Num jantar de família, a sala ficou em silêncio logo a seguir à piada.
Não por ter sido ofensiva, mas por causa do que veio a seguir. “Bem, eu só estou a dizer o que penso. Se ficaste chateado, isso é problema teu.” Os garfos pararam a meio do ar. Os olhos desceram para os pratos. A pessoa que o disse parecia genuinamente confusa, quase magoada, como se fosse a vítima da cena.
Mais tarde, a caminho de casa, alguém resmungou: “Ela faz sempre isso. Faz com que seja tudo sobre ela.” O mais estranho? Ela provavelmente não fazia ideia. Para ela, foi só mais uma frase honesta num dia longo.
Há frases que à superfície soam normais, mas que, em silêncio, revelam um padrão: tudo tem de girar à volta de uma pessoa. Algumas pessoas nem se apercebem do quão egoístas soam. As palavras delas são pistas. E das afiadas.
1. “Isso não é nada de especial, estás a exagerar.”
Esta costuma cair logo a seguir a partilhares algo vulnerável. Abres-te sobre stress no trabalho, um comentário cruel, um medo que te deixou acordado às 3 da manhã. E então vem esta frase, descontraída, quase aborrecida: “Isso não é nada de especial, estás a exagerar.”
Bate como uma bofetada embrulhada em algodão. Não faz barulho. Mas arde durante horas. A mensagem por baixo é simples: a tua experiência é menor do que a minha, os teus sentimentos são “demais”, a tua realidade é negociável.
Pessoas egoístas usam muitas vezes isto como atalho. Em vez de ouvirem, desvalorizam a tua emoção para poderem passar para algo de que gostam mais. Normalmente… elas próprias.
Imagina isto. Dizes a um amigo que estás ansioso por causa de um exame médico que se aproxima. A tua voz treme um pouco. Não estás a pedir conselhos, só um momento de calor humano.
Ele mal levanta os olhos do telemóvel: “Estás a pensar demais. Não é assim tão grave.” E depois muda a conversa para os planos do fim de semana. Dez minutos mais tarde, és tu a pedir desculpa: “Pois, se calhar estou a ser dramático.”
É assim que a manipulação emocional (gaslighting) muitas vezes começa. Frases pequenas, do dia a dia, que te fazem duvidar da tua própria previsão do tempo. Está mesmo a chover, ou estou a imaginar a tempestade?
À superfície, esta frase soa racional. Calma. Quase prática. Na realidade, desvia o foco do teu mundo interior para o conforto da pessoa egoísta.
Ao chamar à tua reação “demasiada”, evitam o desconforto de estar com a tua dor. Não é preciso empatia se o problema “está todo na tua cabeça”. Assim, conseguem manter o controlo, acima da confusão - como quem decide o que é grande e o que é pequeno.
Com o tempo, quem recebe isto aprende a encolher. Edita os sentimentos. Partilha menos, pede menos, sente-se menos legítimo. E a pessoa egoísta, ironicamente, toma esse silêncio como prova: “Vês? Não era nada de especial.”
2. “Eu só estou a ser honesto.”
Esta frase costuma aparecer logo a seguir a alguém dizer algo desnecessariamente duro. Uma boca sobre o teu peso. Um comentário sobre o teu trabalho. Uma farpa sobre a tua relação. As palavras magoam, e depois o orador atira rapidamente o escudo: “Eu só estou a ser honesto.”
Aqui, “honestidade” não tem a ver com verdade. Tem a ver com permissão. Permissão para dizer tudo, em qualquer tom, desde que se possa alegar que é “real”.
Soa corajoso, quase virtuoso. Quem é que pode discutir com a honestidade? Mas o subtexto é mais alto: “A minha necessidade de me expressar importa mais do que aquilo que tu sentes ao ouvir isto.”
Imagina que estás entusiasmado com um novo projeto. Finalmente te inscreveste num curso de formação, algo que querias fazer há anos. Partilhas com um colega, a sorrir, um pouco nervoso, à procura de uma faísca de incentivo.
Ele encolhe os ombros. “Sinceramente? Tu não tens jeito para esse tipo de coisa.” Ficas parado por um segundo. Ai. Depois, ao ver a tua cara, acrescenta: “Vá lá, eu só estou a ser honesto. Alguém tem de dizer.”
Esse “alguém” parece ser sempre ele. Com o tempo, pessoas assim usam com orgulho o rótulo de “brutalmente honesto”, como se a crueldade fosse uma medalha de integridade.
A verdadeira honestidade inclui responsabilidade. Pergunta: porque é que estou a dizer isto, desta forma, e agora? A “honestidade” egoísta salta esse passo. É guiada pelo impulso e pelo ego: a adrenalina de ser quem “diz as verdades”.
Psicologicamente, esta frase permite fugir à responsabilidade. Se ficas magoado, o problema não é o que foi dito, é a tua “sensibilidade”. A pessoa egoísta continua a ser o herói da própria história: um destemido portador da verdade num mundo de almas frágeis.
Comunicação saudável não é evitar verdades difíceis. É ter noção do timing, do tom e do contexto. Quase tudo pode ser dito com cuidado. Quando alguém segue constantemente um golpe doloroso com “eu só estou a ser honesto”, o que está a proteger é o próprio conforto - não a verdade.
3. “És demasiado sensível.”
Esta aparece muitas vezes quando estabeleces um limite, de forma tranquila. Dizes “não gostei dessa piada”, ou “ontem senti-me ignorado”, ou “fiquei magoado por teres partilhado isso, que era privado”. Em vez de curiosidade, recebes um veredicto: “És demasiado sensível.” Caso encerrado.
A “beleza” desta frase, para uma pessoa egoísta, é que vira o guião numa só jogada. O problema não é o comportamento dela; é a tua reação. Ela fica intocada, tu passas a ser o problema. Conveniente, não é?
Soa quase como um conselho. Mas é uma forma subtil de dizer: “Sente menos, para eu poder fazer mais do que me apetece.”
Todos já ouvimos uma versão disto na infância. O adolescente que chora por causa de um comentário cortante leva com revirar de olhos e “Relaxa, era uma piada.” O colega que levanta uma preocupação sobre piadas sexistas é descartado como “demasiado sensível”.
Com o tempo, estas palavras entranham-se. Adultos crescidos pedem desculpa por terem um nó na garganta. Dizem “Desculpa, estou a ser parvo” antes sequer de explicarem o que se passa.
Pessoas egoístas apoiam-se nesse hábito cultural. Sabem que chamar-te “demasiado sensível” te põe na defensiva. Começas a explicar os teus sentimentos, a tentar justificá-los. E eles, entretanto, nunca precisam de explicar as ações.
De um ponto de vista psicológico, esta frase funciona como um silenciador. Reduz o espaço onde as tuas emoções têm permissão para existir. Num nível mais fundo, protege a autoimagem da pessoa egoísta: “Se és tu que és demasiado sensível, então eu não sou desagradável. Eu sou normal.”
Relações saudáveis precisam de sensibilidade. É o radar que nos diz quando fomos longe demais, quando alguém está a sofrer em silêncio, quando há algo desalinhado na dinâmica. Quando alguém insiste em rotular o teu radar como “demais”, o que está realmente a dizer é: “Desliga isso, para eu não ter de olhar para mim.”
4. Como responder sem te tornares igual a eles
Reconhecer estas frases é uma coisa. Responder sem explodir ou encolher é outra história. Quando alguém diz “estás a exagerar” ou “és demasiado sensível”, o teu sistema nervoso acende-se muitas vezes. Coração a acelerar, garganta apertada, um jorro de palavras de que podes arrepender-te depois.
Uma manobra prática é abrandar a cena. Uma frase simples pode criar espaço: “Percebo o que dizes, mas esse comentário desvaloriza o que eu sinto.” Curta. Clara. Sem drama. Nomeias o que está a acontecer sem atacar a pessoa.
Se a pessoa insistir, não tens de lutar pelo veredicto. Podes sair do tribunal. Um “Vemos isto de forma diferente, por isso vou fazer uma pausa nesta conversa” protege a tua energia sem te transformar num espelho do egoísmo dela.
Uma armadilha comum é tentares “ganhar” a troca. Repassas a conversa à noite, inventas respostas mais mordazes, imaginas o discurso perfeito que finalmente a faz perceber o quão magoou.
Realidade: pessoas muito investidas no próprio conforto raramente mudam por causa de uma única discussão. O que muda as coisas é consistência. Sinais pequenos e repetidos de que os teus limites são reais: desligas mais cedo, mudas de assunto, deixas de rir de piadas que mexem nas tuas cicatrizes.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Às vezes vais deixar passar. Às vezes vais perder a paciência. Isso é humano. O objetivo não é tornar-te um robô de limites. É afastar-te, pouco a pouco, da ideia de que a reação deles define se o teu sentimento é válido.
A “exagero” de uma pessoa é o tempo emocional honesto de outra. O teu trabalho não é pôr sol para toda a gente. É reconhecer se está a chover dentro de ti - em voz alta - mesmo que alguém revire os olhos.
“Quando alguém te mostra quem é através das palavras, ouve com o corpo. Repara como te sentes depois de falar com essa pessoa. Muitas vezes, essa é a parte mais honesta da conversa.”
- Frase para lembrar: “Tenho direito a sentir o que sinto, mesmo que não entendas.”
- Micro-passo: respira devagar uma vez antes de responder a qualquer frase que comece por “És demasiado…”
- Ideia de limite: passa menos tempo a explicar os teus sentimentos a pessoas que nunca mudam o comportamento.
- Auto-verificação: usas “eu só estou a ser honesto” para dizer coisas que nunca gostarias de ouvir sobre ti?
- Bom sinal: pessoas que dizem: “Não me apercebi que isso te magoou. Obrigado por me dizeres.”
5. Porque é que estas oito frases importam mais do que pensas
No papel, são só palavras. Frases curtas, do dia a dia, a circular por cozinhas, escritórios, conversas de WhatsApp. Na vida real, moldam o quão seguros nos sentimos para existir como somos.
Quando alguém te diz regularmente que estás a “exagerar”, que és “demasiado sensível” ou que “não é nada de especial”, começa uma erosão silenciosa. Nada dramático. Nada cinematográfico. Apenas pequenos pedaços de confiança em ti a gastarem-se, semana após semana.
O assustador é o quão normal pode parecer. Habitua-te a editar-te a meio da frase. Engoles histórias. Pré-julgas as tuas próprias emoções antes que alguém o faça.
Em escala maior, estas frases egoístas treinam grupos inteiros para ficarem calados. Nas famílias, quem fala passa a ser “difícil”. Nas equipas, quem levanta uma preocupação é “negativo”. Nos casais, quem nomeia um problema é “demais”.
E, no entanto, algo muda no dia em que começas a notar o padrão. Ouvias as mesmas oito frases em bocas diferentes. Percebes que têm menos a ver contigo e mais a ver com um estilo de relação em que o conforto de uma pessoa é o sol e todos os outros orbitam à volta.
Não tens de começar uma guerra para mudar o guião. Às vezes, os atos mais silenciosos são os mais altos. Fazer uma pausa antes de pedires desculpa. Dizer “discordo” sem uma explicação de 10 minutos. Deixar alguém ficar desapontado com o teu limite… e sobreviver a esse sentimento.
Da próxima vez que ouvires uma destas frases profundamente egoístas, talvez não tenhas a resposta perfeita. Está tudo bem. Repara como o teu corpo reage. Repara naquela voz pequena por dentro que sussurra: “Não, isto importa para mim.”
Essa voz é onde algo diferente pode começar. Talvez não hoje. Talvez não alto. Mas claro o suficiente para conseguires voltar a ouvir-te.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| Identificar as frases | Reconhecer as 8 formulações típicas de pessoas muito egocêntricas | Dar nome a um mal-estar difuso e ver o padrão com mais clareza |
| Compreender a lógica | Ver como estas frases protegem o ego do outro e minam a tua confiança | Deixar de te sentires “demais” e começar a ver as dinâmicas escondidas |
| Responder de forma diferente | Usar respostas curtas, claras, sem agressividade nem justificações excessivas | Proteger a tua energia sem te tornares duro ou fechado |
Perguntas frequentes (FAQ)
- Como sei se alguém está a ser egoísta ou apenas desajeitado com as palavras? Procura repetição e impacto. Qualquer pessoa pode dizer algo infeliz uma vez. Um padrão egoísta aparece repetidamente, em situações diferentes, minimizando sempre os teus sentimentos e recentrando a pessoa.
- É egoísmo se eu às vezes também disser estas frases? Não necessariamente. O que importa é o que fazes a seguir. Se alguém te diz que uma frase magoou e tu estás disposto a ouvir e ajustar, já estás fora da zona do “profundamente egoísta”.
- Devo confrontar as pessoas sempre que dizem uma destas coisas? Não. Escolhe as batalhas e os momentos. Às vezes, um simples “Não foi bom ouvir isso” chega. Outras vezes, proteger a distância é mais seguro do que confrontar.
- E se a pessoa egoísta for um pai/mãe ou parceiro que não posso evitar facilmente? Trabalha primeiro limites internos: o que acreditas sobre ti, o que internalizas. Depois, gradualmente, introduz pequenos limites externos: mudar de assunto, limitar certas conversas, fazer pausas.
- Pessoas profundamente egoístas podem mesmo mudar a forma como falam? Algumas conseguem, se tiverem motivação genuína e conseguirem lidar com o desconforto. Muitas não vão, porque estas frases protegem a posição delas. O teu poder está menos em mudá-las e mais em mudar o quanto as palavras delas te definem.
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