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Aprendi isto aos 61: poucos sabem a diferença entre ovos brancos e castanhos.

Pessoa a quebrar ovos em taças de vidro numa cozinha com ovos e uma balança ao fundo.

A mulher à minha frente no supermercado estava a olhar fixamente para as prateleiras dos ovos como se fosse um exame. Na mão esquerda, uma caixa de ovos brancos impecáveis. Na direita, uns castanhos, um pouco mais rústicos. Virou-se para mim, suspirou e sussurrou: “Seja sincero… quais são mais saudáveis?” Devia ter setenta e tal anos. Eu tinha 61.
E foi aí que me caiu a ficha: eu não tinha uma resposta verdadeira.
Já cozinhei milhares de omeletes, fiz bolos para aniversários, até experimentei esses “pequenos-almoços proteicos” da moda. E, no entanto, nunca tinha parado para perguntar o que é que aquelas cores significavam, de facto. Eu achava que sabia. Não sabia.
Nessa noite, de pé na minha cozinha, com duas embalagens diferentes em cima do balcão, fui finalmente à procura da verdade sobre ovos brancos e ovos castanhos.
O que descobri não foi nada do que eu esperava.

Branco vs castanho: o que os olhos veem e o cérebro inventa

A primeira coisa que se nota em qualquer corredor de ovos é a história que o nosso cérebro conta. Ovos brancos parecem limpos, quase industriais. Ovos castanhos parecem mais próximos da quinta, mais “naturais”, mais autênticos.
A maioria das pessoas não compra ovos. Compra uma imagem de si própria. O pai ou a mãe saudável. O guerreiro do orçamento. A pessoa que “agora come melhor”.
Ali, aos 61, percebi que eu fazia exatamente isso. Pegava nos ovos brancos quando queria poupar dinheiro; nos castanhos quando queria sentir que estava a cuidar de mim.
Mesmo frigorífico. Mesmo fogão. Uma história completamente diferente na minha cabeça.

Comecei a perguntar às pessoas à minha volta. A minha vizinha jurava que os castanhos eram mais ricos e “cheios de coisas boas”. O meu primo na cidade estava convencido de que os brancos eram mais “controlados” e mais seguros.
Num brunch de domingo, transformei isto num jogo: “Rápido, quais são mais saudáveis?” As mãos levantaram-se a favor dos castanhos como se fosse um voto a favor do ambiente. Alguém até disse, meio a brincar: “Ovos brancos são tipo fast fashion, castanhos são tipo algodão orgânico.”
Depois tropecei num inquérito de uma cadeia de supermercados dos EUA: a maioria dos clientes acreditava que ovos castanhos eram mais nutritivos e mais “naturais” do que os brancos. Sem provas sérias. Só perceção, repetida tantas vezes que parecia verdade.
Numa prateleira que parece simples, há uma guerra silenciosa de mitos.

A verdadeira diferença, aprendi eu, está na galinha - não dentro do ovo. Galinhas de penas brancas com lóbulos das orelhas claros costumam pôr ovos brancos. Galinhas de penas ruivas ou castanhas com lóbulos mais escuros costumam pôr ovos castanhos.
É só isso. A cor da casca é uma questão de genética, como a cor dos olhos. Por dentro, o perfil nutricional é praticamente o mesmo: proteína semelhante, gordura semelhante, vitaminas semelhantes.
Porque é que os ovos castanhos muitas vezes são mais caros? As galinhas que põem ovos castanhos tendem a ser maiores e a comer mais ração. Os produtores pagam mais para as criar, por isso a embalagem custa mais.
A cor da casca não torna o seu pequeno-almoço mais saudável. Só muda a forma como se sente em relação a esse pequeno-almoço.

Como escolher o “melhor” ovo (dica: não é pela cor)

Depois de engolir o orgulho e aceitar que branco vs castanho era, em grande parte, um truque visual, mudei a forma como faço compras.
Agora, ignoro primeiro a cor. Vou diretamente a três coisas: a data, o método de criação e o estado dos ovos. Simples, quase aborrecido - mas transformador.
Olho para a data de validade e escolho a embalagem com a data mais distante, escondida lá atrás onde os compradores apressados raramente vão. Abro rapidamente a caixa e verifico se há rachaduras ou restos de ovo seco na casca. Se algum estiver partido, ponho de volta na prateleira, sem culpa.
Só depois é que me deixo pensar no preço ou no hábito. A cor vem por último, não primeiro.

As pessoas dizem-me muitas vezes: “Eu compro castanhos porque são biológicos.” É aí que entra a confusão. Biológico, ao ar livre, sem gaiola, em aviário… estes rótulos falam sobre como a galinha viveu, não sobre o tom da casca.
Pode haver ovos brancos biológicos e ovos castanhos não biológicos. Pode haver um ovo castanho brilhante, com aspeto rústico, que vem de uma galinha que nunca viu a luz do dia.
Num dia de semana caótico, com as crianças a gritar e o telemóvel sempre a vibrar, essas subtilezas desaparecem. Agarramos no que parece “bom o suficiente” e seguimos. Sejamos honestos: ninguém lê mesmo todas as linhas do rótulo todos os dias.
Ainda assim, a qualidade de vida por trás do ovo afeta o sabor, a textura e, às vezes, a cor da gema. É aí que a sua escolha importa - discretamente.

Uma nutricionista com quem falei disse-me algo que ficou comigo:

“As pessoas ficam obcecadas com a cor da casca porque é a única coisa que conseguem ver. As verdadeiras diferenças são invisíveis, por isso são ignoradas.”

Comecei a usar uma checklist pequenina na minha cabeça sempre que estou em frente à prateleira dos ovos. É quase como um sussurro interior: Como foi tratada a galinha? Quão fresco é isto? O que é que vou cozinhar com estes ovos?
Parece exagero quando escrito, mas na vida real demora cinco segundos. Não precisa de se tornar inspetor alimentar. Basta mudar o foco de “castanho vs branco” para o que realmente muda o que vai para o prato.
Aqui vai o atalho mental que me ajuda agora:

  • Procure primeiro o método de criação (ao ar livre, biológico se possível)
  • Verifique a data e o estado das cascas
  • Pense em como os vai usar (cozer, bolos, fritar)
  • Escolha o preço que cabe no seu orçamento, sem culpa
  • Esqueça a cor como medida de “qualidade”

O que realmente muda dentro do ovo (e dentro da sua cabeça)

Quando largamos a obsessão pela cor, começamos a notar coisas mais subtis. Um ovo fresco, seja branco ou castanho, tem uma gema alta e uma clara espessa que a envolve. Um ovo mais antigo espalha-se mais na frigideira.
A alimentação da galinha pode tornar a gema mais alaranjada ou mais pálida. Ração rica em milho, por exemplo, pode dar aquela gema dourada intensa que as pessoas gostam de mostrar nas redes sociais. Sem magia, sem quinta secreta nas montanhas. Só alimentação.
Num domingo de manhã, ao partir um ovo branco muito fresco ao lado de um castanho ligeiramente mais antigo, vi isso com os meus próprios olhos. A cor da casca não me disse nada sobre o quão “vivo” aquele ovo ainda se sentia na frigideira.

Isto muda a forma como falamos sobre comida com os outros. Quando alguém diz: “Eu só compro castanhos, são mais saudáveis”, não precisa de corrigir como se fosse um professor. Pode apenas dizer: “Na verdade, a galinha importa mais do que a cor.”
Todos nós já vivemos aquele momento em que um pequeno conhecimento torna o quotidiano diferente. Foi isso que me aconteceu aos 61, em frente a uma prateleira perfeitamente banal.
Fez-me pensar em quantas outras escolhas faço assim. Escolher pela cor, pelo logótipo, pela sensação. Esquecer-me de perguntar o que está realmente por trás da imagem.
Os ovos são um exemplo pequeno. Mas estão em milhões de frigoríficos, a transportar silenciosamente as nossas crenças sobre saúde, dinheiro e cuidado.

Da próxima vez que partir um ovo para a frigideira, talvez repare em mais pormenores. O som da casca a quebrar. A forma como a clara se espalha. O tom da gema à luz da manhã.
Talvez se lembre de que a genética da galinha escolheu a cor da casca muito antes de você o fazer. Que o preço reflete os custos da exploração - não um bónus secreto de vitaminas.
E talvez até se apanhe a dizer a um amigo: “Aprendi isto aos 61 e meio que mudou a forma como olho para a comida.”
Não como uma lição. Apenas como uma pequena verdade, passada de uma cozinha para outra, enquanto o café se faz e a torrada salta.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Cor da casca Ligada à raça da galinha, não ao valor nutricional Evita pagar mais apenas pela aparência
Método de criação Rótulos (ao ar livre, biológico, em gaiola/aviário) influenciam o bem-estar animal e, por vezes, o sabor Ajuda a escolher ovos de acordo com os seus valores
Frescura e utilização Data, aspeto da clara e da gema influenciam confeção e textura Permite ter melhores resultados em omeletes, ovos no forno e pastelaria

FAQ

  • Os ovos castanhos são mais saudáveis do que os ovos brancos? Do ponto de vista nutricional, são praticamente iguais. A alimentação e as condições de vida da galinha importam mais do que a cor da casca.
  • Porque é que os ovos castanhos costumam ser mais caros? As galinhas que põem ovos castanhos são frequentemente maiores e precisam de mais ração, o que aumenta os custos de produção e se reflete no preço.
  • Os ovos biológicos têm de ser castanhos? Não. “Biológico” refere-se à forma como a galinha é criada e ao que come, não à cor da casca. Pode encontrar ovos brancos biológicos e ovos castanhos biológicos.
  • Que ovos são melhores para bolos e pastelaria? Na maioria das receitas, qualquer ovo fresco de tamanho standard funciona bem. Profissionais tendem a preocupar-se mais com consistência de tamanho e frescura do que com a cor da casca.
  • Como posso saber se um ovo está fresco em casa? Pode usar o teste da água: coloque o ovo cuidadosamente numa taça com água. Um ovo muito fresco afunda e fica deitado; um ovo mais antigo fica em pé ou flutua.

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