E, no entanto, uma mulher de sapatilhas corta a multidão como se estivesse atrasada para o resto da vida. A mochila a bater nas costas, os olhos fixos em frente, as pernas a moverem-se quase depressa demais para ser apenas andar. Um homem olha para ela e depois acelera também, como se tivesse sido apanhado numa competição silenciosa. Ninguém está a correr. Mas também ninguém está realmente a passear.
Observe uma rua movimentada às 8:30 da manhã e vai reparar: pessoas a andar como se fossem perseguidas por algo invisível. Não pelo tempo - a agenda delas não está assim tão cheia - mas por uma pressão no peito que nunca as deixa abrandar de verdade. Chamam-lhe “ser eficiente”, “manter a forma”, “é só o meu ritmo natural”.
E se isso não fosse a história toda?
Caminhar depressa: medalha de boa forma ou campainha de alarme silenciosa?
Quem anda depressa gosta de brincar com o assunto. “Eu só tenho duas velocidades: rápido e mais rápido.” Dizem-no com meio sorriso, meio orgulho, como se o ritmo provasse que são produtivos, em forma, imparáveis. Nos passeios da cidade, são os que se vão a desviar entre turistas e carrinhos de bebé, irritados quando alguém se atreve a andar devagar.
O Apple Watch regista mais passos, os colegas invejam o quão “ativos” parecem, e todos os artigos de saúde repetem que caminhar a passo acelerado faz bem ao coração. Por isso, caminham mais depressa. Mais tempo. Com mais força. Por fora, parece saudável.
Por dentro, pode estar a acontecer outra coisa.
Imagine a Emma, 34 anos, gestora de projetos numa grande empresa tecnológica. Ela acompanha as caminhadas como acompanha os prazos. Velocidade média: 6,5 km/h. Abaixo disso, sente uma culpa estranha, como se estivesse a desperdiçar tempo. Ela não caminha para respirar; caminha para bater uma pontuação invisível.
No trabalho, ela também é “a rápida”. E-mails rápidos, decisões rápidas, almoços rápidos em pé na secretária. Mais tarde, a terapeuta chamará a isto “ansiedade agitada”: um tipo de inquietação interior que precisa de movimento constante para se manter calada. Caminhar depressa não era sobre cardio. Era sobre não ficar sozinha com os próprios pensamentos.
A investigação sobre ritmo e saúde mental ainda é recente, mas surgem padrões interessantes. Alguns estudos associam uma marcha invulgarmente rápida e tensa a níveis mais elevados de hormonas do stress e preocupação crónica. Na prática clínica, os psiquiatras veem-no repetidamente: pessoas que não conseguem simplesmente andar - têm de se apressar.
Por trás do “eu só ando depressa” pode esconder-se algo mais parecido com um motor mental que nunca desliga.
Os seres humanos sempre andaram depressa quando havia razão para isso. Perigo, frio, fome. O problema começa quando o corpo mantém o ritmo de emergência muito depois de a ameaça desaparecer. O seu chefe não é um tigre. A sua caixa de entrada não é um campo de batalha. E, ainda assim, as suas pernas mexem-se como se estivesse a fugir.
É aí que andar depressa deixa de ser uma escolha de estilo de vida e começa a parecer um sintoma.
Como saber se o seu passo acelerado é stress disfarçado
Há uma experiência simples que pode fazer esta semana. Sem aplicações. Sem relógio inteligente. Só você e um passeio. Escolha um percurso curto que faz frequentemente: da estação para o trabalho, de casa para a padaria. Faça-o ao seu ritmo normal. Depois, no regresso, abrande deliberadamente talvez 20–30%.
Repare no que acontece no seu corpo. Os ombros sobem? A mandíbula fecha? Sente um impulso para acelerar “sem razão”? Se abrandar o deixa estranhamente irritado, quase ameaçado, isso não é apenas hábito. Tem a ver com controlo, segurança e uma mente habituada a viver em avanço rápido.
Isto não é um diagnóstico clínico, claro. É um espelho.
De forma mais prática, também pode “fazer uma varredura” à sua caminhada. Uma vez por dia, preste atenção a três pontos: as mãos, o olhar, a respiração. Anda com os punhos ligeiramente fechados? O seu olhar é estreito, preso lá ao fundo, como num túnel? A respiração é superficial, alta no peito em vez de baixa na barriga?
Caminhar depressa por boa forma ainda pode sentir-se enraizado. Os braços balançam soltos, os olhos reparam em árvores, janelas, pessoas. Caminhar depressa por aflição escondida sente-se diferente: braços rígidos, músculos contraídos, um ar que não encontra espaço. Muitos doentes ansiosos descrevem-no da mesma forma: “Se eu andar mais devagar, sinto que vou explodir.”
Sejamos honestos: ninguém faz realmente isto todos os dias, esta auto-observação suave, sem julgamento.
Falemos do que muitas vezes acontece quando as pessoas percebem que o seu ritmo acelerado está ligado à mente, não apenas às pernas. A primeira reação: negação. “Eu sou só uma pessoa com muita energia.” Depois vem a vergonha. “Então agora até a forma como eu ando está errada?” Não é nada disso.
O ponto é a curiosidade. Em vez de se forçar a passear como um influenciador em férias, pode começar a fazer perguntas mais gentis. O que é que estou a tentar não sentir quando acelero? Que emoção me apanharia se eu andasse, de facto, a um ritmo humano?
Os terapeutas às vezes usam uma frase minúscula e simples com os pacientes: “Deixe o corpo chegar onde os pés já estão.” Parece poético. Na realidade, dá trabalho.
“Quando alguém me diz que ‘sempre andou depressa’, não tento abrandá-la primeiro”, explica um psiquiatra de Londres com quem falei. “Tento perceber o que vai acontecer na cabeça dessa pessoa se o corpo finalmente deixar de se apressar. É aí que está a história verdadeira.”
A partir daí, alguns pontos de ancoragem práticos ajudam muitas pessoas a reconectar-se com a própria caminhada:
- Escolha um percurso diário em que se compromete com um ritmo “sem performance”.
- Caminhe 5–10 minutos sem olhar para o telemóvel nem uma vez.
- Repare numa cor, num som, num cheiro. Nem mais, nem menos.
Isto não são truques de desafio de bem-estar para postar no Instagram. São formas pequenas e concretas de testar até que ponto a velocidade se tornou a sua armadura emocional. Num dia mau, pode falhar e voltar a marchar como um soldado. Tudo bem. A consciência não precisa de perfeição para começar a funcionar.
Viver com uma mente ocupada num mundo que aplaude a velocidade
Vivemos numa economia que adora velocidade. Ideias rápidas, resultados rápidos, entregas rápidas. Caminhar depressa encaixa perfeitamente nesta narrativa. Os colegas admiram a pessoa que parece sempre com pressa; raramente admiram a que chega devagar, a respirar. Mas o sistema nervoso tem a sua própria verdade, muito para lá do que a cultura recompensa.
Num passeio cheio, a pessoa mais lenta muitas vezes parece “preguiçosa”. A mais rápida parece “motivada”. Raramente vemos a terceira opção: a pessoa cuja velocidade é, na verdade, um sinal silencioso de que algo por dentro está sobrecarregado. Numa semana má, essa mesma pessoa não anda apenas depressa. Também come depressa, fala depressa, até descansa depressa.
Todos já tivemos aquele momento em que o corpo se move mais depressa do que a vida exige.
Algumas pessoas vão ler isto e reconhecer-se de repente. Outras vão reconhecer um parceiro, um pai, uma mãe, um colega que “não consegue estar quieto” e faz marcha acelerada para todo o lado. O objetivo não é colar o rótulo de “perturbação” a toda a gente que gosta de um passo vivo. O objetivo é perguntar: quem é que está mesmo com o comando na mão - você, ou a sua ansiedade?
Quando esta pergunta aparece, as conversas mudam. Em vez de glorificar a correria, começamos a falar de sistemas nervosos, de padrões herdados, daquele pai ou daquela mãe que se apressava sem motivo. Histórias de família escondem-se muitas vezes nos estilos de caminhar.
Há também um ângulo social: em muitas cidades, se não se mexer depressa, sente que está a estorvar. Os turistas aprendem rapidamente a “caminhada da cidade”, uma mistura de armadura e velocidade. Abrandar pode parecer quase político. Ou simplesmente vulnerável. Caminhar a um ritmo natural é uma forma de dizer: o meu valor não está ligado à rapidez com que vou.
Isto não é fácil de sustentar quando o mundo à sua volta está em avanço rápido, quando o seu chefe mede a sua rapidez de resposta como se fosse um desporto. Ainda assim, cada vez que alguém escolhe um ritmo mais calmo - mesmo num único trajeto diário - abre uma fissura nessa história. Prova que outro ritmo é possível.
Da próxima vez que reparar nos seus pés a voarem pela rua, talvez não pergunte primeiro “Estou em forma?”. Pergunte “De que é que estou a fugir, enquanto finjo que só estou a andar?”. E depois veja o que o seu corpo responde antes de a sua mente voltar a apressar-se.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Caminhar depressa pode mascarar ansiedade | Algumas pessoas usam a velocidade para evitar pensamentos ou emoções desconfortáveis | Ajuda a questionar se o seu ritmo é movido pela saúde ou por stress escondido |
| Os sinais do corpo contam outra história | Punhos cerrados, respiração superficial e visão em túnel aparecem muitas vezes numa caminhada “apressada” | Dá pistas simples para perceber quando a caminhada se torna um sintoma, não uma escolha |
| Pequenas experiências podem mudar hábitos | Caminhadas curtas e mais lentas, sem objetivos de performance, podem revelar a sua relação real com a velocidade | Oferece ferramentas práticas para testar e aliviar a carga mental no dia a dia |
FAQ:
- Caminhar depressa é sempre sinal de uma perturbação mental? De forma nenhuma. Muitas pessoas caminham a bom ritmo simplesmente porque gostam ou querem os benefícios para a saúde. Torna-se uma preocupação quando sente que não consegue abrandar sem mal-estar.
- Como posso perceber se o meu ritmo está ligado à ansiedade? Tente abrandar de propósito num percurso familiar. Se se sentir invulgarmente tenso, irritado ou inseguro sem qualquer razão real, a sua velocidade pode estar ligada a inquietação interior.
- Devo deixar de caminhar depressa se adoro? Não. Se lhe sabe bem, se se sente enraizado e livre, mantenha. Apenas acrescente momentos a um ritmo mais suave para testar se consegue escolher o seu ritmo, em vez de ser empurrado por ele.
- Um terapeuta pode mesmo ajudar com algo tão simples como andar depressa? Sim, porque a caminhada é apenas a parte visível. A terapia explora o que está por baixo: stress crónico, perfeccionismo, medo de abrandar na vida de forma mais geral.
- Qual é uma pequena mudança que posso experimentar esta semana? Escolha um trajeto diário em que caminha sem se cronometrar nem verificar o telemóvel, reparando na respiração e no que o rodeia. Trate isso como uma experiência silenciosa, não como uma performance.
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