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Nem sudoku nem romances: o passatempo recomendado para maiores de 60 anos e os seus benefícios ocultos para o cérebro.

Duas pessoas a jogar xadrez num jardim, com chávenas de café e plantas ao fundo.

Ninguém estava a fixar um ecrã, ninguém fazia scroll, ninguém tocava numa app de puzzles. Uma fila de cabeças grisalhas inclinava-se sobre tabuleiros de madeira, dedos a moverem-se devagar, quase com ternura, sobre pequenas peças esculpidas. Um homem semicerrava os olhos, depois sorria, depois abanava a cabeça e mudava a jogada no último segundo. Na parede, a TV dava as notícias com o som desligado. Ninguém levantava o olhar.

Lá atrás, uma mulher no fim dos sessenta ria-se alto quando o adversário lhe encurralou o rei - e, de seguida, pediu-lhe que lhe mostrasse exatamente como o tinha feito. “Quero a minha vingança para a semana”, disse. Os olhos brilhavam, como se tivesse acabado de descobrir uma cidade nova em vez de um passatempo novo. O caderno ao lado do tabuleiro estava cheio de setas, rabiscos e padrões meio lembrados.

Não era sudoku. Não era um romance. Era algo muito mais vivo.

O passatempo surpreendente que o seu cérebro estava à espera

Silenciosamente, quase com timidez, o xadrez está a entrar na vida de pessoas com mais de 60 anos. Não como um jogo poeirento preso a um estereótipo de grande mestre, mas como um ritual muito real, muito social. Um encontro semanal num café. Um tabuleiro dobrável na mesa da cozinha. Um conjunto barato encontrado numa loja solidária. As peças são as mesmas de sempre, mas o que estão a fazer aos cérebros mais velhos começa a parecer muito novo.

Passámos anos a ouvir que devíamos “fazer palavras cruzadas” ou “continuar a ler romances” para manter a mente afiada. Essas coisas ajudam, claro. Mas o xadrez é um animal diferente. É parte puzzle, parte conversa, parte pequeno drama encenado em quarenta lances. E, para um cérebro a envelhecer que ainda quer desafio, é como acender uma luz mais forte.

Num centro comunitário em Leeds, um pequeno “clube de xadrez 60+” começou com quatro pessoas e um tabuleiro em segunda mão. Em três meses, já tinham vinte participantes regulares e uma lista de espera. Uma membro, Jean, de 72 anos, costumava depender de sopas de letras e concursos de TV para “manter o cérebro a funcionar”. Ao fim de seis semanas de noites de xadrez, disse ao organizador que estava a acordar com uma sensação estranha de estar “ligada”, como se a mente tivesse mais separadores abertos.

Há dados por trás dessas sensações. Estudos com adultos mais velhos mostram que jogos estratégicos estruturados - especialmente o xadrez - se correlacionam com um declínio cognitivo mais lento, melhor memória de trabalho e até melhor planeamento no dia a dia. Um estudo francês concluiu que jogadores de xadrez mais velhos obtinham melhores resultados em testes de raciocínio e flexibilidade mental do que não jogadores da mesma idade e contexto. A chave não é apenas a dificuldade do jogo. É a forma como o obriga a gerir memória, previsão e emoção ao mesmo tempo.

O sudoku e a leitura ativam o cérebro, mas geralmente de uma forma mais linear e solitária. Resolve-se uma grelha. Segue-se uma história. Há atividade, mas muitas vezes é unidirecional. O xadrez empurra constantemente a mente a alternar perspetivas. A sua jogada, a jogada do outro, a armadilha possível daqui a três lances. É viagem mental no tempo, casada com reconhecimento de padrões. Essa alternância contínua treina aquilo a que os cientistas chamam “flexibilidade cognitiva”, uma competência que naturalmente se vai perdendo com a idade se nada a esticar.

O seu cérebro não está apenas a resolver; está a negociar, a antecipar, a recuperar de erros. E, entretanto, está sentado em frente a um ser humano real, a ler microexpressões, a gerir frustração ou alegria. Para um órgão que procura novidade e contacto social, esta mistura é ouro.

Como deixar o xadrez afiar a mente sem o afastar

Se a palavra “xadrez” lhe traz imagens de torneios suados e livros grossos de teoria, baixe a fasquia. O passatempo que transforma cérebros mais velhos não começa com aberturas que soam a decretos reais. Começa com um jogo simples por semana. Talvez dois. E curtos também - 20 ou 30 minutos, não maratonas de três horas. Um conjunto básico, um amigo ou um neto, e disponibilidade para perder (e muito) ao início.

A porta de entrada mais suave costuma ser tutoriais online para principiantes absolutos. Vídeos de dez minutos que mostram como cada peça se move e depois param. Depois, uma app de treino que permite jogar contra um computador muito fraco, sem julgamentos. O “treino cerebral” começa no momento em que tenta lembrar-se de como o cavalo se move e dá por si a pensar um passo à frente. É nesse pequeno alongamento que a magia mora.

Muitos maiores de 60 temem em segredo parecer “parvos” enquanto aprendem. Por isso, ficam com aquilo que já fazem bem: palavras cruzadas, romances, os mesmos concursos repetidos. O truque é criar um espaço de aprendizagem onde os erros são quase o objetivo. Pode ser um neto que adora explicar, um vizinho ao mesmo nível, ou um clube na biblioteca local que acolha principiantes sem cerimónias.

Uma pequena rotina faz maravilhas: depois de cada jogo, reveja apenas três ou quatro lances na cabeça. “O que poderia ter feito em vez disso no lance dez?” Não analise tudo - só aquele momento. Esta reflexão em pequenas doses fortalece a memória e o pensamento estratégico sem transformar o passatempo em trabalhos de casa. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas fazê-lo às vezes chega para empurrar o cérebro para um modo mais ativo.

À medida que o hábito se instala, os benefícios escondidos começam a infiltrar-se na vida quotidiana. Há quem diga que perde as chaves menos vezes porque está, sem dar por isso, a planear pequenas sequências: “Se eu entrar, ponho-as aqui, depois faço isto.” Outros notam que resistem mais a desistir de tarefas burocráticas chatas; treinaram não abandonar cedo demais no tabuleiro. Pode até sentir-se mais calmo em conversas stressantes, porque treinou parar e pensar um lance à frente em vez de reagir de imediato.

“Achei que estava só a passar o tempo”, disse Martin, 68 anos, que se juntou a um grupo de xadrez no parque depois de a mulher morrer. “Afinal, estava a aprender a pensar outra vez - e a estar com pessoas sem falar da minha saúde o tempo todo.”

  • Comece pequeno: um jogo curto por semana, com alguém paciente.
  • Mantenha o espírito leve: foque-se na curiosidade, não em ganhar.
  • Pense em voz alta: partilhar o seu raciocínio multiplica o exercício mental.
  • Mantenha-o social: um clube, um café, um banco de jardim faz o cérebro e o coração trabalharem em conjunto.
  • Proteja a alegria: se parecer escola, simplifique até voltar a parecer um jogo.

O que o xadrez muda discretamente numa vida a envelhecer

Com o tempo, o tabuleiro torna-se mais do que 64 casas. Para muitos jogadores mais velhos, transforma-se num ponto de ancoragem semanal. Um motivo para sair de casa, vestir-se melhor, ser esperado em algum lado. Pode soar pequeno. Não é. A rotina é das primeiras coisas que começa a desfazer-se na reforma, e arrasta consigo o humor e a cognição. Uma tarde de xadrez de duas horas pode funcionar como uma coluna vertebral em torno da qual o resto da semana se organiza, suavemente.

A nível neurológico, os ganhos são subtis, mas reais. Estudos de imagiologia sugerem que o envolvimento regular em jogos estratégicos pode ajudar a manter ligações em regiões cerebrais associadas à função executiva e à memória. Não há um escudo mágico contra a demência, mas as pessoas que continuam a esticar o pensamento de formas complexas e interativas tendem a mostrar um declínio mais lento. A ideia não é perseguir a imortalidade. É manter as luzes acesas no maior número possível de “salas” mentais, durante o máximo de tempo possível.

Socialmente, o jogo corta discretamente a solidão. As peças não querem saber se é viúvo, divorciado, reformado, tímido ou mau em conversa de circunstância. Senta-se, aperta a mão, mexe um peão. A conversa aparece nos intervalos. “Lance arrojado.” “Não vi isso a chegar.” “O meu neto joga essa linha.” Numa tarde de quinta-feira em Brighton, dois homens na casa dos setenta perceberam que tinham crescido a três ruas de distância, décadas atrás, por cima de um tabuleiro que quase nem tinham montado nesse dia.

Num plano mais emocional, o xadrez devolve-lhe algo que o envelhecimento muitas vezes rouba: a hipótese de melhorar. Não de manter. De melhorar. Essa sensação de notar, semana após semana, que vê táticas mais depressa, que já não cai nas mesmas armadilhas. Conta ao cérebro uma história silenciosa - ainda está a mudar, ainda é capaz de aprender, ainda está em movimento. E essa história molda tudo.

Todos já tivemos aquele momento em que damos por nós a dizer: “Já sou velho demais para isto.” Pode acontecer aos 40, quanto mais aos 70. O xadrez não discute consigo essa crença. Apenas prova que está errado, em pequenos incrementos. Hoje lembra-se de como o bispo se move. No próximo mês vê um mate em três. E, algures pelo caminho, algo muda: se consegue aprender isto, o que mais ainda será possível?

O benefício escondido não é apenas pensar com mais nitidez. É uma relação mais suave, mais generosa, com a sua própria mente a envelhecer. A sensação de que não é uma máquina a abrandar, mas uma paisagem que ainda tem cantos por explorar. Um passatempo que lhe pede, com gentileza mas firmeza, para continuar a aparecer por si - um lance de cada vez.

E, quando perde uma peça, ou até o jogo inteiro, está a praticar uma competência que se torna estranhamente preciosa depois dos 60: recuperar de pequenas falhas, rir-se delas e continuar a jogar.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
O xadrez treina várias competências cerebrais ao mesmo tempo Memória, planeamento, atenção e flexibilidade são ativados em cada jogo Ajuda a manter a mente mais afiada e adaptável com a idade
O jogo social melhora o bem-estar emocional Partidas regulares criam rotina, ligação e momentos partilhados Reduz a solidão e apoia o humor após a reforma
Esforço pequeno e consistente supera estudo intenso Um ou dois jogos curtos e descontraídos por semana são suficientes para gerar benefícios Torna o passatempo realista e sustentável na vida real

FAQ:

  • Sou demasiado velho para começar a aprender xadrez depois dos 60? De todo. Muitos principiantes começam nos setenta ou oitenta e evoluem de forma consistente; o essencial é ter paciência e manter as partidas curtas e agradáveis.
  • O xadrez é mesmo melhor para o meu cérebro do que sudoku ou palavras cruzadas? “Melhor” depende de si, mas o xadrez combina resolução de problemas, memória, estratégia e interação social de uma forma que os puzzles de números normalmente não conseguem.
  • Preciso de estudar teoria e aberturas para beneficiar? Não. Só jogar partidas informais e pensar um pouco sobre as suas jogadas já é suficiente para estimular o cérebro e obter a maior parte dos ganhos cognitivos.
  • E se eu não tiver ninguém com quem jogar presencialmente? Plataformas online permitem jogar devagar contra pessoas reais ou contra um computador muito fraco, e muitas têm modos amigos de principiantes e chat desligado.
  • Com que frequência devo jogar para notar efeito na mente? A regularidade ajuda: um ou dois jogos por semana, ao longo de meses, podem melhorar de forma notória a concentração, a confiança e a agilidade mental em muitos jogadores mais velhos.

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