Sabes aquela pequena pausa antes de falares numa reunião, quando o coração de repente dispara e o cérebro sussurra: “Não digas isso, vais parecer estúpido”?
Engoles a ideia, acenas à intervenção de outra pessoa e sentes aquela mistura familiar de alívio e vergonha silenciosa.
Mais tarde, rebobinas a cena inteira na tua cabeça como imagens de CCTV mal gravadas.
Dizes a ti próprio que estás a exagerar. Tens uma vida decente, as pessoas gostam de ti, não há nada de “grande” errado.
E, no entanto, esse ruído de fundo do “não sou suficiente” nunca parece calar-se.
Duvidas das tuas mensagens, do teu tom de voz, das tuas decisões, até dos teus planos inofensivos para o fim de semana.
E se essa segunda-guess constante nem sequer tivesse começado na vida adulta?
E se tivesse começado anos antes, numa sala de estar ou numa cozinha, com alguém cujos humores mandavam em tudo?
Quando o amor parece caminhar sobre cascas de ovos
Os psicólogos têm observado o mesmo padrão vezes sem conta: a auto-dúvida crónica muitas vezes cresce em casas onde o afeto, a atenção ou a segurança parecem imprevisíveis.
Num dia, um dos pais está caloroso e a rir contigo. No dia seguinte, está frio, irritado, distante ou explosivamente zangado.
Em criança, não pensas: “Ah, hoje o meu cuidador está emocionalmente instável.”
Pensas: “Deve haver alguma coisa de errada comigo.”
O teu cérebro liga, em silêncio, o amor à vigilância.
A partir daí, a vida torna-se uma série de pequenos cálculos.
Estudas rostos, ouves mudanças na respiração, voltas a passar conversas na cabeça.
Não porque sejas dramático, mas porque o teu sistema nervoso está a tentar manter-se seguro.
Vê o caso da Sara, 33 anos, que se destaca no trabalho mas entra em pânico antes de enviar emails simples.
O chefe nunca gritou com ela, nunca ameaçou o emprego dela.
Ainda assim, ela escreve e reescreve, demora demasiado a responder e depois entra em espiral quando alguém escreve: “Podemos falar?”
Ao crescer, a mãe da Sara podia passar de carinhosa a um silêncio gelado por algo tão pequeno como um copo esquecido na mesa.
Às vezes era meiga e orgulhosa.
Outras noites batia portas e não falava durante horas.
Em criança, a Sara aprendeu a lição: “O meu comportamento decide se as pessoas estão bem ou não.”
Por isso, na vida adulta, cada mensagem, cada decisão, cada pequeno passo vem carregado de apostas invisíveis.
Uma resposta ligeiramente atrasada de um amigo pode parecer o início do fim.
A psicologia chama a isto um “ambiente emocional imprevisível”.
O teu cérebro, programado para a sobrevivência, desenvolve padrões para reduzir a incerteza.
Podes tornar-te o sobre-realizador, a pensar: “Se eu impressionar toda a gente, não se vão virar contra mim.”
Ou o pacificador, a suavizar conflitos antes de explodirem.
Ou o camaleão, a mudar de personalidade consoante a sala.
Por baixo de todas estas estratégias há uma crença silenciosa e pesada: “Não posso confiar que as pessoas sejam estáveis, por isso vou tentar controlar-me a mim.”
A auto-dúvida crónica é essa crença virada para dentro, dia após dia.
Não é um defeito de carácter. É uma estratégia de sobrevivência de longo prazo que já ultrapassou o prazo de validade.
Reensinar o teu cérebro que tens permissão para existir
Um método surpreendentemente poderoso começa com algo enganadoramente simples: registar a meteorologia emocional.
Durante uma semana, escreve, três vezes por dia, o que estás a sentir e o que aconteceu imediatamente antes desse sentimento.
Manhã: “Ansioso. A pensar numa mensagem que enviei ontem à noite.”
Tarde: “Tenso. O gerente passou pela minha secretária e não disse olá.”
Noite: “Envergonhado. A reviver algo que disse ao almoço.”
Este pequeno registo expõe a cadeia entre acontecimentos neutros e interpretações catastróficas.
Começas a notar quão depressa a tua mente salta de “Estão calados” para “Estão desiludidos comigo.”
Quando vês esse salto, tens uma oportunidade - pequena no início - de o questionar.
Muitas pessoas caem na mesma armadilha suave quando tentam “corrigir” a auto-dúvida: tratam-na como mais uma avaliação de desempenho.
Lêem livros de autoajuda, fazem maratonas de vídeos de terapia, definem objetivos para “parar de pensar demais” e depois atacam-se quando voltam a hesitar.
Isso apenas repete o padrão antigo.
A mensagem passa a ser: “Serei digno quando deixar de duvidar de mim.”
O mesmo amor condicionado, só que agora vindo de ti.
Um caminho mais silencioso e mais gentil é diferente.
Reparas na dúvida.
Dás-lhe um nome: “Aqui está outra vez aquela sensação antiga de ‘vou meter-me em sarilhos’.”
Não precisas de a esmagar. Só não a deixas pilotar o teu dia inteiro.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar.
A consistência constrói-se com prática confusa e imperfeita, não com sequências perfeitas.
Um terapeuta que trabalha com adultos vindos de casas imprevisíveis resumiu-o assim:
“A auto-dúvida não é drama, é dados. Diz-te quão inseguro costumava ser simplesmente seres tu.”
Visto desse ângulo, o trabalho muda de “parar de duvidar” para “construir espaços onde a dúvida é permitida, mas não manda”.
Uma forma útil de trazer isto para a vida real:
- Repara nos teus gatilhos
Escreve situações em que a tua auto-dúvida dispara: feedback, silêncio, conflito, elogios. - Escolhe uma experiência minúscula
Por exemplo, envia uma mensagem sem a reescrever três vezes. - Espera pela tempestade emocional
Observa o que o teu cérebro prevê que vai acontecer. Compara com o que acontece de facto. - Constrói uma pessoa segura
Alguém a quem possas enviar: “Estou a entrar em espiral por nada e eu sei disso”, sem te sentires estúpido. - Chama-lhe o que foi
Não “estou estragado” - mas “aprendi a sobreviver à imprevisibilidade. Estou a aprender algo novo agora.”
Isto não é sobre te tornares destemido; é sobre seres menos governado por alarmes antigos que já não se ajustam à tua vida atual.
Deixar o teu eu presente ultrapassar o teu sistema de alarme do passado
A certa altura, podes reparar em algo discretamente radical: as pessoas à tua frente agora não são as pessoas que te criaram.
O teu chefe não é o teu pai ou a tua mãe.
O teu parceiro não é o/a ex que usava o silêncio como castigo.
Ainda assim, o teu corpo encolhe-se como se fosse tudo a mesma história.
Essa é a parte difícil - o teu sistema nervoso corre mais depressa do que a tua lógica.
O que significa que a cura não é um único insight; é uma série de pequenas e repetidas desconfirmações.
Envias a mensagem e o teu amigo responde com carinho.
Falaste uma vez numa reunião e ninguém se riu.
Discordas com gentileza do teu parceiro e a relação sobrevive.
São estes momentos pouco glamorosos que fazem a auto-dúvida crónica perder um pouco da sua autoridade.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| A imprevisibilidade emocional precoce molda a auto-dúvida | Crescer com afeto inconsistente ou oscilações de humor treina o cérebro a monitorizar-se constantemente. | Reduz a vergonha ao enquadrar a auto-dúvida como uma resposta aprendida, não como um defeito. |
| Registar a “meteorologia” emocional cria consciência | Pequenos registos diários revelam como eventos neutros ativam histórias catastróficas. | Dá um ponto de partida prático para mudar a narrativa interna. |
| Experiências seguras reescrevem crenças antigas | Pequenas ações - enviar o email, expressar uma opinião - criam nova evidência emocional. | Mostra que a confiança cresce a partir da experiência, não de esperar sentir-se pronto. |
FAQ:
- Como sei se a minha auto-dúvida vem da imprevisibilidade na infância? Não dá para fazer um teste de laboratório ao teu passado, mas há pistas: o teu humor dependia muito do humor de outra pessoa, sentias que tinhas de “merecer” a calma, e pequenos erros levavam a grandes reações em casa. Se o feedback no presente parece perigo em vez de informação, isso costuma ser um sinal.
- A auto-dúvida crónica pode mesmo mudar na vida adulta? Sim, mas normalmente não só com força de vontade. A mudança vem de uma mistura de insight, novas experiências repetidas e relações onde as tuas emoções são recebidas com consistência em vez de imprevisibilidade. Com o tempo, o teu sistema nervoso atualiza as expectativas.
- A auto-dúvida é sempre uma coisa má? Não. Um autoquestionamento saudável ajuda-te a aprender, ouvir e ajustar. O problema é quando a dúvida é automática, global (“estou sempre errado”) e desproporcionada em relação à situação. Aí deixa de ser útil e começa a conduzir a tua vida.
- E se a minha infância não foi “assim tão má”, mas eu sinto isto na mesma? Não precisas de um trauma dramático para o teu cérebro se adaptar à imprevisibilidade emocional. Até uma inconsistência subtil e crónica - seres elogiado num dia e ridicularizado no seguinte - pode moldar silenciosamente o quão seguro te sentes em seres tu.
- Devo confrontar os meus pais sobre isto? É uma escolha muito pessoal. Algumas pessoas acham isso curativo, outras acham retraumatizante. Podes começar por trabalhar os teus próprios padrões, talvez com um terapeuta, antes de decidir se uma conversa te serviria genuinamente agora.
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