Ce seront-là, era a sala de um T3 no quarto andar, com brinquedos espalhados pelo chão e um bolo ainda morno em cima da mesa de centro. No meio dos risos e das conversas, o tom mudou assim que a palavra “smartphone” foi dita.
“Não lhe vou dar um telemóvel aos 9 anos. Ela não precisa disso”, atirou a Emily, jovem mãe, com a voz firme, mas os dedos crispados na chávena de chá. O silêncio que se seguiu foi mais ensurdecedor do que os gritos das crianças na divisão ao lado. Uma tia abanou a cabeça. Um primo sorriu com ar embaraçado. Depois, tudo acelerou muito depressa.
“Estás a ser cruel.” “Ela vai ficar de fora.” “É assim que a vida é agora.” As frases dispararam, como se a Emily tivesse proibido a filha de respirar, em vez de recusar um ecrã. Num canto, a menina entretinha-se com um puzzle, sem saber que uma parte do seu futuro social estava a ser decidida naquele exacto momento. Uma frase estalou, quase como uma ameaça.
“Os ecrãs são as novas chupetas. Vais ceder. Vais ver.”
Quando um “sem telemóvel” se torna um escândalo de família
A cena pode parecer anedótica. No entanto, repete-se, sob formas diferentes, em milhares de salas. Um progenitor decide adiar o primeiro smartphone e, de repente, toda a gente tem uma opinião. Não um debate educado, não. Antes uma espécie de referendo emocional sobre o que significa ser um “bom” pai ou uma “boa” mãe em 2026.
À frente da Emily, a preocupação da família não era fingida. Para eles, privar uma criança de telemóvel é expô-la à exclusão, às gozações, à solidão no recreio. A palavra “cruel” não era apenas um insulto: era uma acusação de falha afectiva. Como se amar um filho implicasse necessariamente ligá-lo… e ligá-lo cedo.
Este desfasamento é violento. Porque, ao mesmo tempo, psicólogos, pediatras e neuropsiquiatras multiplicam os alertas. Falam de dependências emergentes, de ansiedade social agravada, de sono destroçado e de infâncias “corroídas pela notificação permanente”. A Emily ficou presa entre dois fogos: a pressão social da família e os avisos frios dos especialistas, que explicam, com números, que um cérebro de 9 anos não foi desenhado para engolir TikTok e WhatsApp o dia inteiro.
Um inquérito recente do Pew Research Center, por exemplo, mostra que a maioria das crianças em alguns países ocidentais recebe o primeiro smartphone entre os 9 e os 11 anos. Entre elas, uma proporção importante ultrapassa as 4 horas de ecrã por dia durante a semana. Não para os trabalhos de casa. Para redes sociais, jogos e vídeos curtos. Enquanto isso, as actividades livres, o brincar lá fora e os momentos de tédio criativo recuam.
Nas consultas de terapia, adolescentes descrevem um cansaço mental que antes se associava ao mundo do trabalho. “Tenho de responder”, “não posso deixar os meus amigos em visto”, “se eu não publicar, eu não existo” voltam como refrões. Quando os especialistas dizem que “os ecrãs são as novas chupetas”, falam de bebés acalmados com vídeos, mas também de adolescentes que regulam a ansiedade com um fluxo infinito de conteúdos. Só que um alívio à superfície pode mascarar uma tensão de fundo que nunca desaparece realmente.
A Emily tinha lido esses estudos. Tinha visto a transformação de algumas crianças à sua volta: mais impaciência, menos capacidade de concentração, birras quando se tira o ecrã. Logicamente, o seu “não” fazia sentido. Mas, na família, esse “não” foi vivido como um ataque implícito: se ela recusa o smartphone para proteger a filha, o que é que isso diz dos pais que já o ofereceram? De repente, aquele simples objecto preto numa capa colorida tornava-se um símbolo de valor parental, um marcador de estatuto, quase um teste de lealdade familiar.
Como dizer “ainda não” sem partir tudo
Para os pais que, como a Emily, sentem que “há qualquer coisa que não está bem” com o tudo-ecrã, mas não querem transformar-se em eremitas, existe uma estratégia: dizer “ainda não”, em vez de um “nunca” rígido. Na prática, isto significa definir idades, momentos e contextos. Por exemplo: sem smartphone pessoal antes dos 12 anos, mas um telemóvel partilhado para os trajectos da escola, guardado na cozinha à noite.
Uma dica que surge frequentemente entre pedopsiquiatras: começar por esclarecer o que é mesmo necessidade e o que é puro conforto.
- Necessidade: poder contactar a criança quando volta sozinha para casa.
- Conforto: ter acesso permanente a vídeos e à conversa do grupo da turma.
Depois desta triagem, é possível propor soluções intermédias: um telemóvel antigo sem apps sociais, um simples telemóvel de tampa, ou um smartphone limitado com apenas o número dos pais e uma app de localização.
Para isto resultar, também é preciso preparar o terreno antes do dia D. Falar com a criança, explicar que a regra não é um castigo, mas um ritmo diferente. Dizer que se volta ao tema dentro de um ano, numa data concreta. Isto retira alguma carga dramática. Um “ainda não” é mais respirável do que um “nunca”, que fecha todas as portas.
O que dói nestas histórias, muitas vezes, não é tanto o ecrã, mas a sensação de estar sozinho contra todos. Os outros pais da turma parecem ter cedido. Os avós estão convencidos de que um telemóvel é um sinal de amor moderno. Os irmãos mais velhos reviram os olhos, já colados ao próprio ecrã. E, no meio, o progenitor que resiste sente-se rígido, fora de moda, até culpado.
É aí que surgem erros frequentes. O primeiro: impor uma regra saída do nada, de repente, no modo “é assim e pronto”. A criança sente-se humilhada, incompreendida, e o smartphone torna-se um Graal proibido - logo, ainda mais desejável. O segundo: negociar sem fim, mudar de opinião de três em três dias, ceder numa noite de cansaço. A criança percebe muito depressa onde estão as falhas e carrega sempre nelas.
Sejamos honestos: ninguém consegue fazer isto na perfeição todos os dias. Ninguém cumpre impecavelmente horários de ecrã, sobretudo depois de um dia longo de trabalho, com jantar para fazer e trabalhos de casa para gerir. A ideia não é perseguir a pureza digital, mas uma coerência global. Dizer claramente: “Sim, empresto-te o meu telemóvel às vezes para um jogo. Não, isso não quer dizer que já estás pronto para ter um teu.”
A Emily, depois daquele jantar, acabou por pôr em palavras simples a sua posição. Olhou para a filha e disse-lhe:
“Não estou a tentar castigar-te. Estou a tentar proteger a parte da tua infância que não precisa de Wi‑Fi. Vais ter um telemóvel. Só que ainda não. Quero que o teu cérebro, o teu sono e as tuas amizades sejam suficientemente fortes primeiro.”
A frase não resolveu tudo. Mas definiu um enquadramento emocional claro, menos violento do que “toda a gente tem telemóvel, menos tu”. À sua volta, alguns familiares começaram a ouvi-la de outra forma. Uma prima admitiu que o filho dormia com o smartphone debaixo da almofada e que já não sabia como voltar a ter controlo.
- Clarifica o teu “porquê” antes de definires regras. Um “não” sustentado enraíza-se num sentido, não no medo do julgamento.
- Começa com pequenas experiências: noites sem ecrã, fins-de-semana com o telemóvel arrumado à noite, conversa sobre a primeira rede social em vez de a instalar às escondidas.
- Partilha as dúvidas em voz alta: dizer à criança “estou a tentar perceber, quero fazer o melhor, também estou a aprender” pode, surpreendentemente, reforçar a confiança.
Uma infância entre notificações push e silêncio verdadeiro
O que está em jogo por detrás da disputa do primeiro smartphone vai muito além de uma simples questão de objecto. É uma batalha silenciosa sobre o que deve ser uma infância hoje. Uma infância ligada muito cedo, preparada para o mundo digital, treinada na gestão da imagem online? Ou uma infância em que se guarda, o mais tempo possível, o direito de aborrecer, de andar no parque, de desaparecer algumas horas sem estar contactável?
Os especialistas não estão todos de acordo sobre a idade ideal. Mas convergem num ponto: o acesso ilimitado e não acompanhado aos ecrãs desde a infância tem um custo. Na atenção, no humor, no sono, na relação com o corpo. A ansiedade vem daí: hoje sabemos que “só um telemóvel” não é neutro. Que abre, a um clique, para o melhor e para o pior. Seja por causa do assédio em grupo numa aplicação de mensagens, de conteúdos violentos ou hipersexualizados, ou simplesmente da comparação permanente que corrói a auto-estima.
Nas salas, porém, continua a tratar-se esta decisão como se fosse apenas um capricho de pai/mãe rígido(a) ou uma vaidade de pai/mãe “fixe”. As famílias dividem-se, os julgamentos surgem depressa. No meio, muitos pais avançam como equilibristas: telemóvel numa mão, peluche na outra. Talvez a questão não seja “é preciso proibir?”, mas “como permanecer presente à volta do ecrã?”.
Um dia, a filha da Emily vai ter um smartphone. Vai tirá-lo do bolso, pousá-lo numa mesa de café e usá-lo como toda a gente. A verdadeira diferença poderá estar no que ela viveu antes desse momento: as horas sem ecrã que teve, as conversas honestas sobre riscos, o direito que sentirá de desligar o telemóvel sem entrar em pânico. E isso, nenhum modelo de smartphone consegue vender nas especificações.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| A idade não é o único factor | A maturidade emocional, a dinâmica familiar e os hábitos tecnológicos contam tanto como a data de nascimento no cartão de cidadão. | Ajuda os pais a deixarem de copiar os outros às cegas e a construírem um calendário à medida. |
| “Ainda não” vence “nunca” | Um plano claro e evolutivo (dispositivo partilhado, depois telemóvel limitado, depois acesso total) reduz conflitos e secretismo. | Oferece um caminho prático para quem está dividido entre o medo e a pressão social. |
| Presença acima da perfeição | Ser consistente e acompanhar de perto vale mais do que tentar eliminar por completo os ecrãs. | Diminui a culpa e aumenta a probabilidade de regras sustentáveis no dia-a-dia. |
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