A mulher no café está no final dos seus 70 anos.
Corte bob grisalho, batom vermelho, um romance de bolso tão gasto que a lombada já está branca. O telemóvel está na mala, com o ecrã virado para baixo. Ao lado dela, um rapaz na casa dos 20 faz scroll no TikTok com a intensidade de quem está a marrar para um exame. Os cafés chegam ao mesmo tempo. Ela olha para cima, sorri ao empregado, pergunta-lhe o nome. Ele nem levanta os olhos.
Dez minutos depois, ela está à conversa com o casal da mesa ao lado sobre o livro que está a ler. O rapaz já mudou de aplicação quatro vezes e parece vagamente stressado. Ela parece… serena. Há uma suavidade na forma como mexe o café, como se estivesse mesmo ali, no momento.
Esta cena repete-se por todo o lado, todos os dias. E levanta uma pergunta estranha, ligeiramente desconfortável.
1. Escrever as coisas em vez de as teclar no telemóvel
Veja alguém nos seus 60 ou 70 a planear a semana e percebe um ritual, não apenas uma tarefa. Tira uma agenda em papel, abre listas escritas a tinta azul, talvez um Post-it que está no mesmo bolso da carteira desde 2013. Parece antiquado, um pouco teimoso, quase lento.
E, no entanto, algo muda na cara da pessoa quando escreve. Pensa antes de a caneta tocar no papel. Risca, faz círculos, sublinha. Há intenção, não apenas introdução de dados. A agenda não é apenas um sistema de lembretes. É um momento silencioso em que se decide o que realmente importa.
A maioria de nós limita-se a espetar eventos numa app de calendário e confia que a notificação nos salve. Eles estão a fazer algo diferente.
Olhe para os dados: estudos sobre “memória externa” continuam a mostrar que escrever à mão ajuda-nos a lembrar melhor do que escrever no teclado. Um artigo de 2024 da Universidade de Tóquio concluiu que as pessoas que usavam agendas em papel formavam memórias mais vívidas e interligadas dos seus horários do que utilizadores de tablets. As imagens cerebrais mostraram uma atividade mais profunda em áreas associadas à reflexão.
Pergunte a alguém nos seus 70 sobre os compromissos e, muitas vezes, recordará detalhes sem consultar nada. “Médico na quarta às dez, depois vou almoçar com a Nora”, dirá, quase casualmente. A agenda está lá, mas o cérebro já fez parte do trabalho.
Há também um detalhe pequeno e humano: a história visual da semana. Aniversários circulados a vermelho. Uma estrela ao lado dos nomes dos netos. Um pequeno “X” no fim do dia. Não é só planear o tempo. É sentir o tempo a passar.
As nossas notificações digitais intermináveis fragmentam a atenção. Quando tudo é urgente, nada assenta. As pessoas mais velhas que mantêm hábitos de papel e caneta dão a cada plano um pequeno momento de respeito. Isso abranda as coisas de uma forma que acalma o sistema nervoso.
Também evitam um imposto invisível: sempre que abre o telemóvel para ver o calendário, uma dúzia de apps grita pela sua atenção. Mensagens, emblemas, notícias de última hora. Um simples “A que horas era aquilo?” transforma-se em 20 minutos perdidos num labirinto digital. Uma agenda em papel nunca o puxa para um scroll sem fim.
Não é nostalgia. É proteção do foco - sem lhe chamarem isso.
2. Telefonar ou visitar em vez de apenas enviar uma mensagem
Quando alguém nos seus 60 diz “vou ver como ela está”, raramente quer dizer “vou mandar um emoji de polegar para cima”. Quer dizer pegar no telefone ou, melhor ainda, bater à porta com uma forma de bolo debaixo do braço. Parece antiquado num mundo em que amizades inteiras vivem num chat de grupo.
E, no entanto, este hábito é um superpoder silencioso. Chamadas de voz e visitas cara a cara trazem tom, pausas, gargalhadas, aquele meio segundo estranho em que os dois falam ao mesmo tempo e depois riem. São desarrumadas de um modo que as mensagens nunca conseguem ser.
Essa desarrumação é precisamente o que faz as pessoas sentirem-se vistas e menos sozinhas.
Há uma razão para as estatísticas de solidão baterem mais forte, agora, entre jovens adultos - não apenas entre pessoas mais velhas a viver sozinhas. Investigação do Reino Unido, dos EUA e de vários países europeus repete o mesmo padrão: gerações mais novas têm, muitas vezes, mais ligações, mas menos profundidade.
Uma enfermeira reformada que entrevistei, 72 anos, liga à amiga todos os domingos. Sempre à mesma hora, sempre no telefone fixo. “Fazemos isto desde os anos 80”, disse-me. “Falámos sobre filhos, cancro, pais que morreram, anca partida e o Donald Trump. Isso não se manda por mensagem.”
Ela ri, mas há verdade ali. Não se processa luto ou medo através de uma reação de polegar para cima. Processa-se com uma voz ao ouvido às 23h30, quando tudo parece mais pesado.
Os sistemas nervosos humanos acalmam quando ouvimos uma voz calorosa ou vemos uma cara familiar. Isso é biologia, não nostalgia. As gerações mais velhas construíram a vida social sobre essa realidade. Pessoas mais novas, obcecadas com tecnologia, muitas vezes substituem-na por bolhas azuis e sequências. Não admira que tantos digam sentir-se “hiperconectados e estranhamente vazios”.
As pessoas nos seus 60 e 70 que se mantêm fiéis a telefonemas e visitas preservam algo profundamente regulador: segurança relacional. Não lhe chamam assim. Só sabem que algumas conversas merecem mais do que três pontinhos e uma frase autocorrigida.
3. Arranjar coisas em vez de as substituir imediatamente
Há um homem na minha rua, 68 anos, que arranja quase tudo. Corta-relvas, candeeiros, torradeiras que toda a gente deitaria fora. Os vizinhos levam-lhe coisas avariadas e saem com algo a funcionar - e com uma história sobre como se estragou. A garagem cheira a óleo, madeira velha e a uma ténue nostalgia dos anos 80.
Vê-lo trabalhar é como viajar no tempo. Desmonta as peças em cima de uma toalha velha, limpa parafusos numa caneca de café, semicierra os olhos, resmunga. Depois testa, ajusta, tenta outra vez. Sem pressa. Sem “substituição chega na quarta-feira” numa app de rastreio.
Esta mentalidade de reparar é muito mais do que poupar dinheiro.
Há investigação em psicologia ambiental que mostra que reparar e manter objetos cria apego e gratidão. Quando passou uma hora a trazer uma cadeira de volta à vida, trata-a de outra forma. Torna-se parte da sua história, não apenas um produto em sua casa.
As pessoas nos seus 60 cresceram num mundo de escassez e remendos. Meias eram cerzidas, rádios abertos, dobradiças oleadas. Não era apenas poupança. Era treino do cérebro para enfrentar problemas com curiosidade em vez de substituição instantânea.
Consumidores jovens, obcecados por tecnologia, vivem no extremo oposto. Quando algo falha, a primeira pergunta é “qual é o mais recente que posso comprar?” e não “isto dá para arranjar?”. A mesma lógica infiltra-se, silenciosamente, em relações, trabalhos, até hobbies.
Quem arranja aprende outra coisa: paciência e agência. Uma coisa avariada não é um drama. É um puzzle. Essa mentalidade transborda. Se conseguiu ressuscitar uma máquina de lavar “morta”, é mais provável que acredite que também consegue atravessar um mês duro, uma semana má, uma conversa difícil.
4. Manter pequenos rituais diários que não envolvem um ecrã
Peça a alguém nos seus 70 para descrever a manhã e raramente ouve “acordo e vou ver o telemóvel”. Ouve coisas como “ponho a chaleira ao lume, abro as cortinas e fico à janela dez minutos” ou “leio o jornal enquanto a rádio toca baixinho ao fundo”.
Estes pequenos rituais parecem aborrecidos por fora. Por dentro, são âncoras. Dizem ao corpo: “estás seguro, o dia tem um ritmo, já fizeste isto mil vezes”. Essa repetição acalma o sistema nervoso mais eficazmente do que mais uma dose de conteúdo estimulante.
Há um tipo silencioso de felicidade em saber como o seu dia começa e acaba, sem um algoritmo decidir o seu estado de espírito por si.
Muitos adultos mais novos dizem que “não têm tempo” para rituais e depois passam os primeiros 20 minutos acordados a fazer scroll na cama. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, essas rotinas perfeitas que se vêem nos vídeos de lifestyle. Mas as gerações mais velhas mantêm, de facto, um ou dois hábitos pequenos e teimosos com os quais não negociam.
Pode ser ir sempre à mesma padaria antes do almoço. Regar as plantas depois do pequeno-almoço. Fazer um almoço de domingo a sério, mesmo que seja só para dois. Isto não são truques de produtividade. São andaimes emocionais.
Também funcionam como limites suaves contra a ocupação total pelos ecrãs. Quando está a cortar legumes à mão, não está a ver Netflix e Instagram em simultâneo. Quando faz o mesmo percurso todas as manhãs, repara em pequenas mudanças no bairro em vez de um fluxo interminável de conteúdo.
Como me disse uma pessoa de 69 anos, a tomar chá:
“O meu telemóvel é para a minha conveniência, não para a deles. Se eu estiver sempre disponível, nunca estou verdadeiramente onde estou.”
Essa frase ficou-me na cabeça desde então.
Há um padrão nestes rituais, e é surpreendentemente prático para quem se sente esmagado por notificações:
- Manter pelo menos uma ação repetida à mesma hora todos os dias, sem ecrã.
- Deixar uma tarefa diária demorar o tempo que demora: cozinhar, caminhar, jardinar, tricotar.
- Proteger uma zona “sem telemóvel” em casa: mesa, quarto, poltrona.
5. Preferir comunidades no mundo real a tribos algorítmicas
Fique à porta de um salão comunitário numa tarde de quinta-feira, durante uma aula de dança, ou num café da igreja de manhã. A idade média é 65+. Há café instantâneo mau, luzes fluorescentes e um placard de avisos saído diretamente de 1994. No papel, parece o oposto do aspiracional.
E, no entanto, o ambiente é eletrizante de um modo discreto. As pessoas riem, falham passos, metem-se umas com as outras. Alguém se esquece da sequência, e a sala inteira desata a rir. Não há seguidores, não há likes, não há “taxa de engagement”. Só pessoas que apareceram, com toda a sua imperfeição.
Saem de lá fisicamente cansadas e emocionalmente reabastecidas.
Compare isso com uma sexta-feira à noite mergulhado num fandom online, num debate político ou num grupo de interesse de nicho. Tudo é afiado. A indignação viaja depressa. Os algoritmos deitam gasolina em cada opinião forte. Podem partilhar o mesmo interesse - mas estas pessoas conhecem-no? Podia ligar-lhes se o carro avariasse?
Pessoas mais velhas que mantêm clubes de bridge, coros, turnos de voluntariado, reuniões de moradores não estão a perseguir viralidade. Estão a escolher algo a que psicólogos chamam ligação “alta qualidade, baixo espetáculo”. Não parece espetacular num ecrã. Sabe bem no peito.
Essa é uma grande razão para muitos relatarem níveis surpreendentemente altos de satisfação com a vida, mesmo com rendimentos modestos. As suas comunidades são vividas no corpo. Esbarram, carregam cadeiras, reparam se alguém não aparece há três semanas. É confuso e por vezes irritante, mas é real.
Não tem de adorar bingo para copiar o padrão. Só precisa de um lugar onde alguém notasse se desaparecesse. Esse é um tipo de felicidade que o dinheiro - e certamente um algoritmo - não consegue substituir.
Hábitos teimosos, alegria silenciosa
Quando falamos de pessoas mais velhas “felizes”, muitas vezes romantizamo-las como sábias, serenas, quase mágicas. A verdade é mais crua. Muitas lidam com perdas, problemas de saúde, preocupações financeiras. As que ainda conseguem brilhar um pouco por dentro, normalmente, não andam atrás de hacks. Estão apenas a recusar abandonar os hábitos comuns que mantêm as pessoas sãs.
Escrevem as coisas, para que a mente não esteja sempre no limite do esquecimento. Telefonam e visitam, para que as amizades vivam em vozes e em salas reais. Arranjam o que podem, o que lhes diz que não estão indefesos num mundo construído para os fazer sentir obsoletos.
Mantêm rituais que estabilizam o dia e aparecem em grupos no mundo real onde alguém lhes olha nos olhos e diz: “Onde estiveste na semana passada? Fizeste-nos falta.” Num bom dia, estes hábitos tornam a vida discretamente bonita. Num mau dia, impedem que o chão ceda.
Num ecrã, nada disto parece muito impressionante. Ninguém fica viral por “mantive outra vez a minha chamada semanal com um amigo”. E, no entanto, quando se olha com atenção para quem parece mais enraizado agora - o avô a dobrar roupa calmamente enquanto a televisão murmura, ou a pessoa de 24 anos a atualizar três apps ao mesmo tempo - o contraste é difícil de ignorar.
Podemos ficar com a tecnologia. Ninguém lhe está a pedir para voltar aos telefones de disco e às cassetes VHS. O convite é mais suave e mais radical: roube alguns truques à moda antiga às pessoas que sobreviveram a várias vagas do “próximo grande fenómeno”. Depois veja o que acontece ao seu sistema nervoso, à sua atenção, às suas amizades.
O futuro pode pertencer a quem aprende a viver com as duas coisas: um smartphone no bolso e uma agenda em papel, uma chamada no fixo, um ritual de quinta-feira à tarde que não precisa de Wi-Fi para saber a casa.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Escrita à mão e planeamento em papel | Os adultos mais velhos continuam a usar agendas, listas e cadernos para horários e pensamentos. | Oferece uma forma simples de se sentir menos disperso e de recordar o que realmente importa. |
| Chamadas, visitas e comunidades reais | Telefonemas, visitas “de passagem” e grupos locais substituem mensagens intermináveis e scroll. | Ajuda a reduzir a solidão e a construir redes de apoio mais profundas e fiáveis. |
| Rituais e mentalidade de reparação | Rotinas diárias offline e arranjar coisas em vez de as substituir. | Cria estabilidade, paciência e um sentido de agência num mundo caótico e acelerado. |
Perguntas frequentes
- Que hábitos “à moda antiga” posso experimentar sem largar o telemóvel? Pode começar por um: escrever o plano semanal num caderno, fazer uma chamada em vez de enviar uma mensagem longa, ou criar um ritual matinal sem telemóvel - como tomar café à janela.
- As pessoas mais velhas sentem-se mesmo mais felizes, ou isso é apenas um estereótipo? Grandes inquéritos mostram, muitas vezes, que pessoas nos 60 e 70 reportam níveis de satisfação com a vida semelhantes ou superiores aos dos jovens adultos, apesar de mais problemas de saúde. Rotinas offline e relações fortes são uma parte importante disso.
- E se eu não tiver tempo para visitas e chamadas longas? Não tem de ser longo. Uma chamada de voz de dez minutos pode criar mais ligação do que uma hora de mensagens fragmentadas. A chave é a profundidade, não a duração.
- Como posso construir uma comunidade no mundo real se sou tímido ou sou novo na cidade? Procure atividades de baixa pressão: uma aula local, um turno de voluntariado, um grupo de leitura, até um mercado semanal onde fale com os mesmos vendedores. O contacto pequeno e regular soma-se.
- A tecnologia é o problema, ou a forma como a usamos? A tecnologia não é inimiga. O problema é quando substitui, silenciosamente, hábitos humanos que protegem a saúde mental. Misturar tecnologia útil com alguns hábitos analógicos teimosos é, muitas vezes, onde as pessoas se sentem melhor.
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