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Fiquei muito abalado ao ouvir o testemunho de um aluno sobre o impacto da crise de saúde.

Rapaz sentado numa sala de aula, segurando lenço, com máscara e desinfetante na mesa, olhando para alguém fora de cena.

A sala ficou em silêncio quando ela o disse. Um pequeno anfiteatro, fim de tarde, metade dos alunos a deslizar o dedo no telemóvel, a outra metade a fingir que não estava cansada. E então esta frase caiu no ar como um copo a estilhaçar no chão: “Abalou-me mesmo ouvir aquilo.
Ela estava a falar de uma chamada telefónica. Uma frase de um médico. Uma mensagem curta, plana, que mudou a forma como ela via a crise de saúde e, de certa maneira, a si própria.
Ninguém se mexeu. Até as luzes fluorescentes pareciam zumbir mais baixo.
Mais tarde, as pessoas diriam: “Sim, foi duro para toda a gente.” Mas naquele momento, sentia-se algo cru, frágil.
Não estatísticas. Não manchetes.
Apenas uma estudante a tentar pôr em palavras um ano que a tinha rachado por dentro.
E o que veio a seguir surpreendeu toda a gente.

“Abalou-me mesmo ouvir aquilo”: quando uma crise se torna pessoal

Chama-se Anna, tem 20 anos, está no segundo ano, é o tipo de pessoa que normalmente brinca com tudo.
Estava a contar aos colegas o dia em que a enfermeira ligou com os resultados do teste do pai. A crise de saúde estava nas notícias há meses, mas naquele dia, para ela, deixou de ser ruído de fundo.
A chamada durou menos de dois minutos. A enfermeira falou com calma, quase com delicadeza, como quem já tinha feito aquilo uma centena de vezes.
“No início achei que estava bem”, disse a Anna. “Depois desliguei e as minhas mãos não paravam de tremer.”
Ninguém pegou no telemóvel enquanto ela falava.

Já ouvimos tantas histórias que quase se confundem numa só. Ainda assim, os detalhes da dela ficaram.
A mala meio feita para um semestre no estrangeiro que nunca aconteceu.
O grupo de chat que passou de memes para silêncio em quatro dias.
A estação de comboios vazia onde ela acenou à mãe a dois metros de distância, sem se atrever a abraçá-la.
Num inquérito no campus, mais de 60% dos estudantes disseram depois que a crise de saúde teve um “impacto forte ou muito forte” no seu estado mental. Os números soam frios. A história dela não.
É essa a coisa estranha: a crise foi partilhada, mas o choque foi íntimo.

Quando a Anna disse “Abalou-me mesmo ouvir aquilo”, não estava a falar apenas do resultado do pai.
Queria dizer ouvir - ouvir mesmo - que a vida pode mudar de carril sem aviso.
Para os estudantes, esse choque multiplicou-se: estágios perdidos, trabalhos em part-time congelados, aulas reduzidas a quadrados granulados num ecrã de portátil.
As rotinas dissolveram-se de um dia para o outro. Os marcos habituais da vida de um jovem adulto - festas, exames, paixões em bibliotecas cheias - transformaram-se em algo difuso e distante.
Tudo numa idade em que supostamente te sentes invencível.
O impacto da crise de saúde nos estudantes não é apenas um capítulo num relatório público.
É uma linha de fratura que muitos ainda estão a percorrer com a ponta dos dedos.

O que os estudantes realmente fizeram para aguentar

A primeira coisa que a Anna fez depois daquela chamada foi estranhamente simples.
Pegou numa caneta e escreveu uma lista curta num post-it: “Três coisas que consigo controlar hoje.”
Dormir antes da meia-noite. Comer algo quente. Responder a uma mensagem de um amigo.
Colou o post-it por cima da secretária, ao lado de um bilhete antigo de um festival “de antes”.
Todos os dias, mudava as três coisas. Às vezes: “Abrir a janela.” Às vezes: “Chorar no duche e depois escolher uma série.”
Parece quase infantil. E, no entanto, aquele pequeno ritual tornou-se uma corda no escuro.

Outros estudantes inventaram as suas próprias técnicas de sobrevivência.
Um rapaz da turma começou no Instagram um “clube de caminhada de 10 minutos”. Os membros publicavam uma foto de uma coisa que tinham visto lá fora - sem caras, sem filtros.
Outra estudante, sozinha num estúdio, cozinhava o mesmo prato simples todos os domingos ao fim da tarde e enviava uma foto à mãe, só para provar que ainda estava a comer.
Nas redes sociais, as tendências iam e vinham, mas offline apareceu um padrão silencioso: pequenos gestos repetíveis.
Não grandes transformações, não rotinas milagrosas.
Âncoras minúsculas, apenas o suficiente para não derivar por completo.

Claro que havia dias em que nada resultava.
A Anna admitiu que passava tardes inteiras na cama, com o telemóvel debaixo da almofada, a fingir que acompanhava as aulas online.
“Sejamos honestos: ninguém faz isso todos os dias”, riu-se quando uma amiga falou de exercícios de respiração e horários perfeitos.
Essa mistura de culpa e exaustão apareceu em quase todos os testemunhos de estudantes.
Sabiam os conselhos. Mexe o corpo. Liga aos amigos. Limita as notícias.
Mas saber e fazer são dois desportos muito diferentes, especialmente quando o teu cérebro parece debaixo de água.
Por isso é que estratégias honestas e desajeitadas importam mais do que listas impecáveis.

“Percebi que não era fraca”, disse a Anna mais tarde. “Estava apenas a viver algo para o qual ninguém nos tinha ensinado como lidar.”
Essa frase ficou comigo mais do que as estatísticas.
Gostamos de imaginar os estudantes como flexíveis, adaptáveis, “nativos digitais” que aguentam tudo o que lhes atiram.
E, no entanto, naqueles meses, muitos descobriram o primeiro limite real: a sua própria carga mental.

“Eu achava sempre que devia ser mais forte”, confessou a Anna. “Depois um psicólogo disse-me: ‘Não era suposto ficares bem com isto tudo. Simplesmente não era.’ Mudou tudo.”

  • Escreve uma ação pequena e executável para o dia, não uma lista enorme de tarefas.
  • Partilha pelo menos uma mensagem honesta com alguém em quem confies, e não apenas “está tudo bem lol”.
  • Limita o doomscrolling a um período fixo, e depois fecha as apps.
  • Mantém um ritual parvo (troca de memes, noite de filme mau) como compromisso semanal.
  • Pede ajuda profissional mais cedo do que achas que “mereces”.

O que esta crise mudou, em silêncio, numa geração inteira

Ao ouvir estudantes agora, alguns anos depois, percebe-se uma mistura estranha de cansaço e clareza.
Muitos dizem que a crise de saúde quebrou algo na sua fé cega no futuro.
Falam de carreiras com mais hesitação, de dinheiro com mais urgência, de saúde com uma seriedade nova, quase adulta.
Alguns ficaram mais cautelosos. Outros, pelo contrário, recusam adiar a alegria outra vez.
O mesmo acontecimento, duas reações opostas, uma raiz comum: sabem, lá no fundo, quão depressa tudo pode fechar.

A nível psicológico, terapeutas descrevem isto como um trauma coletivo com expressões muito individuais.
Alguns estudantes desenvolveram ansiedade em relação a multidões, outros em relação ao isolamento.
Alguns já não suportam o som de sirenes de ambulância.
Outros sentem uma frustração aguda sempre que reuniões online substituem o contacto humano real.
Todos já tivemos aquele momento em que o silêncio cai num grupo quando alguém diz: “Lembram-se do primeiro confinamento?” e, por um segundo, ninguém sabe se deve rir ou mudar de assunto.
A crise de saúde plantou novos reflexos no nosso corpo tanto quanto nos nossos pensamentos.

O que impressiona, ao ouvir testemunhos como o da Anna, é quantos estudantes se tornaram inesperadamente mais assertivos.
Questionam os serviços de saúde mental do campus.
Criticam empregadores que romantizam a “resiliência” enquanto cortam o apoio.
Falam de burnout aos 21 como as gerações anteriores falavam de ressacas.
Não são ativistas perfeitos, longe disso, mas já viram o que o silêncio faz.
Os seus momentos de “Abalou-me mesmo ouvir aquilo” transformaram alguns em especialistas relutantes em vulnerabilidade.
E essa experiência, por mais pesada que seja, pode muito bem moldar a forma como vão construir locais de trabalho, famílias e amizades amanhã.
Não como uma lição bem embrulhada.
Mais como uma cicatriz que decidiram nomear, em vez de esconder.

Por isso, quando uma estudante se levanta num anfiteatro e partilha aquela frase - a chamada que mudou tudo, a mensagem que a desfez - não está apenas a revisitar uma má memória.
Está a abrir uma porta que muitos outros reconhecem em silêncio.
Alguns vão atravessá-la e começar a falar. Outros vão apenas ouvir e pensar: “OK, então não era só eu.”
O impacto da crise de saúde nos estudantes não cabe numa história arrumada de antes/depois.
Ainda se está a revelar nas escolhas de carreira, nas amizades, na forma como lidam com uma simples tosse ou com um café cheio.
O que fizermos com estas histórias agora dirá muito sobre o tipo de mundo que lhes estamos a entregar a seguir.
E talvez a verdadeira pergunta seja esta: de quem é o “Abalou-me mesmo ouvir aquilo” silencioso que ainda não estamos a escutar?

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
A crise torna-se pessoal Uma chamada, uma frase, e a saúde pública transforma-se num choque íntimo. Permite reconhecer os próprios momentos de viragem e dar-lhes nome.
Os micro-rituais de sobrevivência Listas minimalistas, pequenos gestos, rotinas imperfeitas mas sustentáveis. Oferece ideias concretas e realistas para atravessar períodos de crise.
Uma geração transformada Nova relação com o futuro, com o trabalho, com a saúde mental e com a palavra. Ajuda a compreender o que vivem os estudantes à tua volta - ou em ti.

FAQ:

  • O que querem dizer os estudantes quando dizem que a crise de saúde os “abalou”?
    Muitas vezes estão a descrever um momento específico - um diagnóstico, uma perda, um plano cancelado - em que a crise deixou de ser abstrata e atingiu a vida pessoal com força.
  • É normal ainda sentir os efeitos anos depois?
    Sim. Muitas pessoas, especialmente estudantes que estavam numa fase de transição frágil, continuam a sentir ansiedade, fadiga ou incerteza ligadas a esse período.
  • Como posso apoiar um estudante que passou por isto?
    Ouve sem desvalorizar, evita conselhos rápidos e encaminha com cuidado para ajuda profissional se a pessoa parecer sobrecarregada.
  • Que passos práticos ajudam quando tudo parece fora de controlo?
    Começa por ações muito pequenas: rotinas básicas, exposição limitada às notícias, uma mensagem honesta a alguém em quem confies e, se possível, conversas regulares com um psicólogo.
  • Porquê falar disto agora, se a crise “já acabou”?
    Porque as consequências emocionais e sociais não pararam quando as restrições terminaram; partilhar histórias ajuda as pessoas a perceber que não estão sozinhas e reduz o sofrimento silencioso.

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