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6 hábitos antigos que pessoas nos 60 e 70 anos mantêm e que as tornam mais felizes do que os jovens obcecados por tecnologia.

Casal de idosos cozinha sorridente, mulher escreve num caderno; homem observa, com ingredientes à mesa.

Sábado de manhã, 9:17.

Numa pequena cafetaria de uma vila, que ainda cheira levemente a cigarros e pão acabado de sair do forno. Na longa mesa de madeira junto à janela, quatro pessoas, já na casa dos sessenta e muitos, inclinam-se sobre canecas de café, a rir tão alto que dois estudantes com AirPods levantam os olhos, meio irritados, meio curiosos. Aqui, ninguém está a fazer scroll. Os telemóveis ficam virados para baixo, ligeiramente fora de alcance, como cães obedientes.

Trocam mexericos locais, discutem o preço do tomate, planeiam o aniversário de um vizinho. Um homem tira do casaco um jornal dobrado, com as páginas amaciadas pelo uso, e o grupo inteiro aproxima-se para ver as palavras cruzadas. Lá fora, um adolescente passa, olhos colados ao ecrã, ombros ligeiramente curvados, sozinho num feed cheio de gente.

A mesma vila, a mesma manhã, um tipo de felicidade radicalmente diferente. E essa diferença não é um acidente.

1. Escrever coisas à mão, como se isso realmente importasse

Veja como alguém com setenta e tal anos organiza a semana. Sem app de produtividade, sem calendário digital com cores, sem a busca frenética de uma password perdida. Apenas uma agenda de papel, um calendário na parede e, por vezes, até post-its no frigorífico. Fazem pequenos círculos à volta dos aniversários, sublinham consultas médicas, acrescentam comentários mínimos na margem. Parece simples. À moda antiga. Quase frágil.

E, no entanto, há um poder discreto neste ritual. A mão abranda a mente. A tinta deixa um rasto físico. Os planos deixam de ser dados abstratos e passam a ser algo que se pode tocar, folhear, reler. E quando tudo parece passar à velocidade do 5G, essa lentidão não é um defeito. É a funcionalidade.

Pergunte à Margaret, 72 anos, enfermeira reformada, cuja parede da cozinha parece um cruzamento entre um centro de comando e um álbum de recortes. Todos os domingos, senta-se com uma chávena de chá e a sua agenda em papel. Aponta as idas à piscina, os jogos de futebol do neto, até “ligar à Linda” com um pequeno coração. “Se não está no papel, para mim não existe”, brinca.

A neta mostrou-lhe uma app de calendário uma vez. A Margaret experimentou, por educação. Depois voltou à sua caneta azul preferida. Diz que o ato de escrever a faz comprometer-se. Lembra-se mais. Antecipar torna-se mais fácil. E quando o neto passa por lá, consegue literalmente ver, na parede, que ela reservou tempo para o jogo dele. Uma notificação nunca faria isso.

Os neurologistas acenam discretamente a tudo isto. Escrever à mão ativa áreas diferentes do cérebro do que tocar num vidro. Melhora a memória, a atenção e até o processamento emocional. E, ao contrário de uma notificação, uma nota em papel não grita consigo. Apenas espera. A tecnologia promete eficiência; os mais velhos, muitas vezes, procuram outra coisa: significado, continuidade, a sensação de que os dias formam uma história em vez de um fluxo de alertas. Aos 25, otimiza-se. Aos 70, escolhe-se com cuidado.

2. Conversas cara a cara, mesmo quando dá trabalho

Se passar tempo com pessoas nos seus sessenta ou setenta, vai reparar num hábito teimoso: ainda batem à porta. Ainda pegam no telefone para falar a sério, e não apenas para mandar uma mensagem de três palavras. Ficam mais tempo. Perguntam pela sua mãe, pelo seu trabalho, pelo vizinho esquisito que tem plantas a mais. Isto não é nostalgia. É o sistema operativo deles.

Há uma razão para tantos centros comunitários e salões paroquiais estarem cheios de pessoas mais velhas nas manhãs de dias úteis. Elas aparecem. Entram em clubes de cartas, ensaios de coro, círculos de leitura que às vezes leem mais receitas de bolos do que romances. Compreendem - muitas vezes por experiência amarga - que a solidão não se resolve com mais seguidores. Encolhe quando alguém olha nos seus olhos e diz: “Está tudo bem?”

Numa quarta-feira chuvosa em Leeds, vi um grupo de reformados terminar o jogo semanal de dominó num pavilhão comunitário. Um homem, Peter, 69 anos, vestiu o casaco e depois hesitou. A mulher morreu no ano passado. O jogo é a âncora dele. Em vez de ir diretamente para casa, outros três acompanharam-no até à paragem de autocarro, a falar de coisas pequenas. O tipo de conversa banal que, silenciosamente, mantém as pessoas juntas.

Mais tarde, o Peter disse-me que o grupo o salvou de cair num buraco que “não queria nomear”. Não porque tivessem conversas profundas e filosóficas todas as vezes. Mas porque estavam lá, presencialmente, de forma fiável, teimosa. Sem precisar de botão de like.

Os psicólogos continuam a encontrar o mesmo padrão: o que protege a saúde mental a longo prazo tem menos a ver com experiências de pico e mais com contacto frequente no mundo real. Microinterações. Rotinas partilhadas. As gerações mais novas sabem isto em teoria. Partilham infografias sobre “comunidade” e “encontrar a tua tribo”. Ainda assim, a vida diária é muitas vezes engolida por ecrãs, trabalho remoto e fluxos intermináveis de conteúdo. Os mais velhos cresceram num mundo onde era preciso sair de casa para saber o que se passava. Esse músculo nunca desapareceu por completo. A vida social deles não é eficiente. É vivida no corpo.

3. Ler devagar, em papel, como um ritual privado

Há algo quase desafiante numa pessoa mais velha sentada num banco com um livro físico, enquanto toda a gente à volta faz scroll de notícias deprimente em rajadas de 12 segundos. Sem pop-ups, sem vídeos a reproduzir automaticamente, sem alertas push. Apenas tinta, silêncio e tempo a passar à velocidade de uma página virada. Por fora, parece calmo. Por dentro, nem por isso.

Para muitas pessoas com mais de 60, ler não é autoaperfeiçoamento. Não faz parte de uma “rotina matinal” otimizada para o sucesso. É um prazer que nunca sentiram necessidade de vender como marca. Um jornal aberto na mesa, um policial gasto no braço do sofá, uma revista na casa de banho. Cresceram em casas onde a televisão tinha um canal e os livros preenchiam o resto. Essa ligação fica.

Veja o José, 74 anos, ex-mecânico de Lisboa. Todos os dias depois do almoço, senta-se na mesma poltrona e lê durante uma hora. Às vezes o jornal local, às vezes um livro de História. Ninguém chama a isto “trabalho profundo”. É apenas o hábito dele. A neta perguntou-lhe uma vez porque não lê num tablet. Ele encolheu os ombros: “As histórias parecem mais finas num ecrã.” A investigação sobre leitura digital sugere que ele não está errado. A compreensão e a retenção muitas vezes descem quando tudo compete pela sua atenção.

Quando está constantemente a ler na diagonal no telemóvel, o cérebro aprende a esperar interrupção. Parágrafos longos parecem pesados. Salta-se, desliza-se, lê-se a meio. É aqui que os hábitos de leitura dos mais velhos oferecem uma rebelião silenciosa. Um livro de bolso não tem notificações. Um artigo impresso não encolhe para abrir espaço a anúncios. A lentidão convida à profundidade, e com a profundidade vem um sabor diferente de satisfação. Não a descarga rápida de “novo post”, mas o brilho mais lento de “eu acabei mesmo isto”. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Ainda assim, quem mantém este ritual, mesmo que duas vezes por semana, diz sentir-se mais calmo, menos fragmentado. A leitura torna-se menos sobre conteúdo e mais sobre voltar a si próprio.

4. Caminhadas de rotina, as mesmas ruas, à mesma hora, uma mente diferente

Pergunte a alguém nos seus setenta sobre movimento e muitos não vão falar de ginásios nem de smartwatches. Vão falar da “caminhada deles”. À volta do quarteirão. Até ao parque. Até ao mercado. O mesmo percurso, uma e outra vez. Não parece um plano de fitness. Parece vida. Os sapatos calçam-se quase automaticamente. O corpo lembra-se antes de a mente começar a negociar.

Isto não é a narrativa dramática e transformadora do “vou correr uma maratona” que se torna viral nas redes sociais. É mais silencioso, mais sustentável. Dez, vinte, trinta minutos lá fora, na maioria dos dias. Sem screenshot do contador de passos, sem hashtag. Apenas ar fresco, prédios familiares, o mesmo vizinho com o cãozinho que odeia toda a gente mas, no fundo, gosta de si.

A Brenda, 66 anos, disse-me que vai à mesma padaria todas as manhãs às 8:30. Compra um pão pequeno, conversa com o padeiro e depois dá uma volta por um parque próximo. Nos dias em que chove, vai na mesma. “Se fico em casa, começo a pensar demais”, disse. “Lá fora, os meus pensamentos alongam-se.” Não há app a lembrá-la. A rua é o lembrete. O cão que conta com ela. O padeiro que reparou quando ela não apareceu durante três dias e mais tarde perguntou se tinha estado doente.

Os conselhos modernos de saúde chegam muitas vezes embrulhados em pressão. Monitorize o sono, otimize os macros, cumpra os 10.000 passos. Pode parecer mais um emprego. Os mais velhos que mantêm o hábito clássico de caminhar evitam essa carga mental. Não “treinam”; “vão dar uma volta”. E essa diferença importa. Caminhar sempre pelo mesmo percurso cria uma relação com o lugar. Vê-se a mudança das estações, a loja que fecha, o novo graffiti que aparece durante a noite. A ansiedade encolhe um pouco quando o corpo tem prova, todos os dias, de que o mundo ainda existe em três dimensões - não apenas dentro de um ecrã.

“Quando caminho pelo mesmo caminho que percorri com os meus filhos há 30 anos, lembro-me de quem fui e de quem ainda sou”, disse a Anne, 71 anos. “Nenhuma app me pode dar isso.”

Há formas de pegar neste hábito sem o transformar numa obrigação:

  • Escolha um percurso simples de que goste mesmo, não aquele que alguém online diz ser o “melhor”.
  • Ligue-o a algo agradável: uma paragem para café, uma vista, um banco onde se senta três minutos.
  • Deixe que seja imperfeito. Falhe dias. Recomece sem culpa.

Uma armadilha emocional da nossa cultura hiper-digital é a ideia de que todos os hábitos têm de ser otimizados, registados e partilhados. Os caminhantes mais velhos não estão interessados nisso. A vitória deles não está no número. Está na sensação de chegar a casa com as faces rosadas e a mente um pouco mais leve.

5. Guardar coisas que trazem memórias, não apenas dados

Entre numa casa típica de alguém com setenta e tal anos e provavelmente vai ver: prateleiras com molduras, gavetas com cartas, caixas com bilhetes de espetáculos e postais. Não é minimalista. Não é “estética Pinterest”. São camadas de vida. Os visitantes mais jovens às vezes chamam-lhe tralha. Para os donos, é um disco rígido externo do coração.

As fotografias digitais são nítidas, infinitas e perigosamente fáceis de esquecer. Passa-se por elas como se passa por tudo o resto. Os objetos físicos resistem a isso. A fotografia desbotada na lareira. O livro de receitas gasto com manchas de molho. A caneca de cerâmica de um café que já fechou. Estas coisas exigem algum espaço e, em troca, devolvem algo intangível: enraizamento.

Numa pequena mesa num apartamento em Marselha, a Aïcha, 78 anos, guarda uma caixa de metal. Lá dentro: cartas do marido quando ele trabalhava no estrangeiro, fotos de casamentos, o primeiro desenho que cada neto lhe deu. Podia digitalizar. Podia fazer upload “por segurança”. Ela escolhe não o fazer. “Quando toco neste papel”, disse-me, “lembro-me do dia. Não apenas da imagem.” O neto fez scroll por 4.000 fotos no telemóvel à minha frente. Custou-lhe a encontrar as férias do ano passado. O contraste foi brutal.

Há aqui uma psicologia silenciosa. As recordações físicas criam o que os especialistas chamam “continuidade do eu”. Lembram-lhe que é a mesma pessoa que dançou naquele casamento, que pegou naquele bebé minúsculo, que se sentou naquela praia. As memórias das redes sociais tentam fazer isto com algoritmos, voltando a mostrar posts antigos no feed. Mas vêm misturadas com anúncios, notícias, ruído. Uma caixa de cartas não tem agenda. Apenas espera até estar pronto para a abrir.

6. Cozinhar “de raiz” como linguagem de amor, não como tendência

Antes dos reels de receitas e dos influencers do meal prep, havia simplesmente… jantar. Os mais velhos que ainda cozinham como os pais cozinhavam raramente falam de “truques de nutrição”. Falam de “usar o que há no frigorífico” ou de “fazer uma coisa boa porque os miúdos vêm cá”. A comida pode ser simples: um guisado que ferve em lume brando durante horas, sopa feita de sobras, uma tarte de maçã que nunca fica perfeita para o Instagram.

Em muitas cozinhas comandadas por pessoas com mais de 60, o telemóvel fica longe da tábua de cortar. As receitas vivem na cabeça ou em cadernos manchados, não num ecrã que está sempre a apagar. O ritmo é mais lento. Há espaço para provar, ajustar, rir quando alguma coisa se queima um pouco. A recompensa é maior do que o prato: um sentido de competência, de cuidado, de ter algo para dar.

Numa tarde de inverno em Birmingham, vi o Graham, 70 anos, fazer a sua tarte de frango emblemática. A massa ficou irregular. O recheio não era fotogénico. A neta, colada ao telemóvel no início, acabou por o pousar para ajudar. Mais tarde, à mesa, disse, quase surpreendida: “Isto sabe a estar aqui.” Esta é a magia discreta da cozinha à moda antiga. Transforma uma terça-feira qualquer em território de “lembras-te daquela tarte?”

Para leitores mais jovens, obcecados com tecnologia, isto pode parecer fora de alcance. O tempo é curto. O takeaway é fácil. Sejamos honestos: ninguém cozinha demoradamente todas as noites. Ainda assim, roubar apenas um ou dois gestos clássicos pode mudar uma semana inteira: fazer sopa ao domingo, fazer um bolo simples com um avô ou uma avó, aprender um prato de família a ver - não pelo TikTok. É menos sobre tornar-se um herói doméstico e mais sobre ligar-se a uma linhagem.

Os mais velhos que mantêm estes hábitos de cozinha muitas vezes dizem sentir-se necessários. Quando o corpo muda e o título profissional desaparece, ser “a pessoa que faz a melhor lasanha” não é pouca coisa. É cola social. Convida visitas. Mantém a mesa cheia e a casa barulhenta. E num mundo onde muitos jovens adultos comem sozinhos em frente ao portátil, esse barulho é outro tipo de felicidade.

Porque é que estes hábitos “antigos” podem ser exatamente o que o futuro precisa

Passe algum tempo a observar como as pessoas mais felizes nos seus sessenta e setenta atravessam um dia, e surge um padrão. As suas vidas não são sem atrito. Ficam na fila dos correios. Perdem os óculos. Esperam por autocarros que chegam atrasados. Ainda assim, entre esse atrito, há rituais que as ancoram: a caminhada, o café, o livro, a nota escrita à mão, a panela a fervilhar.

O que parece ineficiente do ponto de vista tecnológico muitas vezes revela-se profundamente eficiente do ponto de vista emocional. Comunicação mais lenta, menos escolhas, percursos repetidos, receitas familiares - tudo isto reduz o ruído de fundo na mente. Menos alternância. Menos FOMO. Mais “é isto que estou a fazer agora”. Essa clareza deixa espaço para pequenas alegrias que não dependem do nível da bateria.

Gostamos de contar a história em que os jovens ensinam os mais velhos a viver com tecnologia. Essa história é parcialmente verdadeira. Mas outra história está a desenrolar-se em silêncio, em mesas de cozinha e salões comunitários, onde são os mais velhos a modelar algo radical disfarçado: limites com ecrãs, lealdade ao lugar, respeito pela lentidão. Num planeta ligado para estimulação constante, os seus hábitos “à moda antiga” começam a parecer estranhamente futuristas.

Talvez a verdadeira questão não seja porque é que eles se recusam a largar estes hábitos. É porque é que tantos de nós os largámos tão depressa em primeiro lugar.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Escrever à mão Reforça memória, compromisso e sensação de controlo sobre o tempo Inspirar uma organização mais calma, menos dependente de apps
Contactos cara a cara Encontros regulares, clubes, visitas espontâneas Dar pistas concretas para sair da solidão digital
Rituais lentos (leitura, caminhada, cozinha) Hábitos simples repetidos, ancorados na realidade física Mostrar como recuperar estabilidade e prazer fora do ecrã

FAQ

  • Estes hábitos só são realistas para pessoas reformadas? Não totalmente. Pode não ter o tempo livre delas, mas pode aproveitar a estrutura: uma caminhada regular, uma página escrita à mão, uma refeição por semana sem tecnologia já muda a textura dos seus dias.
  • A tecnologia também não é útil para os mais velhos? Claro. Videochamadas, apps médicas e mensagens mantêm muitas pessoas ligadas. O objetivo não é rejeitar a tecnologia, mas proteger espaço onde a vida não é mediada por um ecrã.
  • E se os meus avós não forem nada assim? As gerações não são monolíticas. Alguns mais velhos são tão obcecados por tecnologia como os netos. Os hábitos descritos aqui são padrões, não regras - e pode até ser você a trazer alguns deles de volta.
  • Como pode uma pessoa jovem começar a adotar um destes hábitos hoje? Escolha o que parece mais fácil, não o mais impressionante. Uma caminhada de dez minutos sem telemóvel, ou trocar uma sessão numa app de notícias por uma revista em papel, é uma porta de entrada realista.
  • Ir “à moda antiga” vai mesmo fazer-me mais feliz? Nenhum hábito é uma pílula mágica. Ainda assim, os investigadores continuam a encontrar que rotinas mais lentas e mais vividas no corpo apoiam a saúde mental. Só vai saber quais funcionam para si quando as experimentar na sua vida real - um pouco caótica, um pouco imperfeita.

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