Saltar para o conteúdo

Especialistas em beleza dizem que o bicarbonato de sódio é um remédio inesperado para rugas e olheiras.

Mulher aplica creme com colher em casa de banho, ao lado de pia com produtos de cuidado pessoal.

A mulher no espelho da casa de banho não parece especialmente cansada, mas as meias-luas sob os olhos dizem o contrário.

Ela toca numa ruga ténue perto da boca, daquelas que ficam um segundo a mais depois de sorrir. No lavatório: um creme de olhos que custou quase tanto como um jantar fora, um sérum num frasco de vidro, um rolo de jade que pareceu uma revelação… durante cerca de uma semana.

O olhar desliza para uma humilde caixa de cartão perto das escovas de dentes. Bicarbonato de sódio. Aquela coisa que ela costuma esquecer no fundo do carrinho das compras. Nas redes sociais, juram que este pó está a suavizar rugas e a atenuar sombras azuladas em poucos dias. Ela ri-se e depois hesita. E se o milagre não estiver afinal no frasco sofisticado, mas neste ingrediente de 2 euros que toda a gente tem na cozinha?

Bicarbonato de sódio, o produto “feio” que de repente ficou viral na beleza

Pergunte a qualquer dermatologista o que não falta num armário de primeiros socorros: paracetamol, pensos rápidos… e bicarbonato de sódio. Há décadas que é usado para limpar, desodorizar, acalmar a pele após picadas de insetos. Agora, especialistas em beleza observam-no a saltar do corredor da limpeza diretamente para o nosso rosto, com uma mistura de curiosidade e cautela.

O que mudou não foi o pó branco em si, mas a forma como as pessoas falam dele. No TikTok, no Instagram, mulheres e homens filmam-se nas casas de banho, com os dedos polvilhados de bicarbonato, prometendo “antes/depois” dignos de uma campanha publicitária. Olheiras supostamente mais claras. Linhas finas à volta dos olhos ligeiramente suavizadas. E tudo isso sem embalagem de ficção científica nem preço doloroso.

Num trajeto matinal, dá para ver três vídeos diferentes sobre isto antes de o café arrefecer. A mensagem é sempre a mesma: talvez a solução estivesse mesmo debaixo do nosso nariz. Ou, mais exatamente, na prateleira da cozinha ao lado da farinha.

Veja-se o caso da Mia, 37 anos, gestora de comunicação, que já tinha desistido de comprar cremes de olhos “milagrosos”. Tinha dois filhos, uma hipoteca e uma falta crónica de sono. As olheiras faziam parte da sua identidade. Num domingo, decidiu experimentar o que uma blogger de beleza sugeria: uma pastinha minúscula de bicarbonato e água, deixada três minutos debaixo dos olhos. Sem filtro, sem ring light. Só curiosidade.

Ela não acordou no dia seguinte com um rosto novo. Mas reparou num olhar ligeiramente mais luminoso, menos baço no canto interno dos olhos. Os pés de galinha pareciam mais suaves quando sorriu no espelho do elevador. Nada de espetacular, mas o suficiente para repetir a experiência uma semana depois. A rotina foi-se tornando a sua pequena rebeldia silenciosa contra frascos caros que nunca entregavam totalmente o que prometiam.

Algumas clínicas até referem que os pacientes levam capturas de ecrã destas máscaras caseiras às consultas. Não perguntam se “é permitido”; perguntam como fazer “da forma certa”. Por trás da tendência há algo maior: um cansaço real das promessas industriais e a vontade de recuperar o controlo, ingrediente a ingrediente.

Do ponto de vista científico, o bicarbonato de sódio é bicarbonato de sódio (bicarbonato de sódio/sodium bicarbonate), um pó ligeiramente alcalino. À superfície da pele, pode ajudar a desprender oleosidade, células mortas e resíduos que tornam a zona dos olhos baça e acinzentada. Em quantidades muito pequenas, funciona um pouco como um esfoliante ultraleve e um “iluminador”.

Rugas e olheiras são multifatoriais: genética, sono, hidratação, sol, stress. Nenhum pó branco vai “apagá-las”. O que alguns especialistas observam é que um uso suave e ocasional do bicarbonato pode uniformizar a textura, refletir a luz um pouco melhor e ajudar os ativos dos cremes a penetrar de forma mais homogénea. Isso pode dar a impressão ótica de menos linhas e menos sombra.

A alcalinidade é uma arma de dois gumes. Se for demasiado, demasiadas vezes, perturba-se a barreira cutânea, sobretudo numa zona tão delicada. Por isso, os profissionais repetem o mesmo aviso: o bicarbonato é uma ferramenta, não um feitiço. Usado com inteligência, pode ajudar. Usado de forma obsessiva, volta-se contra si.

Como os especialistas em beleza recomendam realmente usar bicarbonato de sódio no rosto

A rotina que surge repetidamente em entrevistas com facialistas e terapeutas dermoestéticos é surpreendentemente simples. À noite, uma a duas vezes por semana no máximo, sugerem limpar o rosto com suavidade e, depois, misturar uma pitada de bicarbonato com uma colher de chá de água fria. O objetivo é um líquido fluido, sem grânulos, e não uma pasta densa e abrasiva.

Com os dedos limpos ou um cotonete, aplica-se a mistura à volta - não dentro - da zona orbital, mantendo pelo menos a largura de um dedo de distância das pestanas. Deixa-se atuar de um a três minutos, não mais, e enxagua-se bem com água morna. Seca-se a pele a toques e entra o passo de hidratação: um creme de olhos sem fragrância ou uma camada fina de gel de aloé, por vezes seguido de um óleo facial simples para “selar” a hidratação.

Usado assim, o bicarbonato torna-se um “reset” ocasional em vez de um esfoliante diário. O objetivo não é sentir ardor ou repuxamento. O objetivo é não sentir nada.

Para muitos, o primeiro impulso é exagerar. Se uma pitada funciona, por que não uma colher? Se três minutos iluminam, por que não 15? É aqui que começam os problemas: vermelhidão, secura, uma sensação de pele “tipo papel” que demora dias a desaparecer. A zona à volta dos olhos é a mais fina do rosto e não perdoa excessos.

De forma muito concreta, há também a questão do cansaço. Rotinas longas ficam bonitas no Instagram, mas desmoronam perante a agenda da vida real. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Especialistas que trabalham com pessoas reais sabem-no e repetem uma regra simples: é melhor um gesto pequeno e realista que se mantém do que um ritual complicado abandonado ao fim de três dias.

Insistem em espaçar as aplicações e observar atentamente a reação da pele nas 24 horas seguintes. Qualquer ardor, vermelhidão irregular ou comichão é sinal para parar de imediato. Peles sensíveis ou com tendência para rosácea devem ser ainda mais cautelosas - ou simplesmente evitar esta tendência.

Uma esteticista baseada em Londres resumiu com meio sorriso:

“O bicarbonato pode ser um convidado encantador no teu rosto”, disse ela, “mas não o queres a morar aí permanentemente.”

A lista de verificação dela para clientes tentados pela tendência é muito concreta:

  • Usar bicarbonato apenas em pele íntegra, nunca em cortes ou zonas irritadas.
  • Limitar a uma vez por semana à volta dos olhos; duas vezes por mês se a pele for seca.
  • Seguir sempre com um bom hidratante; evitar tónicos à base de álcool.
  • Parar ao primeiro sinal de desconforto; nada de “aguentar”.
  • Pensar nisto como um apoio - não como a estrela de toda a rotina.

É aqui que a conversa fica interessante: não “bicarbonato, sim ou não?”, mas “como integrar ingredientes de baixo custo sem danificar aquilo de que estamos a tentar cuidar?”. A nuance é menos apelativa do que um antes/depois viral, mas é aí que os resultados reais e sustentáveis costumam esconder-se.

Para lá do hype: o que esta febre diz realmente sobre os nossos rostos e as nossas vidas

Por trás da glória repentina do bicarbonato está uma história mais profunda sobre confiança e cansaço. Muitos consumidores sentem que passaram anos a perseguir o creme perfeito, o sérum perfeito, para descobrir que o principal efeito foi na conta bancária. Por isso, um pó barato e familiar que parece “fazer alguma coisa” sabe a uma pequena vingança.

Todos já tivemos aquele momento em que olhamos para o reflexo às 23h e vemos não só olheiras, mas os dias longos por trás delas. Trabalho. Filhos. Pressão social. Sono que não tivemos. Nesse estado de espírito, a ideia de que um ingrediente simples pode suavizar a história gravada sob os olhos é incrivelmente tentadora. Não porque odiamos a nossa cara, mas porque queremos que ela conte uma versão um pouco mais gentil dos nossos dias.

O bicarbonato não vai apagar anos de stress nem uma tendência genética para inchaço. Pode, usado com cuidado, tornar a textura um pouco mais uniforme e a zona abaixo dos olhos menos baça. Pode também lembrar-nos que o cuidado de pele não precisa de vir embrulhado em luxo para ser legítimo. O verdadeiro ponto de viragem acontece quando deixamos de ver rugas e olheiras como “falhas” e passamos a tratá-las como marcas vivas que podemos acompanhar - não combater.

O poder silencioso desta tendência está aí: nessa mistura de pragmatismo e ternura. Olhamos para o que já temos em casa. Ouvimos - mesmo ouvimos - como a pele reage, em vez de a forçar a obedecer a um protocolo. Aceitamos que, em algumas noites, o melhor produto anti-olheiras continua a ser mais uma hora de sono ou um limite difícil, mas necessário, no trabalho.

Da próxima vez que passar por essa caixinha humilde na cozinha, talvez a veja de outra forma. Não como cura milagrosa, nem como vilão, mas como mais uma opção numa conversa maior e mais honesta com o seu rosto. E talvez esse seja o verdadeiro remédio que toda a gente anda a procurar, muito para lá do corredor da beleza.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Bicarbonato como iluminador Esfolia ligeiramente e melhora a reflexão da luz à volta dos olhos quando usado raramente e com suavidade Oferece uma forma de baixo custo de fazer as olheiras parecerem menos baças
O método importa mais do que o ingrediente Quantidades mínimas, pouco tempo de contacto, hidratação generosa logo a seguir Reduz o risco de irritação e ajuda a proteger a zona delicada dos olhos
Parte de uma mudança de mentalidade maior As pessoas estão a passar de “milagres” caros para cuidados caseiros simples e controlados Ajuda o leitor a repensar a rotina e os gastos com mais confiança

FAQ:

  • O bicarbonato de sódio pode mesmo reduzir rugas? Pode suavizar ligeiramente a textura e iluminar a zona, fazendo com que as linhas finas pareçam menos marcadas, mas não substitui retinoides, protetor solar (SPF) ou tratamentos médicos.
  • É seguro aplicar bicarbonato diretamente debaixo dos olhos? Apenas em quantidades muito pequenas, bem diluído em água, por no máximo alguns minutos, e não mais do que uma vez por semana em pele saudável e sem irritação.
  • Vai apagar as olheiras de forma permanente? Não; as olheiras muitas vezes resultam de genética, circulação sanguínea e estilo de vida, pelo que o bicarbonato só pode oferecer um efeito cosmético ligeiro e temporário.
  • Que tipos de pele devem evitar esta tendência? Peles muito sensíveis, reativas, com tendência para rosácea ou extremamente secas devem evitar, sobretudo à volta dos olhos, onde a barreira é frágil.
  • Posso misturar bicarbonato com limão ou vinagre para resultados mais rápidos? Não. Essa mistura é agressiva demais para a pele do rosto e pode causar queimaduras; os profissionais recomendam vivamente ficar apenas pela água.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário