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Estudo revela que cesarianas programadas aumentam o risco de leucemia infantil.

Mãe deitada numa cama de hospital, segurando um recém-nascido, com equipamento médico ao fundo.

Um novo estudo sueco levanta agora novas questões.

Os pais ponderam frequentemente o alívio da dor, a conveniência e a segurança ao escolher como dar à luz. Uma vasta investigação realizada na Suécia sugere que o modo de parto pode também deixar uma marca subtil e duradoura no sistema imunitário de uma criança.

O estudo que reacende um debate delicado

Investigadores do Instituto Karolinska analisaram registos de saúde de mais de 2,4 milhões de nascimentos na Suécia, acompanhando as crianças desde o nascimento e relacionando os dados com o registo nacional de cancro. O objetivo era simples, mas ousado: perceber se a forma como um bebé nasce altera o risco de cancros na infância, sobretudo a leucemia linfoblástica aguda (LLA), o cancro mais comum em crianças.

Fizeram uma distinção clara entre dois tipos de cesariana:

  • Cesariana planeada (eletiva): cirurgia marcada antes do início do trabalho de parto.
  • Cesariana de urgência: cirurgia decidida durante o trabalho de parto, geralmente por motivos médicos.

Essa distinção mudou tudo. Apenas as cesarianas planeadas mostraram uma associação clara com maior risco de leucemia linfoblástica aguda na infância, sobretudo do tipo de células B (LLA‑B). As cesarianas de urgência não.

Os nascimentos por cesariana planeada foram associados a um risco cerca de 29% mais elevado de leucemia linfoblástica aguda de células B, em comparação com os nascimentos vaginais.

Em números absolutos, a leucemia infantil continua a ser rara. Na Suécia, surgem apenas cerca de 50 a 70 novos casos de LLA por ano. Os investigadores estimam que o risco adicional associado à cesariana planeada equivale a cerca de mais um caso de LLA‑B por cada 100.000 nascimentos, por ano.

Para qualquer família, o risco absoluto mantém-se muito baixo. Ao nível populacional, porém, este aumento modesto importa porque as taxas de cesariana continuam a subir, e muitos procedimentos são agendados sem uma indicação médica rigorosa.

Como a equipa de investigação tentou excluir fatores de confusão

Para evitar confundir correlação com causalidade, o estudo controlou uma longa lista de fatores de contexto. Crianças com síndromes genéticas conhecidas ou malformações major - que já aumentam o risco de leucemia - foram excluídas. Os investigadores ajustaram também para:

  • Nível de escolaridade dos pais
  • Idade gestacional ao nascimento
  • Peso à nascença
  • Ordem de nascimento (primeiro filho ou seguintes)
  • Tabagismo materno durante a gravidez

Esta “limpeza” estatística procurou isolar o papel do modo de parto em si. A equipa verificou ainda se a cesariana planeada se associava a outros cancros pediátricos, como tumores cerebrais ou linfomas. Não encontrou um aumento consistente, o que aponta para uma ligação mais específica com a LLA, e não para um risco geral de cancro.

O padrão não surgiu em todos os cancros pediátricos, o que reforça a hipótese de que algo nas cesarianas planeadas possa estar a interferir com o desenvolvimento imunitário precoce.

Algumas análises por subgrupos não atingiram o limiar rigoroso de 95% de confiança que as estatísticas costumam exigir. Mas resultados semelhantes em trabalhos anteriores noutros países, combinados com a dimensão do conjunto de dados sueco, dão mais peso a este novo sinal.

Porque é que evitar o trabalho de parto pode moldar o sistema imunitário de uma criança

A questão do microbioma

Uma das principais teorias foca-se no microbioma - a comunidade de microrganismos que coloniza o corpo desde os primeiros minutos de vida. Durante o parto vaginal, os bebés engolem e inalam bactérias da mãe provenientes do canal de parto e do intestino. Mesmo em muitas cesarianas de urgência, o trabalho de parto já começou e o bebé tem frequentemente uma exposição parcial a estes microrganismos.

Numa cesariana planeada realizada antes do início do trabalho de parto, esse contacto muda. Os primeiros microrganismos a colonizar o corpo do bebé têm mais probabilidade de vir do ambiente hospitalar, do bloco operatório, ou da pele de profissionais e familiares, em vez da flora vaginal e intestinal materna.

O contacto microbiano precoce não serve apenas para povoar o intestino; parece também “treinar” o sistema imunitário sobre o que deve atacar e o que deve tolerar.

Interromper esse “programa de treino” inicial pode inclinar a regulação imunitária de forma subtil. Alguns investigadores suspeitam que, numa pequena minoria de crianças com determinados antecedentes genéticos, isto possa facilitar a expansão descontrolada de glóbulos brancos anormais, acabando por formar leucemia.

A ausência do stress do trabalho de parto

Uma segunda linha de explicação centra-se no stress físico do nascimento. O trabalho de parto sujeita o bebé a contrações intensas e à compressão durante a passagem pelo canal de parto. Longe de ser apenas traumático, este processo desencadeia uma subida de hormonas como o cortisol e a adrenalina.

Estas hormonas ajudam a eliminar líquido dos pulmões, a estabilizar o açúcar no sangue e a ativar várias vias imunitárias e metabólicas. Quando o trabalho de parto nunca começa e o bebé é retirado diretamente do útero num bloco operatório calmo, essa cascata hormonal é diferente.

Os cientistas propõem que a ausência - ou atenuação - desses sinais de stress no nascimento pode atrasar ou perturbar etapas-chave da maturação das células imunitárias. Não afirmam que a cesariana planeada cause leucemia por si só; antes, pode alterar ligeiramente as probabilidades em crianças que já tenham suscetibilidades ocultas.

Tipo de parto Exposição a microrganismos maternos Hormonas de stress associadas ao trabalho de parto Risco observado de LLA
Parto vaginal Elevada Elevada Baseline (referência)
Cesariana de urgência Moderada (frequentemente após início do trabalho de parto) Moderada a elevada Sem aumento claro
Cesariana planeada Baixa Baixa Cerca de 29% mais risco de LLA‑B

Porque é que um pequeno aumento de risco continua a ser importante

De um ponto de vista estritamente clínico, o risco adicional é pequeno. Os pais não devem interpretar isto como uma previsão de que uma criança nascida por cesariana planeada desenvolverá cancro. A esmagadora maioria não desenvolverá.

As equipas de saúde pública olham para o tema de forma diferente. Quando dezenas ou centenas de milhares de nascimentos seguem o mesmo padrão, pequenos aumentos de risco acumulam-se. Em países de alto rendimento, onde as taxas de cesariana já se aproximam - ou ultrapassam - um em cada três nascimentos, uma alteração mínima no risco de cancro pode traduzir-se em números reais à escala populacional.

Os dados suecos sugerem que são necessárias muitas centenas de milhares de cesarianas planeadas para que um aumento percetível de casos de LLA apareça nas estatísticas.

Esta perspetiva não demoniza a cirurgia de cesariana. Salienta que um procedimento amplamente considerado “neutro” para além do período pós-natal imediato pode ter efeitos de longo alcance, sobre os quais os pais raramente ouvem falar nas consultas pré-natais.

Equilibrar necessidade médica e conveniência

As cesarianas salvam vidas todos os dias. Quando o bebé dá sinais de sofrimento, quando a placenta bloqueia o canal de parto, ou quando uma cirurgia uterina prévia torna o parto vaginal arriscado, a cirurgia não é opcional; é a via mais segura para mãe e filho.

Os autores suecos sublinham este ponto e concentram as preocupações nas cesarianas planeadas sem indicação médica - ou “a pedido”. Em alguns hospitais, estas representam uma proporção crescente dos procedimentos. As razões vão desde o medo da dor do trabalho de parto, experiências traumáticas anteriores e pressões de agenda, até equívocos sobre a segurança da cirurgia.

Outros estudos já associam as cesarianas planeadas a um risco modestamente superior de asma, alergias e diabetes tipo 1 mais tarde na infância. A nova associação com a LLA acrescenta mais uma peça ao puzzle, sugerindo que contornar o trabalho de parto pode alterar suavemente trajetórias imunitárias de várias formas.

Isto não significa que os pais devam sentir culpa se precisaram de uma cesariana, ou se esta foi recomendada. Mas muda a conversa nos casos limítrofes em que o momento e o modo de parto são apresentados sobretudo como uma questão de preferência.

O que isto significa para pais e clínicos

Perguntas que os pais poderão querer fazer

Para futuros pais que consideram uma cesariana planeada por razões não médicas, um diálogo mais informado com os clínicos pode ajudar. Perguntas razoáveis incluem:

  • Existe uma indicação médica clara para a cirurgia no meu caso?
  • Quais são os riscos e benefícios a curto e a longo prazo para mim e para o meu bebé?
  • Um parto vaginal planeado, com bom controlo da dor, pode ser uma opção segura?
  • Se a cirurgia continuar a parecer a melhor escolha, há formas de apoiar o microbioma e o sistema imunitário do meu bebé após o nascimento?

Algumas maternidades já estão a testar abordagens como contacto pele a pele imediato após a cesariana, apoio à amamentação nas primeiras horas ou, em contextos experimentais, “semeadura vaginal” (passar no bebé uma compressa com fluidos vaginais maternos). Esta última estratégia continua controversa e não é recomendada de forma rotineira, em parte devido a riscos de infeção, mas mostra quão a sério os investigadores levam as exposições microbianas precoces.

Como os sistemas de saúde poderão responder

Para decisores políticos, os resultados suecos incentivam critérios mais rigorosos para agendar cesarianas eletivas e melhor aconselhamento sobre possibilidades de longo prazo, e não apenas sobre conveniência cirúrgica. Também reforçam a importância de colaborações internacionais: repetir análises semelhantes noutros países testaria se o padrão se mantém em diferentes sistemas de saúde e grupos étnicos.

A investigação futura poderá focar-se em quais as crianças mais suscetíveis. Combinar dados de nascimento com perfil genético e análises profundas do microbioma poderá revelar se o risco adicional de LLA se concentra em perfis imunitários ou genéticos específicos. Esse nível de detalhe poderá um dia ajudar a personalizar aconselhamento ao nível individual, em vez de depender apenas de médias populacionais.

Para além da leucemia, o estudo alimenta uma mudança mais ampla de perspetiva: o nascimento não é apenas um evento logístico a gerir, mas uma janela biológica crítica que pode, de forma subtil, orientar trajetórias de saúde durante décadas. À medida que a tecnologia da cesariana se torna cada vez mais segura no bloco operatório, a questão discreta que agora emerge é até que ponto queremos “dobrar” essa janela por razões de conforto apenas.

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