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As pessoas que andam depressa não são mais saudáveis, apenas mais ansiosas e instáveis.

Mulher a caminhar calmamente numa rua movimentada, com edifícios e árvores ao fundo. Pessoas a andar em direções opostas.

They overtake you on the pavement with that clipped, determined stride.

A mala a saltar, a mandíbula tensa, os olhos fixos em frente como se houvesse uma meta que mais ninguém consegue ver. Durante anos, disseram-nos que estes caminhantes rápidos são os “saudáveis”, os disciplinados, os em forma. Os que têm a vida sob controlo. Mas quando começas a reparar a sério - não apenas na velocidade, mas nas caras, nos ombros, na forma como respiram - aparece outra história. Uma história de tensão, pensamentos em corrida e corpos que nunca recebem o recado para abrandar. Talvez os caminhantes rápidos não sejam os campeões calmos do bem‑estar que imaginamos. Talvez sejam apenas muito bons a fugir de algo que carregam cá dentro.

O que a tua velocidade a andar realmente diz sobre ti

Numa rua movimentada da cidade às 8h30, quase consegues ouvir a ansiedade antes de ouvires o trânsito. Saltos a bater, ténis a chapar, pastas a balançar como metrónomos demasiado acelerados. Os mais rápidos serpentearam por entre as pessoas, auscultadores postos, ombros ligeiramente levantados. Parece energia. Sabe a pressão.

Observa com atenção e encontras os sinais. A respiração curta. Os punhos cerrados à volta do telemóvel. Aquele micro‑sobressalto sempre que uma notificação ilumina o ecrã. Ao longe é “estilo de vida activo”. Um passo atrás, parece muito stress crónico com sapatos bonitos.

Os investigadores gostam de dizer que caminhar a passo vivo está ligado a uma vida mais longa. O que essas manchetes raramente referem é que muitas das pessoas que andam naquele ritmo intenso e implacável não são movidas pela alegria ou por metas de forma física. São alimentadas por adrenalina e pânico de baixa intensidade. O sistema nervoso fica preso no “modo avançar”, muito depois de a emergência real ter passado.

Vejamos o caso da Maya, 34 anos, gestora de projectos numa grande empresa de tecnologia. Os colegas brincam que se ouve a Maya a descer o corredor antes de a ver. Ela anda como se estivesse atrasada para um simulacro de incêndio, mesmo quando só vai encher a garrafa de água. Durante anos, orgulhou-se disso. “Eu só sou eficiente”, dizia.

Depois vieram as enxaquecas. Os nós no estômago que transformavam o almoço numa negociação. Os despertares às 3 da manhã com o coração a bater forte sem razão evidente. Quando finalmente se sentou no consultório de uma terapeuta, uma das primeiras coisas que fizeram foi dar uma volta ao quarteirão. “Repara como estás a andar depressa?”, perguntou a terapeuta. A Maya não tinha reparado. Para ela, aquele ritmo tinha-se tornado o padrão.

Caminhantes rápidos como a Maya tendem a pontuar alto em escalas de ansiedade, não porque andar depressa seja mau, mas porque a velocidade se torna um sintoma. O corpo tenta acompanhar a mente. Pensamentos a correr, pés a correr. A rua, o corredor do escritório, o corredor do supermercado transformam-se em pistas de corrida. Não parecem em pânico, mas também nunca estão verdadeiramente à vontade. Não é atletismo, é activação - a biológica, que mantém o sistema de luta‑ou‑fuga a zumbir em segundo plano o dia todo.

Há aqui um ciclo lógico. Dizem-nos que andar mais depressa é saudável, por isso as pessoas que já vivem tensas e motivadas pela exigência sentem-se estranhamente validadas. “Vês? Estou a fazer o certo, ando depressa, sou produtivo.” Essa narrativa esconde o custo. Quando a tua velocidade “normal” se aproxima mais de uma marcha apressada do que de um passeio, o teu sistema nervoso raramente sai do estado de alerta.

O corpo trata o teu ritmo como dados: “Temos de nos despachar, há algo em jogo.” A frequência cardíaca sobe. Os músculos ficam parcialmente contraídos. A digestão abranda porque quem tem tempo para digerir quando o cérebro acha que estamos atrasados para algo crítico? Ao longo de meses e anos, isso torna-se a linha de base. Não um treino curto, mas um estado constante.

Não é que andar depressa seja “mau”. Pequenos períodos de caminhada rápida podem ser um óptimo exercício. O problema começa quando a velocidade não é uma escolha, mas uma compulsão. Quando abrandar na rua é fisicamente desconfortável, até vergonhoso, como se o mundo te fosse julgar por ires com calma. Caminhantes rápidos não são automaticamente mais saudáveis. Muitos são apenas mais treinados a dar corpo ao próprio stress.

Como caminhar sem te ultrapassares a ti próprio

Há um método simples, quase parvo, que desestabiliza muitos caminhantes rápidos: chegar propositadamente a algum sítio… dois minutos “atrasado” no corpo, mesmo que estejas a horas no relógio. Isso significa deixar a passada intensa na esquina e, nos últimos 50 metros, mudar para um andar mais lento e mais solto.

Pensa nisto como uma pista de aterragem. Observas o impulso de te apressares e não o obedeces nesses últimos passos. Baixa os ombros. Deixa os braços balançarem um pouco mais. Relaxa a mandíbula. Este pequeno ritual diz ao teu sistema nervoso: “Estamos seguros, o sprint acabou.” Praticado diariamente, começa a separar “mexer-se” de “fugir”.

Outro truque concreto: sincroniza os passos com a expiração, não com a inspiração. Durante quatro ou cinco passadas, repara apenas no ar a sair, como se a rua à tua volta também estivesse a expirar. Essa pequena mudança de foco arranca o corpo do piloto automático. Não é meditação no topo de uma montanha. São dois passeios, uma escolha.

Se andaste depressa a vida inteira, abrandar pode saber a fracasso. Podes achar que vais parecer preguiçoso. Ou que andar mais devagar é admitir que há qualquer coisa desalinhada por dentro. Num passeio cheio, é fácil entrar em modo comparação: a mãe a empurrar o carrinho, o corredor em leggings, o tipo elegante num trench coat impecável a deslizar por ti.

A questão é esta: o objectivo não é tornares-te um “caminhante lento”. É recuperares a tua velocidade como algo intencional, não reflexo. Em alguns dias, vais continuar a correr para apanhar o autocarro ou a andar a bom passo porque gostas daquela sensação nas gémeas. Tudo bem. Noutros, vais experimentar mexer-te ao ritmo de uma conversa, em vez do ritmo da urgência.

Vendemos a imagem do “caminhante rápido disciplinado” que vence o relógio e acerta em cheio na vida. A realidade é mais confusa. Sejamos honestos: ninguém faz isso todos os dias. As pessoas param para atar os sapatos, perdem-se num podcast, fazem uma pausa para responder a uma mensagem, ou ficam simplesmente a olhar para a montra de uma pastelaria um minuto a mais. Esse ziguezague é humano. Esse ziguezague é saudável.

“A forma como caminhamos é a forma como vivemos”, disse-me uma vez um psicólogo. “Se os teus pés nunca abrandam, é uma pista de que os teus pensamentos também não.”

Essa frase ficou comigo numa terça-feira chuvosa, quando vi um homem a andar de um lado para o outro à porta de um hospital, telemóvel colado ao ouvido. Andava tão depressa num rectângulo tão pequeno de passeio que quase fez um trilho no cimento. O corpo dele gritava aquilo que a voz tentava esconder: medo, impotência, zero controlo.

Num dia mais banal, os sinais são mais suaves. O aperto no saco de pano. A forma como alguém verifica duas vezes o sinal de peões mesmo quando está claramente verde. Numa plataforma de comboio, reconheces os caminhantes rápidos ansiosos pelo número de vezes que mudam o peso de um pé para o outro, a vasculhar a linha como se o movimento, por si só, pudesse fazer o comboio aparecer mais depressa.

  • Repara quando o teu ritmo acelera no instante em que pensas no trabalho.
  • Experimenta uma caminhada intencionalmente lenta por semana, nem que seja só à volta do quarteirão.
  • Usa marcos (“deste café até àquela esquina, vou andar 20% mais devagar”).
  • Presta atenção aos ombros como velocímetro: a subir = rápido demais por dentro.
  • Troca uma sessão de “scroll enquanto andas” por caminhar com o telemóvel no bolso.

Repensar como é que o “saudável” se vê na rua

Todos já tivemos aquele momento em que alguém passa por nós a grande velocidade e, instantaneamente, nos sentimos para trás. Para trás na forma física, para trás na vida, para trás numa corrida invisível a que nunca concordámos em aderir. Nas redes sociais, essa sensação é constante; no passeio, é mais subtil, mas igualmente afiada. Rápido é vencer. Lento é falhar. Esse é o guião que muitos de nós transportam sem o questionar.

Se ampliares a perspectiva, começa a parecer absurdo. Uma sociedade inteira a marchar mais depressa todos os anos, não porque as nossas pernas evoluíram, mas porque os nossos prazos encolheram. E-mails respondidos em minutos, compras entregues em horas, streams carregados em segundos. Claro que a nossa forma de andar foi atrás. O corpo limitou-se a copiar o ritmo do ecrã. O movimento saudável tornou-se prova de fundo de que estamos “em cima do assunto”.

E se invertêssemos a história? Em vez de admirarmos apenas os que andam em passo de potência, reparamos nas pessoas que passeiam sem vergonha. O homem mais velho que pára para dizer olá ao florista. A adolescente que arrasta os pés para casa, auscultadores postos, a inventar uma banda sonora privada. O pai ou a mãe que dá a mão a uma criança e acompanha os seus passos pequenos e caóticos. Estas caminhadas não aparecem em anúncios de pulseiras fitness. E, no entanto, protegem discretamente algo que raramente medimos: estabilidade mental.

Os caminhantes rápidos não são vilões nesta história. Muitas vezes são os que carregam fardos invisíveis: prazos, cuidados a terceiros, dívidas, medo de perder o emprego, um cérebro que não desliga. A velocidade deles não é uma falha moral. É apenas um sinal. Um piscar no painel de instrumentos que diz: “Há mais a acontecer dentro desta pessoa do que a sua contagem de passos.”

Da próxima vez que notares os teus próprios pés a acelerar, talvez te apanhes a meio da passada e faças uma pergunta pequena e radical: “Este ritmo é mesmo meu?” Não do teu chefe. Não da tua app de fitness. Não do teu medo de seres ultrapassado. Teu. Às vezes a resposta continuará a ser sim, e vais seguir em frente, a respiração a cortar o ar. Outras vezes, a resposta honesta vai surpreender-te.

É aí que a mudança começa. Não numa grande decisão de transformar a vida, mas nesses ajustes pequenos, quase invisíveis: um quarteirão mais lento, um ombro mais macio, menos uma olhadela ao relógio. Numa rua cheia, talvez ninguém repare. Dentro do teu sistema nervoso, é a diferença entre viver como uma emergência constante e, finalmente, caminhar pela tua própria vida a um ritmo que consegues realmente habitar.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
A velocidade da marcha não é um simples indicador de saúde Um passo rápido pode reflectir um estado de alerta e ansiedade crónica, em vez de uma forma física óptima Convidar a não idealizar automaticamente os “caminhantes rápidos” e a observar os próprios sinais internos
Abradar é uma ferramenta, não uma fraqueza Mudar voluntariamente o ritmo durante alguns metros ajuda o sistema nervoso a sair do modo urgência Oferecer um método concreto, aplicável no dia a dia, para se sentir mais estável mentalmente
Mudar a narrativa sobre o que é “saudável” Valorizar também as caminhadas lentas, as pausas e os desvios como formas de saúde mental Permitir ao leitor reconciliar-se com o seu próprio ritmo e reduzir a pressão social

FAQ:

  • Os caminhantes rápidos são sempre mais ansiosos? Nem sempre, mas um ritmo consistentemente apressado pode ser uma pista de que a mente e o corpo estão presos ao “modo pressa” mais do que precisam.
  • Caminhar a passo vivo não está provado que faz bem à saúde? Sim, caminhar a bom passo de forma intencional e em períodos curtos é um excelente exercício; o problema é quando a alta velocidade se torna constante e é movida pela tensão em vez de pela escolha.
  • Como posso perceber se o meu andar rápido é guiado pelo stress? Se abrandar te parecer desconfortável, inútil ou até assustador, e o teu corpo se mantiver tenso mesmo fora do horário, é provável que o stress esteja a comandar o ritmo.
  • Andar mais devagar vai deixar-me menos em forma? Podes manter caminhadas rápidas dedicadas ao exercício e, ainda assim, abrandar no dia a dia; alternar ritmos costuma apoiar tanto a saúde física como a mental.
  • Qual é uma pequena mudança que posso experimentar esta semana? Escolhe um percurso habitual e faz o último minuto propositadamente mais devagar, focando-te na expiração e na forma como os ombros se sentem enquanto te moves.

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