Weekend após fim de semana, repete-se o mesmo ritual nos jardins da frente e nos quintais: sacos de plástico, sopradores a rugir, ombros doridos. Tapetes inteiros de folhas douradas são varridos e raspados até a terra ficar “limpa”. Depois chega o inverno, o chão endurece, os canteiros parecem cansados e as aves parecem desaparecer. Especialistas em jardinagem dizem que aquilo que parece arrumado à superfície pode estar, silenciosamente, a retirar vida do solo. Ano após ano, muitos jardineiros repetem o mesmo erro de outono, sem se aperceberem de quanto estão a esgotar a terra - e de quão simples seria fazer o contrário.
Numa manhã húmida de outubro, numa tranquila rua sem saída, ouvem-se as máquinas de jardim antes mesmo de as vermos. Um vizinho luta contra uma acumulação de folhas de ácer com o soprador no máximo. Outro arrasta um saco do lixo pelo relvado, enchendo-o até o plástico ceder. O ar cheira vagamente a gasolina e terra molhada. Ao meio-dia, os relvados estão nus, os canteiros rastelados na perfeição, e filas de sacos inchados esperam no passeio pela recolha. Parece eficiente. Sabe a produtividade. No entanto, à medida que as últimas folhas desaparecem, outra coisa desaparece com elas.
Porque limpar todas as folhas está, silenciosamente, a arruinar o seu solo
O que os especialistas continuam a repetir é surpreendentemente simples: essas folhas não são lixo - são matéria-prima. Quando as retira do chão e as manda embora, está a exportar nutrientes que o seu solo passou o ano inteiro a acumular. Com o tempo, esse aspeto “limpo” pode significar uma camada superficial mais fina, pior estrutura, e canteiros que precisam de mais fertilizante para fazer o mesmo trabalho. Muitas vezes, os jardineiros culpam o mau tempo ou as plantas “cansadas”, quando o verdadeiro culpado é a fuga constante de matéria orgânica todos os outonos. Um solo saudável gosta de ser alimentado, não polido.
Numa pequena casa geminada em Leeds, a horticultora e cientista do solo Dra. Sarah Connolly fez uma experiência discreta. Um lado do seu jardim estreito era mantido “como casa-modelo” a cada outono: folhas ensacadas, canteiros rastelados, solo nu exposto. O outro lado era tratado com mais delicadeza. As folhas eram trituradas com o corta-relva e deixadas como uma fina camada de cobertura (mulch) à volta de arbustos e plantas perenes. Ao fim de três anos, a diferença era visível mesmo para quem não percebe de jardinagem. O lado com cobertura manteve a humidade durante mais tempo no verão, precisou de menos rega e as plantas cresceram mais altas. A contagem de minhocas era quase o dobro. E o lado “limpo”? Compactado, com crosta à superfície e estranhamente sem vida por baixo.
A ciência por detrás disto não é complicada. As folhas decompõem-se e transformam-se em húmus, o material escuro e esfarelado que dá elasticidade e riqueza ao solo. À medida que se decompõem, alimentam fungos, bactérias e toda uma teia subterrânea de insetos e minhocas. Esses pequenos trabalhadores, por sua vez, abrem poros, reciclam minerais e ajudam as raízes a aprofundar-se. Quando remove as folhas, não está apenas a retirar os nutrientes do próximo ano. Está a retirar abrigo de inverno para carabídeos (besouros do solo), joaninhas, aranhas e todos os aliados discretos que ajudam a controlar pragas. O resultado é um solo que se comporta mais como um substrato cansado do que como um ecossistema vivo.
O que fazer com as folhas em vez de as deitar fora: pequenas mudanças, grande impacto
Os especialistas não dizem que deve deixar montes até ao joelho a sufocar o relvado. O truque é passar da remoção para a redistribuição. Comece por passar o corta-relva sobre folhas secas no relvado, com a lâmina mais alta. Os pedaços triturados cairão entre as folhas de relva e apodrecerão até à primavera, alimentando suavemente o tapete verde. Nos canteiros, rastеле as folhas para longe das plantas mais delicadas e depois espalhe-as numa camada solta à volta de arbustos, árvores e sebes. Pense nisso como um cobertor: não demasiado espesso, não colado ao chão, apenas uma cobertura macia que protege o solo do frio e da chuva intensa.
Em caminhos e pátios, varra as folhas para um canto dedicado ou para uma estrutura simples de rede/arame, em vez de as colocar em sacos do lixo. Ao fim de um ou dois anos, elas colapsam e transformam-se em composto de folhas (leaf mould) - um material escuro e esfarelado, com cheiro a chão de floresta, que faz maravilhas quando misturado em canteiros secos e arenosos. Se tiver um jardim pequeno, até um recipiente com tampa pode tornar-se uma mini “fábrica” de composto de folhas. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas uma tarde no final do outono, mais uma arrumação rápida após tempestades de inverno, é suficiente para mudar a forma como o seu solo se comporta durante anos.
Muitos jardineiros receiam que deixar folhas traga doenças ou sirva de abrigo a lesmas. Há alguma verdade nisso, mas a nuance importa. Evite amontoar folhas visivelmente doentes de roseiras ou árvores de fruto diretamente de volta sob as mesmas plantas. Faça compostagem à parte ou descarte-as. Tenha cuidado para não cobrir bolbos emergentes como açafrões (crocus) ou campainhas-de-inverno (snowdrops) com uma manta pesada. E se vive sob grandes árvores de folha caduca, é perfeitamente aceitável reduzir acumulações muito espessas para que não formem uma camada encharcada e sufocante. Como diz o ecólogo do solo Mark Baker:
“A natureza não rastela a floresta, apenas redistribui. Os jardins prosperam quando copiamos isso, e não quando lutamos contra isso.”
Para manter a mudança simples, muitos especialistas sugerem começar com três hábitos básicos:
- Cubra, não despe: retire as folhas do relvado e dos centros das plantas, e espalhe-as em camada fina nos canteiros.
- Triture, não ensaque: passe o corta-relva ou um triturador nas folhas para acelerar a decomposição.
- Guarde, não desperdice: reserve um canto ou um recipiente para produzir composto de folhas.
Largar o “perfeitamente arrumado” e ouvir o solo
A nível psicológico, as arrumações de outono têm tanto de controlo como de cuidado. Um canteiro nu sinaliza ordem, tarefa concluída. Crescemos com imagens de jardins ideais onde não há uma única folha fora do lugar. Numa rua suburbana, pode ser desconfortável ser a única pessoa cujos canteiros ainda vestem um manto acobreado em novembro. Ainda assim, muitos jardineiros que começam a deixar mais folhas falam de uma sensação diferente alguns meses depois. O solo fica mais macio. As aves remexem a cobertura, à procura de alimento. O crescimento da primavera parece saltar do chão, em vez de se arrastar.
Num dia frio de fevereiro, repara primeiro no som. Em vez de gotas pesadas a baterem no solo exposto, há um tamborilar amortecido sobre a camada de folhas. A terra por baixo mantém-se solta, em vez de se transformar em lama. Quando enfia um garfo de mão nos canteiros, entra com mais facilidade. Fios brancos e finos de fungos entrelaçam-se nas folhas meio apodrecidas. É desarrumado, sim - mas está vivo. Todos já tivemos aquele momento em que percebemos que a “maneira certa” que nos ensinaram não é a que funciona melhor. As folhas de outono são um desses momentos, à espera, silenciosamente, em todos os jardins.
Por isso, a verdadeira pergunta em cada outono já não é “Com que rapidez consigo tirar estas folhas da minha propriedade?”, mas “Onde podem estas folhas fazer mais bem?”. Algumas ainda terão de ser removidas de degraus, ralos ou relva que usa diariamente. Muitas mais podem tornar-se isolamento, alimento e habitat. Essa mudança não exige ferramentas especiais nem um novo orçamento. Pede apenas um olhar um pouco mais suave e a vontade de deixar o jardim parecer ligeiramente mais selvagem na época baixa. A longo prazo, esse pequeno ato de confiança na natureza costuma devolver um solo mais rico, menos gastos com fertilizantes e um jardim que se sente mais como um lugar vivo do que como um cenário polido.
Para alguns, esta mudança começa com um canteiro ou uma árvore. Experimenta. Deixa as folhas debaixo da macieira e vê o que acontece. Nota mais minhocas, menos fendas no verão e menos ervas daninhas a infiltrar-se. Começa a ver as folhas não como uma tarefa semanal, mas como o presente silencioso do outono para o solo. E, depois de ver em ação um solo rico alimentado por folhas, aquelas filas de sacos no passeio começam a parecer estranhamente desperdiçadoras - como alinhar a rua com sacos de composto, energia e vida deitados fora.
| Ponto-chave | Detalhe | Benefício para o leitor |
|---|---|---|
| As folhas alimentam o solo | A decomposição das folhas acrescenta matéria orgânica, melhora a estrutura e estimula a vida do solo | Plantas mais saudáveis com menos fertilizantes e menos rega |
| Cobertura (mulch) em vez de remover | Camadas finas à volta das plantas protegem e enriquecem sem sufocar | Menos erosão, melhor retenção de humidade, raízes mais fortes |
| Pequenos hábitos, grande mudança | Triturar, redistribuir e guardar folhas transforma “resíduos” em recurso | Rotina prática e de baixo esforço que compensa em todas as estações |
FAQ:
- Deixar folhas vai matar o meu relvado? Pilhas espessas e húmidas podem danificar a relva, mas folhas trituradas numa camada leve decompõem-se e, na verdade, alimentam o relvado.
- Todas as folhas de árvores são seguras para usar como cobertura (mulch)? A maioria é, incluindo carvalho e ácer; evite apenas voltar a colocar folhas obviamente doentes sob as mesmas plantas.
- Quanto tempo demora a formar-se o composto de folhas? Conte com 12–24 meses para obter um composto de folhas fino e escuro; mais rápido se triturar as folhas e as mantiver ligeiramente húmidas.
- Vou ter mais lesmas se deixar folhas nos canteiros? Tapetes densos e encharcados podem abrigar lesmas, mas uma cobertura solta e arejada favorece predadores que ajudam a controlá-las.
- Posso misturar folhas diretamente nos canteiros de hortícolas? Folhas frescas são melhores como cobertura à superfície; se as enterrar, faça-o no outono para terem o inverno para começar a decompor-se.
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