isso é um pedacinho de teatro que controlam os dois.

  • Use baunilha verdadeira uma vez, só para sentir a diferença.
  • Pare de cozer quando o centro ainda oscilar ligeiramente.
  • Espalhe o açúcar numa camada fina; não construa um escudo de rebuçado.
  • Arrefeça completamente e só faça o brûlée no último momento.
  • Coma devagar, com alguém que ouça o estalo.

Porque é que esta sobremesa antiga parece estranhamente moderna

Este regresso não é só sobre paladar. É sobre a forma como nos relacionamos com a comida num momento em que tudo pode ser encomendado com três toques. A crème brûlée exige o oposto: antecipação. Ovos e natas misturados cedo no dia. Horas de silêncio no frigorífico. Um toque final de fogo no último minuto.

Essa linha temporal parece quase rebelde. Nenhuma app de entregas consegue acelerar esse engrossar lento no forno. Nenhum “truque rápido” substitui o arrefecimento de uma noite. É uma daquelas receitas que lembram que a vida tem o seu próprio ritmo - e nem tudo se dobra ao “instantâneo”.

Num almoço de domingo cheio, quando um tabuleiro de brûlées sai da cozinha e atravessa a sala, as cabeças viram-se. Não é nostalgia de uma infância específica; é nostalgia da ideia de que alguém teve tempo. No fundo, todos desejamos provas de que ainda existe cuidado por trás da nossa refeição.

Para alguns, o primeiro encontro com a crème brûlée não é na infância - é na idade adulta: o primeiro emprego, uma pequena promoção, um restaurante ligeiramente caro para celebrar. O estalo da colher torna-se um som que se associa a sentir-se “um bocadinho crescido”. Pequeno, mas colado à memória.

Num dia mau, esta sobremesa pode ser uma aterragem suave. Num dia bom, é uma volta de honra discreta. Não grita festa como um bolo gigante; sussurra: passaste por isto, toma algo delicado.

Todos já vivemos aquele momento em que a conversa abranda, os telemóveis escorregam para cima da mesa e alguém sugere “partilhar uma sobremesa” quase como desculpa para ficar mais um pouco. A crème brûlée encaixa perfeitamente. É fácil de dividir, fácil de conversar por cima, reconfortante sem exigir todo um ritual de facas e velas.

E se nunca a fez em casa, há algo estranhamente fortalecedor em dominar um clássico tão “chique”. Percebe que é apenas creme e açúcar, não feitiçaria.

Talvez esse seja o núcleo do grande regresso entre os gourmets de hoje: por baixo da superfície nostálgica, é uma sobremesa que respeita a sua inteligência. Não se esconde atrás de quinze componentes. Olha-o nos olhos e diz: aqui estou eu - julgue-me apenas pelo sabor e pela textura.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Regresso das sobremesas retro A crème brûlée volta a ser a estrela das cartas modernas Perceber porque é que os clássicos regressam e como tirar partido disso
Força da simplicidade Poucos ingredientes, mas um verdadeiro trabalho de textura e cozedura Dá vontade de testar uma versão caseira sem intimidação
Ritual e emoção O “crack” do açúcar e o contraste quente-frio criam um momento memorável Ajuda a ver esta sobremesa como uma experiência a partilhar, não apenas um doce

FAQ:

  • A crème brûlée é mesmo assim tão difícil de fazer em casa? Não tanto quanto a fama sugere. A receita é simples; o lado difícil é o calor suave e a paciência. Forno baixo, banho-maria e parar a cozedura quando o centro ainda treme.
  • Preciso de um maçarico para caramelizar o topo? Um pequeno maçarico de cozinha dá o melhor controlo, mas pode usar o grelhador do forno. Mantenha os ramequins bem frios, polvilhe uma camada fina de açúcar e coloque-os perto do calor por pouco tempo.
  • Posso aromatizar a crème brûlée sem estragar o sabor clássico? Sim, desde que seja subtil. Infunda as natas com raspa de citrinos, grãos de café, folhas de chá ou ervas e depois coe. A base deve continuar a saber a natas e ovo, não a perfume.
  • Porque é que a minha crème brûlée fica granulada em vez de lisa? Provavelmente o creme aqueceu demais ou os ovos cozinharam demasiado depressa. Da próxima vez, aqueça as natas lentamente, tempere as gemas gradualmente e coza a uma temperatura mais baixa em banho-maria.
  • Com quanta antecedência posso preparar a crème brûlée? Pode cozer e arrefecer os cremes com 1–2 dias de antecedência. Mantenha-os tapados no frigorífico e caramelize o açúcar mesmo antes de servir para o topo se manter estaladiço.

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