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Aprendi a afiar facas como na Índia e agora faço em casa; até facas antigas ficam super afiadas em apenas um minuto.

Pessoa afia faca em pedra de afiar sobre tábua de madeira, com tomate cortado ao lado.

O dia em que percebi que as minhas facas “cegas” não eram o problema

Eu tinha facas “boas” na gaveta e, mesmo assim, esmagavam tomates. Culpei o aço, a marca, o preço. Até me lembrar de Jaipur: um afiador de rua, uma roda a girar, e uma faca cansada a voltar ao serviço em menos de um minuto.

A conclusão foi desconfortável, mas útil: na maioria das cozinhas, o problema não é a faca - é a manutenção.

O que me impressionou não foram as faíscas; foi o método:

  • Ângulo estável
  • Poucas passagens
  • Pressão leve e consistente
  • Teste rápido (papel, unha, ou um tomate)

Isto funciona porque uma faca raramente “morre” de vez. O fio vai dobrando e arredondando com o uso. Afiar é devolver-lhe a geometria - e, muitas vezes, isso pede mais consistência do que força.

Uma nota que quase ninguém diz de forma clara: a afiação cria uma “rebarba” (burr), uma pequena dobrinha de metal no lado oposto ao que estás a afiar. Quando a sentes (com cuidado, passando o dedo de lado, nunca ao longo do fio), é sinal de que já chegaste ao fio e podes mudar de lado. Sem rebarba, estás muitas vezes só a “polir” sem afiar.

Na Índia, o segredo é a frequência: retoques rápidos antes de ficar “morta”. Quando comecei a tratar a afiação como manutenção curta - e não como um projeto de fim de semana - tudo ficou mais simples.

O método de um minuto que roubei para a minha cozinha

O equivalente caseiro mais próximo daquela roda é uma pedra de água de dois lados: algo como grão 1000 (afiar) e 3000–6000 (refinar). Em Portugal, é um kit comum e costuma ser mais barato do que “gadgets” que gastam lâmina.

O que faço, na prática:

  1. Preparar a pedra: muitas pedras de água pedem 5–10 minutos de molho; outras são “splash-and-go” (basta molhar). Se não tiveres a certeza, começa com pouco tempo e observa se a pedra “bebe” água rapidamente.
  2. Estabilidade: pedra em cima de um pano húmido (ou base antiderrapante). Se a pedra escorrega, estás a pedir um corte.
  3. Ângulo: 15–20° (baixo e estável). Sem instrumentos: procura um ângulo que consigas repetir.
  4. Movimento: como se estivesses a cortar uma camada finíssima da pedra, do calcanhar à ponta, usando o comprimento todo.
  5. Ritmo curto: cerca de 10 passagens por lado no grão 1000, depois o mesmo no lado fino.
  6. Pressão: moderada no início e mais leve no fim (as últimas passagens quase sem peso). Pressão a mais só come metal e piora o controlo.
  7. Limpar e secar: enxagua, seca bem a faca (e a pedra). Facas em inox também mancham se ficam húmidas.

Dois detalhes que poupam tempo e lâmina:

  • Não “pisques” o ângulo. Se o ângulo muda a cada passagem, o fio fica irregular. O objetivo é aborrecido: igual, igual, igual.
  • Mantém a pedra plana. Com o uso, a pedra ganha uma “barriga” e deixa de afiar bem. De vez em quando, nivela (com uma pedra de aplanar ou lixa grossa numa superfície plana).

E sim: “mais” raramente é melhor. Centenas de passagens e força excessiva só aceleram o desgaste.

Frequência realista: para a tua faca principal, a cada 3–6 semanas costuma chegar, se não a maltratares em vidro/mármore ou a raspares contra tachos e tabuleiros. Entre afiações, uma chaira pode ajudar a alinhar o fio (não substitui a pedra, mas adia a sessão).

O erro clássico é achar que “a faca é perigosa por estar afiada”. A frase que ouvi em Deli ficou:

“Uma faca cega assusta-me mais do que uma afiada. A cega obriga-te a lutar com ela, e é aí que escorregas.”

Desde que afio com regularidade, corto com menos força - e isso, na prática, é mais seguro.

Checklist simples (e realista) para não desfazer o trabalho:

  • Usa tábua de madeira ou plástico, não vidro/mármore.
  • Evita máquina de lavar loiça para facas; lava e seca logo.
  • Depois de alimentos ácidos (limão, tomate), passa por água e seca.
  • Não atires facas soltas para a gaveta: barra magnética, bloco ou proteções.
  • Faz retoques leves antes de ficar completamente cega.

O que muda quando as tuas facas realmente cortam

Quando a faca corta bem, a cozinha fica mais simples: menos força, menos escorregadelas, cortes mais direitos e menos desperdício (especialmente em tomate, cebola, ervas e carne).

Também muda a tua relação com as ferramentas: em vez de “comprar outra”, começas a pensar “o que é que isto precisa - manutenção, alinhamento, limpeza, um ajuste?”. É uma competência pequena, mas dá autonomia.

E há um bónus prático: uma faca antiga que parecia “perdida” muitas vezes só precisava de um fio refeito - não de reforma.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Observar os profissionais Gestos simples, repetíveis, pouca força, rotina curta. Mostra que técnica e consistência valem mais do que gadgets caros.
Rotina de 1 minuto Pedra 1000 + 3000–6000, ~10 passagens por lado, ângulo estável, terminar leve. Método rápido que melhora logo o corte e reduz frustração.
Manutenção diária realista Boa tábua, arrumação certa, lavar/secar, retoques antes de “morrer”. Mais segurança, menos desgaste da lâmina e melhor experiência a cozinhar.

FAQ

  • Com que frequência devo afiar as facas de cozinha em casa? Em muitas casas, a cada 3–6 semanas para a faca principal chega. Se usas muito, encurta; se usas pouco, alonga. Entre afiações, uma chaira pode ajudar a manter o fio alinhado.
  • Uma faca velha e barata pode mesmo ficar afiada como uma lâmina? Muitas facas de inox, mesmo económicas, ficam bem afiadas com ângulo consistente e tempo suficiente para formar rebarba. Exceções: lâminas muito moles, muito danificadas (lascas) ou “souvenir”.
  • Uma pedra de afiar é melhor do que aqueles afiadores de passar (pull-through)? Muitas vezes sim: a pedra é mais controlada e tende a preservar melhor a lâmina. Os pull-through são rápidos, mas costumam ser mais agressivos e deixam o fio menos refinado.
  • Que ângulo devo usar se não tiver guia? Regra prática: mantém o dorso baixo e repetível (cerca de 15–20°). Se o teu maior problema é consistência, escolhe um ângulo e repete-o sempre, mesmo que não seja “perfeito”.
  • Como sei se a minha faca está afiada o suficiente? Se corta papel sem rasgar, se entra na pele do tomate com pouca força e se sentes uma leve “mordida” na unha (com cuidado), está pronta para o dia a dia.

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