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Gordura abdominal após os 60: o exercício mais fácil e eficaz que não está a praticar

Homem de calções a fazer exercício em casa com kettlebell e mala preta.

Ele tem pouco mais de sessenta anos, aquela idade em que os aniversários deixam de ser uma piada e passam a ser um ponto de controlo.

Antes corria. Agora, os joelhos queixam-se depois de um lanço de escadas. O médico já mencionou “gordura visceral” duas vezes na mesma frase, com aquele tom cuidadoso que os profissionais usam quando estão a tentar não nos assustar. À noite, ele faz scroll no telemóvel, bombardeado com treinos milagrosos para abdominais e desafios de “queimar barriga” em 20 minutos, claramente filmados por jovens de 25 anos.

Nessa manhã no parque, uma treinadora de casaco vermelho para ao lado dele e aponta para um banco vazio. “Sente-se”, diz ela, “vamos caminhar, sem nos mexermos.” Ele ri-se, confuso. Cinco minutos depois, está ligeiramente suado, a respirar mais fundo, e os abdominais despertaram de uma forma que ele já não sentia há anos.

O exercício que provocou isso parece quase simples demais.

O problema silencioso escondido debaixo da T-shirt

Na verdade, não se dá por ela a chegar - a gordura abdominal depois dos 60. É sorrateira. Num inverno compra calças com a cintura um pouco mais folgada; um ano depois, a sua camisa preferida puxa de forma desconfortável quando se senta.

Os médicos chamam-lhe obesidade central. Você chama-lhe outra coisa: esta barriga teimosa que não quer obedecer. A balança pode nem mexer assim tanto, mas a forma do corpo muda. A parte mais dura é que a gordura profunda dentro do abdómen, à volta dos órgãos, é a que mais preocupa cardiologistas e especialistas em diabetes.

Ela não fica apenas ali. Age como um órgão por si própria, a sussurrar sinais inflamatórios por todo o sistema. A tensão arterial sobe um pouco. A qualidade do sono desce. Pode até sentir-se “nada mau para a idade”, e ainda assim há danos silenciosos e de longo prazo em curso. O espelho só conta metade da história.

Numa consulta de clínica geral em Londres no ano passado, uma professora reformada de 63 anos chamada Margaret sentou-se em frente ao médico com os resultados das análises. Colesterol um pouco alto. Glicemia em jejum a aproximar-se da zona de perigo. O peso? Só mais quatro quilos em dez anos. O perímetro da cintura? Quase mais dez centímetros.

“Não percebo”, disse ela. “Como o mesmo de antes.” O médico rodou o ecrã para que ela visse um gráfico simples: à medida que o estrogénio diminui e a massa muscular cai com a idade, o corpo tende a armazenar mais gordura - e mais dessa gordura instala-se na zona abdominal. A mesma comida e os mesmos hábitos têm agora um efeito diferente num metabolismo de 63 anos do que num de 43.

Margaret saiu com duas prescrições. Uma no papel, outra verbal. A primeira era uma estatina em baixa dose. A segunda era uma recomendação para começar uma rotina de nome estranho que, para surpresa dela, não incluía abdominais no chão nem inscrições no ginásio.

Se retirarmos o ruído e as modas de fitness do TikTok, a história é direta. Depois dos 60, o corpo muda a sua contabilidade interna. O músculo queima calorias; a idade subtrai músculo discretamente, a menos que lute por ele. As hormonas mudam. O sono fragmenta-se. O stress por vezes aumenta, enquanto cuidar de pais, parceiros ou netos estica os dias.

A gordura visceral adora este ambiente. Longos períodos sentado favorecem-na. Respiração superficial e coluna rígida favorecem-na. Treinos curtos e agressivos para “rebentar os abdominais” que detesta e abandona ao fim de três dias? Pouco ajudam. O que muda a equação é algo muito menos “sexy”, mas muito mais sustentável: movimento diário de baixo impacto, que acorda os músculos profundos do tronco e o mantém ligeiramente ativo por mais tempo do que pensa ser capaz.

O exercício mais fácil e mais eficaz que não está a fazer

O exercício que a treinadora mostrou naquele banco do parque tem um nome aborrecido: loaded carry (transporte com carga). Em português simples, é caminhar enquanto segura algo um pouco pesado e manter o corpo alto e estável. Sem saltos. Sem torções. Apenas caminhar como se tivesse uma missão, com o core a trabalhar em silêncio a dobrar.

Há uma versão que funciona incrivelmente bem depois dos 60 e pode começar hoje: o “suitcase carry” (transporte tipo mala). Segure um objeto moderadamente pesado numa mão - um saco de compras, um haltere de 6–8 kg, um garrafão de água cheio - deixe-o pendurado ao lado do corpo e depois caminhe 20–30 metros mantendo-se direito e sem deixar a cintura inclinar para o lado.

É só isto. Parece quase fácil demais. No entanto, por dentro, os músculos abdominais - sobretudo os oblíquos e os pequenos estabilizadores à volta da coluna - disparam para o manter direito. A preensão, os ombros e as ancas juntam-se à festa. É como uma prancha suave, em pé, que também o faz respirar e mexer-se.

Pense numa ida normal ao supermercado. Na maior parte das vezes, os sacos são carregados de forma desajeitada, ombros encolhidos, barriga relaxada, só a tentar não partir os ovos. Agora imagine um homem de 68 anos chamado Paul, que decidiu transformar cada compra em treino de core.

Vive no terceiro andar sem elevador. Duas vezes por semana, sai do autocarro uma paragem mais cedo, endireita o peito, ativa ligeiramente a parte baixa do abdómen e caminha até casa com um saco de um lado, trocando de mão a meio. Nas escadas, segura o corrimão, abranda e sobe com a mesma intenção: alto, estável, sem “cair” para o lado do saco.

Três meses depois, diz à filha algo estranho. O cinto passou para um furo mais apertado, a zona lombar queixa-se menos quando faz jardinagem e já não precisa de se “puxar” para fora do sofá com os dois braços. Mesmo homem, mesma cidade, mesmas tarefas. Forma diferente de carregar o próprio peso e as compras.

Porque é que um movimento tão simples ajuda com a gordura abdominal depois dos 60? Não “queima barriga” magicamente por si só; nada faz isso. O que faz é reconstruir a base de que o metabolismo precisa para usar gordura de forma mais eficiente: músculo e movimento diário.

Os transportes com carga exigem muito dos músculos profundos do core que ficam preguiçosos na cadeira. Quando esses músculos trabalham com regularidade, a postura melhora, a respiração torna-se mais profunda e o corpo fica menos tentado a estacionar excesso de gordura à volta dos órgãos como uma espécie de “almofadamento” interno. Ao mesmo tempo, caminhar com carga aumenta a frequência cardíaca o suficiente para contar como cardio leve, sem castigar as articulações.

Há também uma componente mental. Exercícios que parecem técnicos ou humilhantes - como lutar com abdominais no chão - são fáceis de abandonar. Caminhar com um saco? Isso encaixa na história do dia. Não se sente “em exposição”. Quanto mais repetir isto, mais minutos o corpo passa fora da cadeira e ligeiramente desafiado. Ao longo de semanas e meses, são esses minutos silenciosos que fazem a gordura abdominal começar a perder terreno.

Como começar os suitcase carries com segurança depois dos 60

Comece onde está, não onde acha que “devia” estar. Fique ao lado de uma bancada da cozinha ou de uma cadeira firme, algo a que se possa agarrar se se sentir instável. Pegue numa carga numa mão que exija esforço mas não o desequilibre - para muitas pessoas isto pode ser 4–6 kg no início, por vezes menos.

Antes de se mover, pense “alto”. Imagine um fio a puxar suavemente o topo da sua cabeça para cima. Contraia ligeiramente a zona média, como se se preparasse para uma pequena brincadeira com um toque no estômago, mas continue a respirar. Depois caminhe 10–20 passos lentos e controlados. Sem pressas, sem inclinar para o peso nem afastar-se dele.

Pouse a carga, descanse e repita com a outra mão. Duas a três voltas por lado é um excelente começo. Se sentir dor (não apenas esforço) nas costas, ancas ou joelhos, pare e reduza o peso ou encurte a distância. Muitas pessoas sentem que duas ou três sessões curtas por semana chegam para notar diferença.

A maioria das pessoas com mais de 60 tem uma história complicada com exercício. Lesões antigas. Uma dúzia de tentativas de “ano novo, vida nova”. Talvez uma memória de um professor de Educação Física ou treinador a gritar sobre abdominais e flexões. Por isso, quando alguém diz “faça isto todos os dias”, o cérebro responde, com toda a razão, “claro… até quinta-feira”.

Sejamos honestos: ninguém faz isto realmente todos os dias. O que funciona melhor é ligar os suitcase carries a hábitos que já existem. Compras. Passear o cão. Subir escadas em casa. Pode até andar para trás e para a frente num corredor, se não se sentir seguro no exterior.

Os maiores erros? Prender a respiração. Deixar o peso puxar o ombro para baixo. Dobrar-se para o lado como uma palmeira ao vento. Faça menor, mais leve e mais lento, em vez de forçar. E se já teve problemas cardíacos, cirurgias ou tensão arterial instável, fale primeiro com o seu médico ou fisioterapeuta e mostre exatamente o que planeia fazer. Essa conversa faz parte do exercício.

“Depois dos 60, o que mantém a barriga sob controlo não é castigo, é persistência”, diz um treinador sénior com quem falei. “Um transporte simples duas vezes por semana durante seis meses vence um treino hardcore que abandona ao fim de dez dias.”

Para manter isto claro na sua cabeça, pense numa pequena lista de verificação sempre que pega num saco ou num peso:

  • O meu peito está ligeiramente levantado, e não descaído?
  • Consigo respirar e falar em frases curtas?
  • Estou a caminhar como se tivesse um destino, e não a arrastar os pés?
  • A minha cintura mantém-se mais ou menos nivelada, sem inclinar para o peso?
  • No fim de 1–3 minutos sinto-me trabalhado, não destruído?

Todos já tivemos aquele momento em que percebemos que a vida diária podia ser treino - pegar em netos, carregar água, usar escadas - mas tratamo-la como um incómodo. O suitcase carry inverte esse guião de forma discreta. Transforma as partes aborrecidas da rotina numa defesa de longo prazo contra a progressão da gordura abdominal e a perda de independência que muitas vezes vem com ela.

Uma forma diferente de pensar sobre a barriga depois dos 60

A gordura abdominal depois dos 60 não é um falhanço moral nem uma questão de vaidade. É um sinal. É o corpo a contar uma história sobre hormonas, sono, stress e anos sentado. Exercícios como os transportes com carga não apagam essa história de um dia para o outro, mas permitem-lhe escrever novos capítulos em que o tronco fica mais forte, em vez de mais mole.

Criar este pequeno ritual - caminhar alto, carregar, respirar - também pode reajustar algo menos visível: a relação com o próprio corpo. Muitas pessoas chegam aos sessenta e sentem que a zona média se tornou um inimigo, algo para esconder ou de que se queixar. Transformar essa mesma área na heroína do seu treino muda o clima emocional dentro da cabeça, não apenas o número na fita métrica.

A parte intrigante é a rapidez com que o corpo responde quando respeita os seus limites mas ainda assim lhe pede trabalho. Três ou quatro semanas de suitcase carries consistentes, misturados com caminhadas regulares e um pouco mais de atenção ao que chega ao prato, costumam trazer mudanças subtis mas reais: as calças apertam menos quando se senta, roda com mais facilidade para olhar para trás ao fazer marcha-atrás, o equilíbrio parece mais fiável no duche.

Não são detalhes pequenos. São os primeiros sinais de que a gordura profunda à volta dos órgãos está, lentamente, a perder o seu lugar privilegiado. Talvez não o veja logo no espelho, mas o seu coração, os vasos sanguíneos e o seu “eu” do futuro vão agradecer, em silêncio, cada caminhada estranhamente intencional com um saco numa mão e a coluna a manter-se firme.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Os suitcase carries trabalham o core profundo Caminhar com peso de um lado obriga os músculos abdominais e da coluna a estabilizar o corpo Ataca os músculos que ajudam a reduzir a obesidade central e a proteger as costas
Baixo impacto, mas metabolicamente ativo Aumenta suavemente a frequência cardíaca enquanto desenvolve força, sem saltos nem movimentos complexos Torna realista fazê-lo com regularidade, mesmo com problemas articulares ou pouca forma física
Fácil de integrar na vida diária Pode ser feito em tarefas do dia a dia, em casa, ou em pequenas voltas num corredor Aumenta a adesão a longo prazo, que importa muito mais do que treinos perfeitos

FAQ:

  • Posso fazer suitcase carries se tiver dor lombar? Muitas vezes sim, mas comece com peso muito leve e distâncias curtas e mantenha o tronco alto; se a dor se intensificar ou se irradiar, pare e fale com um fisioterapeuta ou médico antes de continuar.
  • Quão pesado deve ser o peso para alguém com mais de 60? Escolha uma carga que se sinta como 6 ou 7 em 10 de esforço no fim de 20–30 passos, em que ainda consegue falar, mas se sente claramente desafiado.
  • Isto vai queimar especificamente a gordura da barriga? Nenhum exercício elimina gordura apenas numa zona; ainda assim, os suitcase carries ajudam a desenvolver músculo e a aumentar a atividade diária, o que em conjunto incentiva o corpo a reduzir a gordura visceral ao longo do tempo.
  • Com que frequência devo fazer transportes com carga para ver resultados? Duas a três sessões por semana, com 2–4 caminhadas curtas por lado, chegam para a maioria das pessoas notar mudanças de força e postura dentro de um ou dois meses.
  • Preciso de um ginásio, ou objetos domésticos servem? Objetos de casa como garrafões de água, sacos de compras ou caixas de ferramentas funcionam perfeitamente, desde que os consiga agarrar com segurança e que não balancem demasiado.

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